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Créditos da imagem: The Outsider/HBO/Divulgação

Séries e TV

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Adaptação de Stephen King, série The Outsider traz dramaticidade ao sobrenatural

Série mostra obra do autor nos moldes da HBO

Henrique Haddefinir
14.01.2020
11h59

Stephen King é a alegria de qualquer estúdio e canal. Além de ter uma capacidade impressionante de produção, o escritor também adora que seus livros sejam adaptados. Em sua carreira, ele nunca teve muito discernimento sobre quem iria adaptar o que, deixando o oportunismo correr solto, o que acabou produzindo aberrações como o filme A Torre Negra (2017) e como a série Sob a Redoma (2013), que distorceram o material original a um extremo que deveria ser criminoso. Eventualmente, entretanto, sua obra cai nas mãos de quem poderia fazer coisas boas por ela.

The Outsider, publicado em 2018, teve sorte e caiu nas mãos da HBO. Richard Price, que escreveu The Night Of, outro sucesso sombrio do canal, parecia também a escolha perfeita para circular o fator sobrenatural da história e dar aos personagens uma rotina dramática que fosse condizente com a marca. Olhando para isso friamente, é como se a HBO estivesse numa linha de fabricação de séries sobre crimes que precisam ser desvendados. Além de True Detective (em que a base da ação é exatamente essa), temos a própria The Night O, Big Little Lies, Sharp Objects, para citar apenas alguns. Fazer drama em torno de crimes que precisam ser desvendados já é a especialidade da rede.

Por isso tudo, olhar para The Outsider é ter uma certa sensação de “mais do mesmo”. Até a direção escolhida por Jason Bateman (que também vive um dos personagens) repete ângulos, luzes e atmosferas que já fazem parte da cartilha desse tipo de produção. Os atores são escolhidos para representar o melhor da infelicidade estilizada e para deixar o mistério em segundo plano, sendo a resolução do suspense a menor das prioridades. Isso, é claro, se não estivéssemos falando de Stephen King, um autor que faz do sobrenatural e do inexplicável a base primordial de seu trabalho. Sendo assim, The Outsider não poderia fazer só drama ou estaria quebrando a unidade do original.

E a série respeita seus anciãos. O drama está a serviço de uma trama curiosa, como é típico de King; e que começa com ares de cidade pequena, quando após o assassinato brutal de um menino, o técnico de uma liga infantil Terry Maitland (Bateman) é acusado depois que uma série de provas incontestáveis contra ele surge horas depois do crime. O problema é que Terry tem um álibi, ele estava em outra cidade e a polícia logo descobre mais provas, também incontestáveis, de que esse álibi é verdadeiro. Então, como pode Terry ter estado em dois lugares ao mesmo tempo? Aqui começa a saga do detetive Ralph Anderson (Ben Mendelsohn) para entender o que aconteceu e encontrar o responsável.

Forasteiro

Ao contrário do que é indicado no primeiro episódio da série, não parecemos estar diante de uma trama científica que envolva clones ou realidades alternativas que justifiquem o ocorrido. No segundo episódio – exibido junto com o primeiro – as novas pistas insinuam uma outra possibilidade, que se conecta com as inspirações de King de uma forma mais familiar. Esses elementos sobrenaturais, que aparecem aos poucos, são essenciais para oferecem o diferencial necessário que tornará The Outsider uma produção minimante distante de todos esses outros produtos investigativos hiperdramáticos que a HBO desandou a fazer na última década.

Além da passagem de Jason Bateman pelo elenco, está nas mãos de Ben Mendelsohn a tarefa de ser o protagonista masculino atormentado e trágico das páginas de quase todo livro de King. É ele quem carrega nas costas o peso de ter acusado um homem possivelmente inocente, o que o coloca em confronto direto com a esposa desse homem, vivida por Julianne Nicholson. Ben é um policial interiorano, de poucas palavras, cético, que vai precisar aprender a trabalhar com Holly Gibney, uma detetive especializada em teorias não convencionais e que é recorrente na obra do autor. Holly é interpretada por ninguém menos que Cynthia Erivo, atualmente indicada ao Oscar de melhor atriz pelo filme Harriet.

Para os leitores da obra literária fica uma certa ansiedade para que as metáforas que emergem do segredo escondido na trama também apareçam na versão televisiva. The Outsider é uma história sobre como os monstros estão entre nós e podem ter qualquer cara, da mais aterrorizante até a mais delicada. Criticado por seus finais, King sempre soube nos conduzir por uma atmosfera de medo e tensão que acabava justificando qualquer tropeço. Mas, os espectadores de The Outsider não devem ter essa expectativa negativa. O “forasteiro” que caminha pelas ruas de Flint City vai movimentar a história de uma forma folclórica, contagiosa, incrível; e pelo que se viu até agora a HBO só vai ajudar essa ótima premissa a ter o tratamento e a qualidade que ela merece.