Séries e TV

Artigo

Supermax, Justiça e a nova era das séries no Brasil

Novas produções nacionais mostram ousadia e potencial na TV aberta

Matheus Machado
10.10.2016, às 15H04

O mundo das séries não para de crescer e não é novidade que o mercado, deste nicho e muitos outros relacionados ao entretenimento, seja dominado pela potência dos Estados Unidos. A grande maioria dos programas são de lá, mas nem tudo gira em torno dos norte-americanos. Não podemos esquecer dos xodós britânicos (como Sherlock, Doctor Who, Skins e Downton Abbey).

Supermax

None

O Brasil sempre teve as suas próprias séries, mas nem sempre podíamos levar a sério as nossas produções "caseiras". Não pela falta de qualidade, mas pelo apreço do brasileiro pelas comédias. Resultado: grande parte de nossas séries originais se limitava ao gênero - Os Trapalhões, Os Normais, Sob Nova Direção, Toma Lá Da Cá e A Grande Família são alguns exemplos dos nossos grandes sucessos.

A variedade das séries na TV aberta vinha da transmissão dos sucessos de outros países - quase sempre em horários inadequados - como de Lost e 24 Horas, exibidas na madrugada, nas férias do Programa do J, ou A Lista Negra (tradução do original The Blacklist), exibida pela Rede Globo logo após o Globo Repórter. Foi assim também que os brasileiros sem acesso à TV por assinatura conheceram séries como Gilmore Girls: Tal Mãe, Tal Filha, O.C. Um Estranho no Paraíso e Smallville: As Aventuras do Superboy - exibidas entre 2000 e 2009 no SBT.  Sem contar “clássicos” como Um Maluco do Pedaço (The Fresh Prince of Bel-Air), Blossom, Eu, a Patroa e as Crianças (My Wife and Kids) e Todo Mundo Odeia o Chris (Everybody Hates Chris), exibidas nas tardes de SBT e Record.

 

Justiça

None

Nos últimos anos, a TV brasileira parece ter recebido um sinal de alerta, começando assim a dar valor para as novas ideias. Existia, porém, um outro vício a ser combatido além da comédia: a novela. O que adianta uma série de televisão igual ao que é exibido na faixa das 18h, 19h e 21h? São formatos diferentes, públicos diferentes e demandas diferentes. A variedade de séries, por gênero, é igual ao cinema, tendo dramas, comédias, terror, suspense e até mesmo o trash aparece em algum lugar uma vez ou outra. Apesar de produções de renome (como a minissérie A Casa das Sete Mulheres, que marcou o ano de 2003) ainda faltava um tempero, uma dose de ousadia nas produções nacionais. Aos poucos, as produções começaram a mudar - Carandiru, Outras Histórias (exibida pela Rede Globo em 2005) é um antigo exemplo das ótimas produções que somos capazes de fazer.

O Canto da Sereia (transmitida pela Rede Globo em Janeiro de 2013) é outro exemplo, pois marca, de certa forma, o começo de novas ideias. O formato era um pouco diferente, retratando uma cantora de sucesso assassinada durante o carnaval. Entre os suspeitos estavam pessoas próximas a ela (como sua empresária, uma mães de santo e alguns compositores). O suficiente para prender a atenção do público. E é assim que o nosso atual cenário de séries nacionais começa a se construir. O Rebu (“novela limitada”, com apenas 36 capítulos, exibida na faixa das 23h pela Rede Globo em 2014) e O Caçador (exibida pela Globo em 2014 com direção de Heitor Dhalia) são outros títulos interessantes, que merecem a citação pelos novos conceitos que começaram a introduzir na TV brasileira.

Magnífica 70

None

Em 2016 tivemos duas surpresas nas produções nacionais para a TV: Justiça e Supermax. A primeira é uma história padrão, cujo diferencial está no conceito sob a qual foi planejada. As mensagens presentes no subtexto dos diálogos e na interpretação reflexiva dos fatos garantiram uma repercussão positiva de público e crítica. Não é perfeita, mas mostrou uma nova luz para o espectador - leia as nossas primeiras impressões.

Supermax pode representar o começo de uma nova era para a produção nacional, em que ideias novas e ousadas não terão medo de se mostrar. A série reality pode não ter correspondido com a expectativa do público (inicialmente), mas é a luz que temos para um futuro próximo. A mescla de realidade - trazida pela essência do reality show - misturada com o terror sobrenatural e suspense da proposta da trama, mostram na eloquência de juntar essas improbabilidades, que nós sabemos criar.

Além da Globo

Mesmo que o mercado da televisão nacional seja liderado pela Rede Globo, outros canais - tanto da TV aberta como na TV por assinatura - também tem focado nas séries. A Record tem investido no formato, dando até uma segunda temporada para a sua novela Os Dez Mandamentos (que também passou pelos cinemas). Além disso, desde o início dos anos 2000, o canal vem exibindo séries internacionais de sucesso, como as da franquia CSI (Nova York, Miami), Breaking Bad (que ganhou o subtítulo de A Química do Mal), House (Dr. House no Brasil) e Bates Motel.

Os canais da TV por assinatura também estão inseridos na produção brasileiras das séries, alguns mesmo antes da Lei da TV Paga (homologada em 2011, que exige 1.070 horas anuais de conteúdos nacionais e independentes inéditos). A HBO é um bom exemplo, que já produziu Filhos do Carnaval (2006), Mandrake (2007) e Alice (2008) e cuja última leva conta com O Negócio (2013) e Magnífica 70 (2015) - que estreou sua 2ª temporada no último dia 2 de Outubro.

Em junho deste ano o Canal FOX também estreou uma produção brasileira, a série 1 Contra Todos - baseada em fatos, que narra a história de um advogado preso injustamente acusado de ser o comandante do maior cartel de tráfico de drogas da América do Sul. No último sábado, a FOX1 teve a estreia de #mechamadeBruna, investindo na história de Bruna Surfistinha - confira as nossas primeiras impressões. O Canal Sony fez sua estreia nas produções brasileiras de ficção com a sitcom Agora Sim (2013) e o canal Warner se prepara para a estreia de Manual para se Defender de Aliens, Ninjas e Zumbis. A Netflix também entra na conta com 3% (série - assista ao teaser) e O Matador (filme), investindo cada vez mais nas produções nacionais.

Ou seja, a produção nacional de séries é variada faz tempo, mas limitada ao público da TV fechada. O atual investimento da Globo em títulos como Supermax e Justiça representa uma nova safra na programação, mais variada, criativa e acessível. Que venha mais.

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados e cookies para as finalidades ali constantes.