Sintonia foi o maior presente que ganhei na vida, diz diretor Johnny Araújo
Cineasta comandou série e filme e detalha trabalho nos bastidores para representar a periferia de São Paulo
Se Sintonia conquistou fãs, virou meme e deu carreiras para seu elenco e garantiu cinco temporadas e um filme na Netflix, foi graças ao trabalho de muita gente. Entre os que merecem destaque está o diretor Johnny Araújo, responsável por dirigir não apenas os episódios da série, mas também o filme derivado Nando entre Dois Mundos, que encerrou a jornada do trio de amigos da fictícia Vila Áurea.
Entre os motivos que fizeram de sintonia um sucesso a ponto de ganhar um filme está a busca por veracidade que a obra se obriga a fazer desde seus primeiros episódios. Isso se reflete principalmente na representatividade das periferias paulistanas, algo que Araújo buscou nos bastidores da produção. “Sintonia foi o maior presente que ganhei na vida. Cresci demais como profissional e como ser humano”, celebrou o diretor, que celebrou a consistência narrativa da produção: “A série traz um olhar muito verdadeiro sobre aqueles personagens e ambientes. Ter feito um projeto tão longevo e consistente durante oito anos é algo raro. Não sei quando terei a chance de fazer algo parecido de novo”.
Mas além da celebração ao legado da obra há também o sentimento de despedida, que atinge não apenas o diretor, mas toda a equipe. “Claro que há um sentimento de luto, dá um aperto no coração, mas é isso. Para mim, foi fundamental tanto pelas horas de filmagem e pela bagagem profissional, quanto pela bagagem humana e emocional que recebi”, diz ele.
As cinco temporadas de Sintonia e Nando entre Dois Mundos - Um Filme Sintonia estão disponíveis na Netflix. A seguir, você pode ler a entrevista com Johnny Araújo na íntegra:
Pedro Henrique Ribeiro
Johnny, Sintonia foi uma produção muito importante para o público periférico de São Paulo. Falo isso como morador da periferia. Você está nesse universo desde 2019. Queria entender como foi a sua pesquisa, tanto para dirigir a série quanto para dirigir o filme, e conseguir colocar todos esses elementos lá de forma tão precisa?
Johnny Araújo: Antes mesmo de Sintonia, eu já circulava por esse universo. Iniciei minha carreira fazendo os clipes da MTV no VMB e trabalhei muito com o rap nacional. Fui muito próximo da música, até porque sou um músico frustrado. Fiz os clipes, depois o filme O Magnata com o Chorão, e algumas séries. Mas, quando entrei em Sintonia, você tem toda a razão, entrei num ambiente que eu não conhecia a fundo, pois a primeira temporada tinha o funk muito presente. Então, pesquisei muito e me aproximei das pessoas. Essa vivência na periferia foi o maior presente que ganhei.
Sobre todos esses anos — a série está sendo lançada no nosso oitavo ano de projeto —, posso dizer que ganhei muito como ser humano. Tive a oportunidade de conviver com esse universo, conhecer as pessoas e ter uma troca gigantesca. O KondZilla e eu conversávamos muito sobre manter a identidade da série. Quando assumi a direção, meu maior compromisso era retratar a série de dentro para fora, e não o contrário. Nunca quis ter aquele olhar de binóculo, um olhar voyeur de uma elite observando a periferia e achando curioso. Esse caminho nunca me interessou.
O universo da periferia é extremamente rico. Fiquei muito feliz quando comecei a receber os primeiros retornos das pessoas dizendo o quanto se identificavam com as histórias. Elas viam seus primos, pais e tias na tela. Abordamos três grandes pilares: a igreja, que é fortíssima na periferia; o funk, com o Doni; e o mundo do crime com o Nando, que, sem opções e sem estrutura familiar, acabou caindo pelo caminho mais fácil, sendo uma presa frágil num ambiente onde é rapidamente puxado para isso.
PR: Falando especificamente sobre agora, oito anos depois. Em um filme, o tempo é mais curto e você precisa fazer muitas escolhas de produção. Dentre essas decisões, o que você pensou logo de início que não poderia abrir mão e o que precisava evitar a todo custo?
JA: O que estava muito claro na minha cabeça era que não podíamos perder a essência da periferia. Embora o Nando agora esteja morando em Belgrado e a família dele viva em uma situação melhor, não poderíamos abandonar as raízes. O filme foca nele, mas também mostramos os desdobramentos dos outros. O Doni, por exemplo, volta para a periferia porque percebe que o glamour que ele tanto procurou não era o que o deixava feliz. Ele vai trabalhar com talentos locais. Tentei ao máximo trazer o universo periférico, principalmente na abertura, quando apresentamos o Brasil.
Musicalmente, vi uma grande chance de não perder essa identidade. Abrimos o filme com uma música do MC Hariel ("Forte Pra Dar Sorte") e conseguimos transportar o tempero musical da série para o longa. Mas foi um desafio, pois é outra história, com o Nando na Europa.
PR: Para finalizarmos, gostaria de um comentário seu sobre esse encerramento de ciclo para a franquia.
JA: Sintonia foi o maior presente que ganhei na vida. Cresci demais como profissional e como ser humano. A série traz um olhar muito verdadeiro sobre aqueles personagens e ambientes. Ter feito um projeto tão longevo e consistente durante oito anos é algo raro. Não sei quando terei a chance de fazer algo parecido de novo. Claro que há um sentimento de luto, dá um aperto no coração, mas é isso. Para mim, foi fundamental tanto pelas horas de filmagem e pela bagagem profissional, quanto pela bagagem humana e emocional que recebi.
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