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Artigo

TV: <i>Dead like me</i>

TV: <i>Dead like me</i>

André Sirangelo
04.11.2003
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h15
Atualizada em 21.09.2014 às 13h15

Para quem pensava que o máximo que a combinação entre ficção televisiva e o tema da vida após a morte poderia gerar era a ladainha de O Toque de um Anjo (Touched By An Angel), o Canal Sony traz em boa hora ao Brasil uma das melhores e mais originais séries norte-americanas dos últimos tempos: a comédia Dead Like Me, criada por Bryan Fuller.

Ontem, dia 3 de novembro, o público brasileiro conheceu Georgia "George" Lass (interpretada pela extraordinária Ellen Muth), uma jovem que decidiu que a melhor maneira de passar pela vida sem desapontamentos é evitando o interesse por ela. A apatia com que George atravessa os dias de sua adolescência só é quebrada pelos conflitos com sua mãe, Joy (Cynthia Stevenson), que a pressiona por ela ter largado a faculdade e não se esforçar para arranjar um emprego.

Até que uma inesperada mudança cai como uma bomba em sua vida – literalmente, e na forma de um assento sanitário desprendido dos destroços da estação espacial MIR. O objeto entra na atmosfera terrestre a mais de 300 quilômetros por hora e se choca contra a superfície, mais precisamente sobre a pobre George, colocando um ponto final em sua existência mundana (pelo menos do jeito como ela a conhecia).

Como se não bastasse a maneira tragicômica com que a garota bate as botas, ela descobre que a vida após a morte, no seu caso, não é uma eternidade de paz e tranqüilidade no Paraíso, e sim uma nova chance na Terra, acompanhada de um emprego compulsório, não-remunerado e bem pouco agradável: o de ceifadora, uma mensageira da Morte.

Agora na condição de "imortal", George é encaminhada a um grupo liderado pelo autoritário - porém simpático - Rube (Mandy Patinkin, de Chicago Hope), do qual também fazem parte Mason (Callum Blue, de As If), um imigrante britânico que morreu no auge da onda hippie, numa tentativa fracassada de alcançar um estado alucinógeno permanente furando a própria cabeça (!); Roxy (Jasmine Guy), ex-dançarina que atualmente divide o tempo entre a função de ceifadora e a de guarda de trânsito; e Betty (Rebecca Gayheart), com quem George estabelece uma relação mais próxima de amizade. Trata-se de uma divisão responsável por capturar as almas das vítimas de crimes e acidentes momentos antes delas morrerem, e assim encaminhá-las para seu destino.

Que destino é este não fica claro - a série é 100% imparcial quanto às questões religiosas da existência pós-existência, o que não deixa de ser uma vantagem. O que importa é a trajetória dos ceifadores ("grim reapers" no original) no plano físico. Todos eles têm corpo e características de uma pessoa viva, com algumas vantagens, como uma nova aparência (para evitar confusões do tipo "oh-meu-deus-você-não-estava-morto???") e um "fator de cura" que impede mais complicações médicas.

Ao longo dos 14 episódios da primeira temporada, a exploração do conflito interior de George, que tem problemas em deixar para trás sua família e se acostumar com os fatos, aos poucos dá lugar a discussões mais profundas sobre como é viver sem o medo primordial da morte, ou - a questão principal da série - sobre como muitos só percebem que a vida é para ser aproveitada quando já é tarde demais.

De fato é uma série que fala sobre a morte querendo refletir sobre a vida. Por trás do humor negro e da linguagem despojada se ocultam diversas questões existenciais. Mas nada de lições de moral: você as entende como quiser. Afinal, Dead Like Me está longe de ser um programa careta, muito pelo contrário. Por se tratar de uma produção do Showtime, canal a cabo americano, não existe a preocupação em evitar situações "maduras", ou o uso da boa e velha "f-word", tão repudiada pela censura nas emissoras abertas, o que pode surpreender um pouco o público acostumado às sitcoms água-com-açúcar que infestam a programação da Sony. Nesse sentido, o êxito de público e crítica alcançado pelo seriado nos Estados Unidos apenas comprova que o politicamente correto não é ingrediente obrigatório para o sucesso de uma série. E, no caso de Dead Like Me, o sucesso é mais do que merecido.

Dead Like Me é exibida pelo Canal Sony todas as segundas, às 21 horas.