The Terror fala de saúde mental enquanto assusta: “Não é só sobre os monstros”
Dan Stevens conversa com o Omelete sobre os temas e os bastidores da série
Créditos da imagem: Dan Stevens em The Terror: Devil in Silver (Reprodução)
Quando Dan Stevens leu os roteiros de The Terror: Devil in Silver, dois sentimentos conflituosos ficaram em sua cabeça. “É de partir o coração, mas também horripilante”, define ele em entrevista ao Omelete, referindo-se principalmente à temática da história, ambientada em um hospital psiquiátrico no coração dos EUA.
“É realmente [sobre] ter um olhar muito compassivo para as pessoas dentro dessas instituições, tanto a equipe quanto os internos, e como o subfinanciamento e o abandono da sociedade em relação a esses lugares afeta as pessoas”, comenta Stevens. “Não é como se tudo ficasse bem se esse monstro não existisse, há grandes problemas aqui e coisas que assombram a vida dessas pessoas muito antes de qualquer monstro entrar no prédio”.
Na trama, inspirada no livro de mesmo nome de Victor LaValle, Stevens interpreta Pepper, dono de uma empresa de mudanças que é erroneamente internado no Hospital Psiquiátrico de New Hyde. Lá, ele precisa lutar pela sua liberação enquanto navega um ambiente hostil e ainda começa a suspeitar da existência de um mal sobrenatural entre aquelas paredes.
A seguir, confira a conversa completa de Stevens com o Omelete. The Terror: Devil in Silver está em exibição pelo canal pago AMC Brasil, com episódios inéditos todas as segundas-feiras, às 22h.
OMELETE: Olá, Dan! Sou o Caio, do Omelete, no Brasil. É um prazer conhecer você, e muito obrigado pelo seu tempo.
STEVENS: Olá, Caio. Obrigado!
OMELETE: Essa temporada de The Terror, é claro, mergulha bastante no tema da saúde mental, e especialmente no estado dos serviços públicos de saúde mental. Você foi atraído por esses temas ao ler os roteiros? E o que você acha que a série faz bem nesse sentido?
STEVENS: Sim, com certeza. Quero dizer, essa foi uma grande parte da atração, sentar com o Victor LaValle, que escreveu o romance em que a série é baseada, e perceber o quanto da história vem da sua própria história pessoal, e que se baseia na sua relação com instituições como essa. E realmente ter um olhar muito compassivo para as pessoas dentro dessas instituições, tanto a equipe quanto os internos, e como o subfinanciamento e o abandono da sociedade em relação a esses lugares afeta as pessoas. É de partir o coração, – e, não apenas isso, mas também horripilante. Há tanto horror a ser encontrado ao examinar a instituição e a forma como o sistema de saúde é configurado neste país quanto há horror nos monstros rondando os corredores. Acho que isso faz com que seja uma série muito interessante, onde há horror em todos os lugares. Não é como se tudo ficasse bem se esse monstro não existisse, há grandes problemas aqui e coisas que assombram a vida dessas pessoas muito antes de qualquer monstro entrar no prédio.
OMELETE: Você mencionou Victor LaValle, que escreveu o livro e também é o showrunner da série. Como ator, o que significou para você ter o criador deste personagem tão próximo durante todo o processo e durante as filmagens?
STEVENS: É sempre interessante e um grande privilégio poder ter o autor original, especialmente quando é algo tão pessoal, e você sente que é um verdadeiro guardião da história dessa pessoa e da história da família dela. Mesmo que o livro seja abstraído da realidade, é muito enraizado nisso, e eu realmente senti isso ao longo do caminho. Victor não estava interferindo, mas ele estava lá com toda a alma e coração da história original todos os dias. Isso foi muito encorajador, mas também inspirou todos nós a sermos guardiões desta história e levá-la para a tela. Acho que isso adiciona um elemento especial quando você está fazendo algo.
OMELETE: Também ouvi dizer que esta temporada foi gravada principalmente dentro de uma antiga prisão. Você pode falar um pouco sobre como foi trabalhar dentro desse lugar e que tipo de credibilidade isso trouxe para a série?
STEVENS: Esses lugares são incrivelmente assustadores e estranhos. Todos os dias nós dirigíamos até Staten Island, passávamos por aqueles portões grandes com arame farpado. Agora o lugar está dominado por cabras, não é mais uma prisão, você vai lá fora e há cabras vagando por toda parte, o que por si só foi meio estranho. [Risos] Mas esses corredores vazios, salas abandonadas, coisas rabiscadas nas paredes... ecos dessa vida anterior que o lugar tinha, e o quão estranho e assustador isso pareceu imediatamente, antes mesmo de o departamento de arte entrar e fazer a parte deles. Então, tratava-se de se fundir com os ecos reais e trazer nossos próprios elementos assustadores da série. É sempre muito empolgante ver como o departamento de arte ou de câmera se envolve com o espaço. Foi criativamente muito empolgante, mesmo que tenha sido um pouco bizarro e perturbador.
OMELETE: Tivemos um ano incrível para o terror, tanto em filmes quanto em séries. Como alguém que tem trabalhado muito no gênero, por que você acha que ele tem uma presença tão duradoura? E por que histórias originais prosperam nele quando Hollywood, como um todo, não apoia tanto histórias originais?
STEVENS: Eles deveriam apoiar, e costumavam apoiar. Acho que quando tudo é tão guiado por algoritmos, como acontece hoje em dia, há muita confiança em dados em vez de intuição. Quando você lidera com a intuição, é quando encontra as coisas boas, as coisas originais, as coisas que faíscam e que não haveria como saber que seriam ótimas. Mas aqui estamos nós com um grande cineasta original trazendo imagens que nunca vimos antes, ideias que nunca concebemos. Acho que é isso que precisa ser defendido: a originalidade. O terror nunca vai embora, apenas se tornou mais ou menos mainstream com o tempo. O seu apelo duradouro é que é um lugar para explorar perguntas grandes e difíceis. É um ótimo fórum para histórias e explorações queer, por exemplo, desde o início tem sido um espaço para isso. Acho que isso é mais necessário do que nunca agora: um espaço para explorar algumas dessas questões e perguntar quem é o verdadeiro monstro aqui. É a coisa da qual nos dizem para ter medo, ou é algo completamente diferente? O gênero do terror realmente oferece isso.
OMELETE: Muito obrigado, Dan, e parabéns pelo trabalho.
STEVENS: Obrigado, Caio!
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