Elenco de Todxs Nós

Créditos da imagem: Todxs Nós/HBO/Reprodução

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Todxs Nós discute gênero com humor, mas nem só de “militância” vive a série

Nova série brasileira da HBO estreia neste domingo (23)

Mariana Canhisares
20.03.2020
17h30
Atualizada em
20.03.2020
17h59
Atualizada em 20.03.2020 às 17h59

Sejamos honestos, a discussão sobre gênero e sexualidade é bem mais complexa do que a gente muitas vezes se permite pensar. Por isso, há quem prefira a ignorância a de fato se aventurar a entender as várias camadas desse debate - até porque admitir não saber ou aceitar desconstruir alguns conceitos pode ser difícil. Por sorte, a série brasileira Todxs Nós chega à HBO neste domingo (22), às 23h, para levantar essas reflexões com muito bom humor e melhor: sem julgamentos.

Quem nos guia nesta verdadeira jornada de aprendizado - ao menos, assim foi para mim - é Rafa (Clara Gallo), jovem de 18 anos que se identifica como não-binárie, ou seja, não se vê nem como homem, nem como mulher. Fugindo de casa, onde seu pai não tem qualquer interesse em tentar entender, muito menos aceitar sua identidade de gênero, Rafa recorre a seu primo Vini (Kelner Macêdo), que mora na capital paulista, para poder finalmente ser quem é, sem amarras. Como Vini é gay, ele vai saber do que Rafa está falando, certo? Bem, não exatamente. Nem Vini, nem sua amiga e colega de apartamento Maia (Julianna Gerais) têm noção do que significa ser de gênero não-binário.

Este definitivamente é um dos grandes acertos do episódio de estreia de Todxs Nós. Criando uma situação cômica, em que nem seus protagonistas sabem a maneira adequada de se dirigir a Rafa, a produção dá leveza a uma discussão que costuma trazer resistência, ou seja, aproxima o público que, talvez, também não entenda por que usar “x” em vez de “a”. Como bem diz Rafa, "é um processo" e desde a primeira cena a série convida o espectador a rir e abrir um pouco a cabeça.

Há, porém, uma clara diferenciação entre a ignorância e o preconceito, importante sobretudo agora, em um momento em que a intolerância anda ainda menos disfarçada. Enquanto Maia e Vini ouvem as explicações de Rafa e até se dispõe a ir a um debate sobre não-binariedade, o pai sequer deixa que encerre suas frases. Com ele, não há discussão. Rafa é Rafaela, não importa como elx mesmx se compreenda.

Era de se esperar esse caráter educativo - ou militante, como prefira - de um seriado chamado Todxs Nós. Porém, a produção da HBO não se resume a isso. Como outras tantas dramédias sobre amizade, a história gira em torno de jovens adultos em uma cidade grande, navegando pelos altos e baixos das suas vidas amorosas. Enquanto Rafa, recém-chegadx e pansexual, fica de flerte com umx artista que admira, Vini tem um namoro firme e Maia se aventura nos aplicativos de relacionamento, uma dinâmica que garante a identificação do espectador, qualquer seja seu status.

Cada personagem ainda vive dilemas próprios. Se Rafa luta por aceitação, Maia, feminista ferrenha, enfrenta um dilema agora que a empresa em que trabalha foi acusada de acobertar um caso de assédio, assunto que não para de pipocar nos seus grupos no Whatsapp. Vini, por sua vez, se prepara para um espetáculo de artes do corpo, no qual ele claramente não se encaixa, e precisa ainda aceitar as loucuras da sua mãe paz e amor.

Sim, estamos diante da bolha hipster de São Paulo. Mas logo no primeiro episódio Todxs Nós mostra que não tem receio de tirar seus protagonistas das suas zonas de conforto. Logo, até mesmo esse estereótipo pode não sobreviver até o final da primeira temporada. A série tem como desafio, porém, dar mais fluidez aos diálogos que, pelo seu caráter didático, às vezes perdem ritmo e parecem recitados. Fora isso, Todxs Nós parece ter tudo para aquecer o coração do público nas próximas noites de domingo.