Emmy Rossum em Shameless/ Divulgação/ Showtime

Créditos da imagem: Emmy Rossum em Shameless/ Divulgação/ Showtime

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Shameless retorna para a último ano de Fiona; leia nossas 1ªs impressões

Emmy Rossum deixará o elenco ao final da nona temporada

Henrique Haddefinir
14.09.2018
14h34
Atualizada em
14.09.2018
16h00
Atualizada em 14.09.2018 às 16h00

Talvez seja seguro dizer que a história da versão americana de Shameless na TV tem dois momentos distintos: aquele que vai do primeiro ao quarto ano, quando a exploração narrativa da família era bem mais dramática e brutal (mesmo que a série fosse uma comédia), justamente porque estávamos ainda conhecendo os personagens. O outro momento começa a partir da quinta temporada, quando o elenco começou a sofrer baixas e o drama foi amenizado, dando lugar a um sistema de “esquetes”, em que cada ano os núcleos tinham um fio condutor quase totalmente voltado para o humor. Não significa que o drama não estivesse ali, mas Shameless foi abrindo mão das grandes transformações e passou a ser cautelosa no próprio enredo.

Pode parecer estranho falar em cautela em uma produção onde os personagens estão sempre no limítrofe da sobrevivência. De certa forma, os roteiristas encontraram uma zona de conforto e a única coisa que os empurra para frente é a força das circunstâncias. Emmy Rossum, que vive Fiona – a outra grande protagonista da série, depois de William H. Macy – é o nome da trama da vez e que obrigará a série a tomar alguma grande decisão. A atriz anunciou seu desligamento no final da oitava temporada e depois de algumas questões envolvendo equiparação de salário (ela queria o mesmo que William) , essa saída se correlaciona também, de alguma maneira, com a de Ruth Wilson, de The Affair. Contudo, a nona temporada ganhou episódios extras e sua segunda metade só terminará em março de 2019. Ainda há muito de Fiona para ver.

A première, entretanto, soa como qualquer outra que a série já teve. De fato, o fim da discreta oitava temporada e o início dessa nona são extremamente complementares. Os plots praticamente não passaram por nenhuma curva significativa, mas podemos dizer que já é possível enxergar possibilidades para o futuro. A série tem se dedicado em mostrar que os Gallaghers estão buscando fontes de renda legais, de modo a construírem uma identidade social como jamais tiveram antes. É uma boa coisa, já que passamos muito tempo vendo o legado de Frank se estabelecer como entrave definitivo para o crescimento daquelas pessoas. Isso precisava ser superado e aparentemente, foi.

Fiona Good

Com um elenco quase todo adulto (com exceção de Liam, que teve seu interprete substituído no ano passado) era natural que a série perdesse um pouco de seu espírito coletivo. Cada Gallagher está no próprio quadrado e eles pouco tem afetado a vida um do outro. Como sempre é Fiona quem tem investido nas relações familiares. A personagem está lutando para tirar Ian (Cameron Monaghan) da cadeia e é bastante evidente que o moço não está nem sua forma mais ortodoxa. Foi divertido vê-lo lutando pelos direitos dos gays na cadeia, mas Cameron imprimiu um tom para os momentos alterados de Ian e esse tom parece muito presente em suas cenas.

Fiona cresceu na temporada anterior e foi honesto não arrancar a personagem de suas conquistas, como os roteiristas geralmente costumam fazer. Fiona encontrou uma carreira ligada a toda sua capacidade de administrar o caos e que pode sim ser muito frutífera. Na verdade, é pelo que todos estamos torcendo quando a despedida dela for sacramentada. Shameless não tem a tradição de ser dura com os personagens que precisa abrir mão - então, dificilmente o final dela será trágico. Fiona provavelmente mudará de cidade, irá embora com Ford para algum lugar e seu retorno sempre será possível.

É extremamente curioso, também, que Deb (Emma Kenney) tenha tido uma narrativa toda voltada para a igualdade de salários entre homens e mulheres, já que um dos pontos de tensão que atrasaram as negociações de Emmy para o oitavo ano foi justamente o fato dela receber menos que o outro protagonista. Deb resolveu lutar e fez isso no melhor estilo Gallagher: com falta de senso e escatologia. Do jeito dela, Shameless consegue colocar assuntos como esse em pauta e trabalhar questões como feminismo e gênero através das loucuras de Veronica (Shanola Hamptom) e Kevin (Steve Howey), que sem Svtelana precisam lidar com os filhos. O limite do permissível aparece sempre nas narrativas da série e ver as duas crianças sendo tratadas como cães está nessa galeria. Poderia ser de péssimo gosto, mas acaba não sendo.

A narrativa paternal de Lip (Jeremy Allen) é outro ponto de amadurecimento muito importante; já a loucura da “esposa” de Carl (Ethan Cutkoski) nem tanto. É evidente que ainda veremos todos seguirem nessas tramas por vários episódios (a trama de Frank com as mães da escola de Liam veio do ano anterior), mas mesmo que a virada aconteça só na segunda metade da temporada, ela virá. Há uma importante missão que precisa de todo cuidado: a missão de dizer adeus para aquela que sempre foi a maior pilastra que manteve os Gallaghers de pé por todo esse tempo. Shameless sem Fiona parece impossível. Mas, o que dizer? Eles sempre sobrevivem. Sempre.