Foto de True Blood

Créditos da imagem: True Blood/HBO/Divulgação

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True Blood | Relembre os altos e baixos no aniversário de 10 anos da série

Seriado começou a ser exibido em setembro de 2008

Henrique Haddefinir
10.09.2018
16h06

Alan Ball terminou seu primeiro grande sucesso da TV em 2005 e ela não poderia ter sido melhor sucedida. Six Feet Under foi uma das produções que trouxeram ao canal HBO a reputação que ele sustenta até hoje. Como parte da continuidade da parceria, o novo contrato de Ball previa uma série que ele resolveu fazer depois de ler por acaso o primeiro livro da saga de Charlaine Harris, que apresentava a rotina de Sookie Stackhouse (Anna Paquin) na estranha cidade de Bon Temps, na mitológica e conservadora Louisiana (EUA). Dois anos depois nasceria True Blood, que teve uma trajetória de muita ousadia e extrema ambiguidade.

Apesar de ser baseada nos livros de Harris, a trama foi adaptada, já que Ball tinha uma ideia muito clara de como a série deveria usá-la, e a mão pesada do showrunner continuou presente em todo o processo. Se em Six Feet Under o produtor usava a morte como metáfora ao contar a história de uma família que tinha um negócio funerário, em True Blood Ball voltou a usar a mortalidade como base criativa da produção, ainda que de forma diferente. Saem os efeitos expressivos da morte literal e entram os efeitos dramáticos da imortalidade.

Na história, cientistas japoneses desenvolveram um sangue sintético muito parecido com o sangue humano e com a comercialização, os vampiros – presentes entre nós desde sempre – puderam sair do armário, convivendo “pacificamente” em sociedade. Mas quem esperava pelo glamour do ponto de vista dos vampiros de Anne Rice foi surpreendido pela crueza brutal da normalidade. Embora tivessem alguns poderes, os vampiros de True Blood estavam espalhados pela sociedade de maneiras que iam desde a mais afetada até a mais comum, como em atendentes de lanchonete, professores e donas de casa. A ideia era falar justamente como seria se vampiros pudessem ser pessoas comuns, apenas com uma pequena diferença. A reintegração na sociedade criou o cenário perfeito para a metáfora do preconceito e da discriminação. A ideia era absolutamente genial.

Em torno disso estava Sookie, uma garçonete que por acaso também podia ler pensamentos. Ela conhece Bill Compton (Stephen Moyer), um vampiro secular que chega a Bon Temps para viver sua imortalidade tranquilamente, depois de anos de culpas e tragédias. Os dois se apaixonam (inclusive na vida real) e esse amor controverso começa a rede de eventos que transformaram a cidade num terreno minado, onde vampiros e humanos tentam coexistir com o mínimo de danos possível. Mas claro que isso não acontece. Os humanos não conseguem lidar com a presença dos vampiros e o fato do sangue deles ser usado como entorpecente , se tomado em pequenas doses, não ajuda na convivência. Além disso, o sangue sintético não é tão saboroso quanto o verdadeiro, mas permite aos seres o direito de caminharem livremente entre suas presas.

Sexy Blood

Em sua primeira temporada a série tirou o chão dos espectadores e da crítica. De uma forma extremamente calculada, os roteiros do primeiro ano trabalharam as ambiguidades da trama de forma completa. Isso fica claro já na primeira sequência, quando um atendente de uma loja de conveniências é confundido com um vampiro por seu visual gótico, quando na verdade o vampiro é o cliente gordinho e comum que assiste a cena. Quando conhece Bill, Sookie faz pouco caso de seu nome, afirmando que esperava algo mais altivo como Langford, Basil ou Antoaine. A primeira temporada é tomada dessas sequências em que a existência dos vampiros entre nós é discutida com temperos irresistíveis. Há políticos lutando pela causa no congresso, há campanhas na TV pedindo que a população aceite a presença deles, há organizações religiosas condenando-os... Uma fórmula infalível.

Junto a isso, a estética do programa era outro de seus trunfos. Na mitologia de Harris os vampiros ainda eram feridos pela luz do sol, mas sua composição física ainda permitia que eles fizessem sexo. Com isso, Alan Ball encheu os episódios de muita sensualidade, usando para isso a líbido incontrolável do desnorteado Jason (Ryan Kwanten) e o poder de atração quase absurdo de Sookie, que no decorrer do show colecionou uma invejável lista de parceiros masculinos que passaram pelo vampiro alegórico Eric (Alexander Skargard) e pelo lobisomen Alcides (Joe Manganiello), transformando o seriado, sem querer, num ícone de energia homoerótica. Isso sem esquecer do personagem gay da trama, o estiloso e debochado Lafayette (Nelsan Ellis).

Quando a série estava na quarta temporada, a consciência de que ela tinha virado um exemplo de sexo e homoerotismo alcançou os próprios criadores, que passaram a usar isso a favor do produto, criando cenas que exploravam cada vez mais a beleza dos atores masculinos e a tensão sexual involuntária entre os personagens. O sexo, contudo, nunca esteve à frente dos roteiros, sendo contextualizado na mitologia estabelecida com o tempo.

Em True Blood, o público nunca estava diante de uma coisa só... A relação de Tara (Rutina Wesley) com a mãe era o ápice do estudo da Louisiana; a chegada da inconsequente Jessica (Deborah Ann Woll) e até a forma como uma personagem como Pam (Kristin Bauer) virava sem querer o arauto do cinismo... O seriado tinha processos criativos extremamente particulares e sua linguagem original se o principal legado, mesmo quando as coisas começaram a sair do controle.

Confused Blood

Hoje, olhando em perspectiva, é possível absolver Alan Ball das acusações de ter “se perdido” durante o curso da história da série. Sookie lia pensamentos, Sam (Sam Trammell) era um metamorfo e vampiros estavam por toda parte: os elementos fantásticos estavam ali desde o começo. Na segunda temporada a série ainda teve tempo de aprofundar suas discussões políticas e filosóficas de forma coesa e mesmo a chegada da bacante vivida por Michelle Forbes não prejudicou o andamento dessas impressões. A personagem trouxe para a história a primeira leva de referências mitológicas massivas, mas a partir daí parece que os temperos começaram a prejudicar a receita.

Bruxas, fadas, pessoas-pantera, lobisomens e até a encarnação do demônio Lilith foram espalhados pelas temporadas a partir do ano 3 de uma maneira incisiva. É fato que True Blood é um programa apoiado no gênero do horror e isso permite a linguagem visual bruta, a presença das criaturas fantásticas e o descolamento quase total da realidade: sexo, cabeças rolando, tripas e regras flexíveis são parte do combinado com o gênero. Exatamente por isso, do terceiro ao último ano, a série foi apenas fiel ao que foi criada para ser. O problema é que as doses menores disso oferecidas com cuidado nos anos 1 e 2 deram a impressão de que veríamos um produto que dosaria drama e horror com medidas menos agressivas. Quando chegou na metade de sua vida, True Blood já tinha virado uma série de fantasia como qualquer outra da CW: tudo era sobre vencer inimigos, salvar a mocinha da morte e impedir a aniquilação da humanidade. Acabou a rotina, acabou a simplicidade, acabou a bem-vinda dose de ordinário que mantinha o fantástico em rédeas seguras. O selo da HBO, contudo, impedia o programa de virar uma escória total.

True Blood chegou ao fim cumprindo seu papel de fuçar nas zonas de conforto. Alan Ball é um showrunner de incômodos e mesmo o discutível e enfraquecido desfecho da série não diminui sua importância. Com um charme sulista, seu acesso provocativo aos elementos sobrenaturais típicos daquela região da América, seus personagens críveis e a capacidade admirável de sempre conseguir surpreender com diálogos inteligentes mesmo em meio a tantos absurdos... a série fazia acontecer. O apego emocional faz o seriado ser recordado com mais gentileza, mas ainda que ele tenha sido inteiro e pleno apenas nos dois primeiros anos, True Blood fez mais do que muitas atrações que estão no ar há anos jamais puderam fazer: ela se tornou um marco na cultura pop. Quando "Bad Tihings", de Jace Everett, toca em qualquer lugar, os fãs só podem pensar na insana e incrível abertura da série.