Cartaz de Você Radical

Créditos da imagem: Você Radical/Netflix/Divulgação

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Você Radical | Série interativa da Netflix diverte por ser despretensiosa

Bear Grylls (na voz de Wendel Bezerra) conversa diretamente com o público em jornadas pela natureza

Camila Sousa
10.04.2019
23h54

Black Mirror: Bandersnatch chegou à Netflix em dezembro de 2018 com grande alarde, afinal, aquele era o primeiro filme interativo da plataforma depois de alguns conteúdos interativos mais simples voltados ao público infantil. Com uma história densa e cheia de absurdos dignos de Black Mirror, Bandersnatch fez sucesso entre o público, mas teve opiniões divididas exatamente pela pretensão de entregar uma grande história trama de paralelos entre o que é real ou não.

Já disponível na Netflix, a série interativa Você Radical é o completo oposto disso. Com dublagem nacional de Wendel Bezerra e o carismático Bear Grylls no comando, a ideia da atração é ser divertida sem pretensão, proporcionando momentos engraçados para quem está assistindo sozinho ou acompanhado.

O primeiro ponto que faz de Você Radical uma experiência satisfatória é a conversa em primeira pessoa de Bear Grylls com o público. Assim como as demais séries com o explorador, a dublagem nacional fica por cima do áudio em inglês que pode ser ouvido ao fundo. Essa foi por muito tempo uma característica de dublagem ruim, mas aqui se torna um charme, que traz familiaridade ao público que já conhece as outras produções de Grylls.

O segundo ponto é a missão em si. Os episódios de Você Radical são curtos: o menor é o primeiro, com 14 minutos, e o maior é o terceiro, com 26 minutos. Ao começo de cada episódio é dada uma missão, um objetivo que o público precisará alcançar com o explorador. O fato desse objetivo ser claro - e não subjetivo como em Bandersnatch - faz com que o público crie mais empatia pelo que está acontecendo na tela e se preocupe mais com o resultado. Não é raro se pegar conversando mentalmente com Grylls, questionando e ponderando com ele qual será a melhor decisão.

O andamento da parte interativa é familiar: a primeira decisão é bem simples e o público tem alguns segundos para escolher. Enquanto em Bandersnatch a cena fica em silêncio ou com os personagens fazendo pequenas interações, aqui Grylls argumenta o resultado de cada decisão, o que aumenta a ansiedade positivamente. Se o espectador deixa de escolher, a própria Netflix aponta um caminho e a história segue. Durante o capítulo não há barra de tempo e só é possível avançar e voltar a cada 10 segundos. A maior diferença é que, por ser uma série, o próprio streaming estimula que você volte o episódio, se quiser, para refazê-lo com outras escolhas e ver o que acontece.

A experiência de Bear Grylls na natureza e o fato de ele próprio se divertir enquanto faz as missões transmite ao público uma sensação positiva. Assim como em seus programas, o explorador leva quem o assiste pelos cenários, fala sobre os animais selvagens que aparecem na tela e realmente apresenta tudo o que está acontecendo, aproximando o público e aumentando sua curiosidade. Até mesmo quando alguma decisão é “errada” e ele entra em “perigo”, sua reação é rir e explicar como a natureza realmente é difícil de prever.

Mas claro que há pontos negativos em tanta simplicidade e o maior deles é que fica muito claro que Grylls vai chegar ao objetivo, de uma forma ou de outra, e que ele não vai realmente se machucar. Para quem gosta de subverter a narrativa e tentar algo diferente (Bandersnatch oferece vários finais), aqui não é o lugar para isso. Os resultados de Você Radical não vão gerar grandes teorias ou viralizar e a ideia não é essa. O seriado é feito para ser jogado em uma tarde despretensiosa com os amigos ou em um momento de diversão para passar o tempo.

O que a Netflix mostra com o lançamento de Você Radical é que está disposta a investir em outros gêneros com a interatividade e esse é um bom caminho. O fato da série de Bear Grylls ser diferente de Black Mirror é um ponto positivo. Ao variar as abordagens usando a mesma tecnologia, a plataforma atinge diferentes públicos, que podem não ter gostado tanto assim de Bandersnatch, e testa de que forma o conteúdo funciona ou não. Quem ganha com essa variedade é o público, que pode entrar em uma grande rede de conspiração de um jovem que quer criar um jogo, ou apenas dar uma volta na floresta ao lado de Grylls.