Twilight Zone | Reboot de Além da Imaginação começa morno mas mostra potencial

Créditos da imagem: Twilight Zone/CBS All Access/Divulgação

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Twilight Zone | Reboot de Além da Imaginação começa morno mas mostra potencial

Primeiros episódios jogam seguro demais

Arthur Eloi
12.04.2019
14h53

Twilight Zone - ou Além da Imaginação, como ficou conhecida no Brasil - é um verdadeiro marco da televisão. O programa idealizado, escrito e apresentado por Rod Serling chegou em 1959, quando o meio ainda dava seus primeiros passos, mas sua exploração dos medos e paranoias da época se demonstrou verdadeiramente atemporal, graças à ótimos roteiros e um estilo único de apresentação e estrutura narrativa. A antologia ficou no ar por cinco temporadas, e desde então várias versões - e até um filme - tentaram ser tão relevantes quanto a clássica, mas nenhuma conseguiu chegar a esse patamar - ao ponto da série original ainda ser amplamente reprisada nos Estados Unidos e outros países.

Agora a TV está em uma nova era de ouro. Não só antologias como Black Mirror, American Horror Story e outras estão em alta, como também há um público sedento por obras que usem seu poder para discutir os perigos e pavores da sociedade. É contexto perfeito para tentar resgatar The Twilight Zone. Produzida pela CBS All Access, a nova versão segue a mesma estrutura de contos bizarros a cada episódio - dessa vez com o diretor Jordan Peele (Corra!, Nós) conduzindo os espectadores pelo desconhecido. Enquanto a escolha do cineasta é perfeita, os dois primeiros episódios não deixam uma impressão tão forte assim.

The Comedian”, protagonizado por Kumail Nanjiani (Doentes de Amor, Silicon Valley), abre a temporada e dá um gostinho do que está por vir - seja isso bom ou ruim. Na trama, um comediante fracassado (Nanjiani) recebe dicas valiosas de JC Wheeler (Tracy Morgan), lenda do stand-up que recomenda trazer experiências pessoais ao palco. A partir de então, sua carreira começa a decolar - mas tudo que o protagonista brinca, deixa de existir no mundo real. O conto exemplifica bem o tipo de desventura que define a franquia, mas peca por jogar muito seguro: mesmo a série clássica, na década de 1950, já tinha tramas inspiradas por Fausto, repletas de negociações duvidosas com figuras misteriosas - e mesmo quem nunca viu o seriado deve reconhecer a estrutura, já que a lenda alemã já serviu como base para contos de Stephen King e muitos outros da cultura pop.

Já o segundo episódio, chamado “Nightmare at 30.000 Feet”, joga ainda mais seguro e reimagina o capítulo mais popular do programa, originalmente protagonizado por William Shatner em 1963 - anos antes de seu nome tornar-se conhecido por Star Trek. Aqui, Adam Scott (Parks and Recreation) assume o posto do instável jornalista Justin Sanderson, surtando a bordo de um vôo fadado ao desastre. A modernização funciona bem: após reparar algumas coincidências na numeração do vôo, Sanderson se depara com um aparelho de som esquecido em seu assento, e nele encontra um podcast que parece narrar como tudo deu errado no avião que está a bordo. O roteiro passa uma sensação de desconforto e paranoia que não é vista em “The Comedian”, mas ambos os episódios sofrem do mesmo problema de ter tramas mornas e direção ruim.

A emissora fez um ótimo trabalho em repaginar a linguagem visual de Stark Trek em Discovery, mas há uma falta de estilo que deixa Twilight Zone parecendo mais uma homenagem do que algo novo e oficial - o fato dos dois primeiros capítulos serem tão seguros e repetitivos também não ajuda a tirar essa impressão. Além disso, o narrador de Peele podia ter falas mais longas. Ainda que a tradição seja que ele apareça apenas no início e fim dos tramas, seu monólogo é o que ajuda a dar personalidade ao programa, além de definir o tom do conto e pontuar o impacto de sua conclusão.

Por sorte, ainda há bastante espaço para a série melhorar - afinal antologias, mais do que seriados lineares, costumam ter altos e baixos mais intensos graças às mudanças semanais de diretores, elenco e abordagens. O programa está em boas mãos com a produção de Peele e uma belíssima escalação de nomes conhecidos de inúmeros gêneros, como Zazie Beets (Atlanta, Deadpool 2), Steve Yeun (The Walking Dead), Taissa Farmiga(American Horror Story), Jon Cho (Buscando) e muitos outros.

No fim das contas, não é como se a versão da CBS All Access fosse a primeira da franquia a sofrer tentando reinterpretar o clássico e atingir o alto padrão deixado por Serling. O criador, sempre lembrado como um roteirista de peso na TV e no cinema, puxava inspiração de todo tipo de arte, política e problemas sociais para chocar, indagar e perturbar os espectadores a cada nova semana. A luta para conseguir o mesmo nos dias de hoje só serve como lembrete de como The Twilight Zone original triunfa ao ser pontual para sua época, mas também atemporal.