Fernando Meirelles faz falta em retorno intrigante, mas morno, de Sugar
Série da Apple TV volta menos envolvente para sua 2ª temporada
A primeira temporada de Sugar, lançada pela Apple TV lá em 2024, foi uma surpresa – em mais do que um sentido. Primeiro, porque ninguém dava muita bola para a produção antes da estreia, com sua pinta de série de detetive protocolar e um Colin Farrell que, apesar de vir de boas atuações em Os Banshees de Inisherin e Batman, já não era chamariz de público como antigamente. Segundo, porque a grande reviravolta da série (a essa altura, ainda é spoiler? - se sim, melhor pular esse parágrafo) era uma das pouquíssimas dos últimos anos que realmente pegavam o espectador desprevenido: John Sugar, nosso detetive protagonista, era um alienígena.
A ideia é audaciosa por si só, mas pelo menos parte da empolgação em torno de Sugar,que levou à sua renovação pela plataforma de streaming, tem a ver com o quanto a série se demonstrou comprometida a não “enganar” o público. A ideia aqui nunca foi vender um neo-noir detetivesco para comprar uma ficção científica espacial, mas sim incluir um “saborzinho de E.T.” num gênero ao qual a produção se mostra inteiramente fiel, inclusive depois de revelar seu grande segredo.
Sugar não se transforma quando descobrimos quem seu protagonista realmente é. O seu charme todo, inclusive, é permanecer exatamente a mesma.
Corta para pouco mais de dois anos depois, e o capítulo de estreia da segunda temporada de Sugar parece entender esse charme só pela metade. Crédito onde ele é devido, primeiro: o roteiro do episódio, assinado pelo showrunner Sam Catlin (assumindo trabalho que foi de Simon Kinberg e Mark Protosevich no primeiro ano), demora irrisórios cinco minutos para resolver o cliffhanger da temporada passada e colocar Sugar de volta em seu hábitat natural. A eficiência é bem-vinda, porque essa é a série da qual estivemos sentindo saudades nos últimos 25 meses, com Farrell dirigindo o seu Corvette conversível pelas ruas de Los Angeles à noite, investigando um desaparecimento. Todo o resto é decoração.
Dessa abertura sem cerimônias em diante, o texto de Catlin combina com sabedoria a sugestão de uma narrativa maior – Sugar ainda está procurando pela irmã, e investigando o senador que pode estar por trás da descoberta de sua raça alienígena na Terra – com a evolução muito concreta do caso da vez. E ajuda, é claro, que atores talentosos como Jin Ha (Pachinko), Raymond Lee (Quantum Leap), Sasha Calle (The Flash) e Laura Donnelly (Outlander) sejam adições imediatamente críveis ao mundo urbano hiper estilizado que a série nos apresenta.
O problema, no caso, é o tal mundo. Na primeira temporada, Sugar tinha Fernando Meirelles e Adam Arkin dividindo a direção e imprimindo um estilo caloroso, próximo, que tingia a sua Los Angeles esfumada com tons intoxicantes. A série seduzia ao remeter ao film noir, ao invés de simplesmente simulá-lo, utilizando a referência desses clássicos como ponto de partida para o estabelecimento de uma linguagem só sua. Salpicados no meio da narrativa principal, os trechinhos de filmes antigos serviam como uma manifestação da memória afetiva – você se lembra disso, do cheiro disso, então sabe para onde estamos indo.
Contratado para dar o pontapé inicial nessa segunda temporada, Michael Morris (operário da TV estadunidense, com episódios de Brothers & Sisters, Bloodline e House of Cards no currículo) simplesmente não tem a “manha” de construir esse diálogo visual com o público. Seus ângulos são burocráticos, sua iluminação em alto contraste deixa espaços sombreados enormes na tela que (ao contrário do que acontece no bom film noir) não expressam nada, e sua encenação dos diálogos de Catlin pouco sintoniza com o tom ao mesmo tempo flertador e ingênuo que ele imprime aos personagens.
Como resultado, “Home Away From Home” mostra uma versão chapada, picotada de Sugar, revelando no que a série se segura quando não tem uma linguagem tão distintiva para chamar de sua. Aqui, o estilo era metade da graça.
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