Séries e TV

Entrevista

Westworld | “As pessoas tendem a diminuir o perigo da inteligência artificial", diz cocriadora Lisa Joy

Produtora, diretora e roteirista fala sobre processo criativo e sobre como é tocar uma produção da HBO ao lado do marido

Arthur Eloi
22.06.2018
19h55
Atualizada em
22.06.2018
20h19
Atualizada em 22.06.2018 às 20h19

Apenas pelo escopo e quantidade de pessoas envolvidas, conduzir uma série de TV deve ser caótico. E conduzir um programa da HBO, com narrativa complexa que explora temas existenciais através de múltiplas linhas temporais - e ainda fazê-lo ao lado de seu par romântico?

Para muitos pode ser a idealização do inferno - ou pelo menos de um fim de relacionamento - mas considerando o sucesso de público e crítica que Westworld tem, a cocriadora Lisa Joy não parece encontrar tanta dificuldade em produzir, escrever e dirigir a produção ao lado de Jonathan Nolan, seu marido e coshowrunner do programa.

"É maravilhoso", fala a cineasta aos jornalistas em coletiva na cidade de Londres, no Reino Unido. "Nós temos uma espécie de diagrama de Venn com ideias parecidas, onde estamos no centro. Sempre estamos 100% de acordo, mas ele prioriza certas coisas enquanto eu dou atenção à outras. Penso que toda vez que colaboramos ou discordamos de algo, a intersecção de ideias sempre as melhoram."

Segundo Joy, o processo criativo do casal vai além do set. "Nosso método favorito de trabalho é durante a noite. Somos péssimos em treinar nossos filhos para dormir. Um deles tem um ano de idade e outro tem quatro, mas nenhum consegue dormir sozinho porque ainda não descobrimos como ensiná-los a fazer isso.Temos essa pequena cama onde eu durmo de um lado, as crianças e um cachorro no meio e Jonah na outra ponta.

"Para batermos a história nós conversamos a noite mas não podemos acordá-los. Então trocamos mensagens de texto das 23h até às 3h da manhã, e são das mais estranhas tipo 'a natureza da consciência e imortalidade', uma loucura. Se discordamos de algo, um de nós começa a falar até ver o bebê acordando e surtarmos, como 'fala por mensagem, por mensagem!'. Aprendemos a digitar muito rápido assim."

Joy é uma parte fundamental da identidade de Westworld desde os primeiros momentos. Não só a cineasta produziu todos os capítulos do ano um como também roteirizou vários e, agora na segunda temporada, fez sua estreia como diretora durante "The Riddle of the Sphinx". Ela conta que chegou perto de desistir da ideia por conta de sua gravidez, mas que contou com a ajuda do marido para realizar o que agora é um dos episódios mais aclamados do programa.

"Realmente queria dirigir nessa temporada, mas tinha acabado de ter meu segundo filho. Estava nos últimos estágios de gravidez quando ainda estávamos escrevendo os episódios. Lembro de ter dito à Jonah: 'Não posso dirigir nessa temporada. Será impossível e irresponsável', e ele só me disse 'Você tem de fazer isso, não te darei outra opção. Você me deu apoio quando tivemos nosso primeiro filho e agora é minha vez, vou apoiá-la'."

"Foi uma forma tão carinhosa e generosa de apoio pois ele se manteve fiel a sua palavra, não só escrevendo um maravilhoso roteiro com Gina Atwater para eu dirigir como, bom, tendo trocado muitas mais fraldas que eu", brinca a cineasta. "Comecei a preparação apenas duas semanas após o parto e ele estava lá comigo em todas as etapas. Só conseguiria fazer desse jeito. Nossa série brinca tanto com a troca de papéis típicos que, para fazer o programa, seria necessário que nós fizéssemos o mesmo."

HBO/Divulgação

O episódio quatro, que Joy comandou, apresentou um conceito até então inédito no seriado da transferência de consciência humana para o corpo dos anfitriões. "A parte divertida foi pegar um roteiro incrível e encontrar jeitos de revelar seus temas através da imagem, e prender o espectador na perspectiva do Sr. Delos - especialmente na cena de abertura onde não sabemos exatamente onde estamos. Queria replicar a experiência que os Anfitriões tiveram no piloto, por exemplo, onde não entendiam a natureza da própria realidade. É engraçado pois Jonah dirigiu esse capítulo, então o meu é como uma resposta: esse era sobre um humano preso em uma gaiola sem entendê-la ou o fato de que estava preso."

A produtora também revela um pouco das suas inspirações estéticas: "O lado externo do parque tem cores quentes e naturais, é algo bem naturalista com grande influência de Malick Sidibé. Já no lado de dentro, queríamos fazer algo como 2001 - Uma Odisséia no Espaço, ou seja, bem frio e clínico. Fiz a cena inicial em um braço mecânico para ter aquele efeito calculado, como um experimento controlado. Só trocamos para um modo de steady cam de forma orgânica quando as coisas passam a dar errado e tudo se torna praticamente uma série de terror."

Ainda que seja a primeira experiência como diretora, Joy conta ao Omelete que vê a tarefa como uma evolução natural das suas funções. "Eu amei dirigir, para mim foi como uma extensão da escrita. Cada autor tem seu próprio processo, eu sempre fui muito visual no sentido de que escrevo imaginando o ambiente e pessoas. Ensinamos que nossa série é sobre simulações, mas a própria escrita é o ato de simular algo na sua mente. Todos nós temos isso quando nos imaginamos em algum lugar. Você consegue ver as pessoas e se comover com histórias imaginárias. Para mim, poder pegar esses cenários que vivemos mentalmente e transformá-los em realidade foi fenomenal."

"Minha primeira paixão é a poesia, e poesia é sobre imagem. Linguagem é um veículo de transmissão para a imagem e emoção em muitos dos movimentos que mais gosto. Audiovisual é assim também", complementa.

O amor da diretora por literatura também teve grande influência em ressaltar o simbolismo e também o otimismo no universo de Westworld. "Amo a obra de Kurt Vonnegut, tem várias referência no episódio que dirigi. Vonnegut é muito interessante porque ele viu escuridão verdadeira em sua vida, mas ainda há tanta alegria em sua escrita, tanta experimentação. É como disse Albert Camus no Mito de Sísifo: você vê a feiura do mundo, mas precisa se recompor ao observar esses momentos."

No mundo do seriado, é fácil entender como otimismo e descoberta podem ser ofuscados pela violência. Ainda que um faroeste futurista, o programa lembra a todo minuto seu DNA de Michael Crichton ao flertar com temas de extrema importância para o mundo atual, como o rápido - e até desenfreado - desenvolvimento da tecnologia.

"As pessoas tendem a diminuir o perigo da inteligência artificial. Séries como a nossa, de certa forma, fazem um desserviço: se você espera que a única ameaça de IA seja que se pareça com a Evan Rachel Wood carregando uma arma, você está certo em não ter medo. Mas não é assim que irá se desenvolver, o mais assustador é o que a Delos Corporation está fazendo na segunda temporada: uma máquina que está agregando dados humanos para prever nossos passos, e isso não é tão absurdo assim. Dados, por si só, não são ofensivos até começarem a serem agregados para criar realidades curadas para indivíduos, colocando-os em bolhas cada vez mais profundas. É o fim da conversa real, pensamento profundo e conexões, o que francamente acho incrivelmente assustador."

Westworld é transmitida no Brasil pelo canal pago HBO, todo domingo às 22h30. Além disso, todos os episódios estão disponíveis no catálogo do serviço de streaming HBO Go.