Doctor Who/Avatar: A Lenda de Aang

Créditos da imagem: BBC/Nickelodeon/Divulgação

Séries e TV

Artigo

Como a cultura pop salvou minha cabeça na quarentena

Entretenimento tem sido ótima válvula de escape durante período de isolamento

Nico Garófalo
24.09.2021
18h18
Atualizada em
26.09.2021
11h05
Atualizada em 26.09.2021 às 11h05

[Aviso de gatilho: texto aborda tema sensível]

Antes de mais nada, acho importante deixar claro que esse texto é um relato pessoal. Minha experiência, meus gatilhos e como lido com eles é algo extremamente individual e não invalida como outras pessoas cuidam da própria saúde mental. Mas espero sim encorajar quem sente que precisa de ajuda a se abrir, de preferência com um profissional qualificado, e ajudar a criar mais espaços seguros para discussões sobre o assunto. Dito isso, acho que já enrolei demais para começar o texto.

Em 2015, em um dos momentos mais difíceis da minha vida, “descobri” Doctor Who. Na época, passava pelo luto pela morte do meu avô, que falecera em dezembro de 2014, e estagiava em uma emissora que, honestamente, oferecia um ambiente bem tóxico de trabalho. Eu chegava a trabalhar cerca de três ou quatro horas a mais do que o previsto no meu contrato e chegava em casa 2h da manhã para jantar, dormir (muito mal, aliás) e acordar às 6h para ir para a faculdade. A falta de sono, a saudade do meu avô e a pressão colocada pelos meus supervisores no estágio deteriorou minha saúde mental a ponto de eu ter crises de pânico quase todos os dias. O estigma em relação a problemas psicológicos ainda era muito forte na minha família, então, ao invés de um acompanhamento profissional, minha forma de manter a depressão e a ansiedade em xeque foi acompanhando as aventuras do Senhor do Tempo na TARDIS. Claro que a série da BBC não compensou a falta de terapia, mas, naquele momento, eram aqueles 40 minutos de viagem no tempo e espaço que me davam forças para continuar naquela rotina.

Cinco anos depois, como todos sabemos, a pandemia do coronavírus assumiu o lugar desse estágio problemático, mas, desta vez, me julguei preparado para enfrentar as porradas que o isolamento traria. Afinal, em 2020 eu já estava há um tempo frequentando semanalmente a terapia e tomando remédios que deixaram minhas crises menos frequentes. Acontece que, como o próprio título deste texto adianta, não foi exatamente assim que a coisa rolou. Com poucos meses de pandemia, acontecimentos inesperados tanto na minha vida pessoal quanto na profissional abriram caminho para alguns momentos relativamente fortes de pânico que me assustaram bastante e trouxeram de volta alguns pensamentos autodestrutivos.

Depois dessa primeira crise, decidi retomar a estratégia de 2015 e separei um momento diário só para assistir ou ler alguma coisa. Não nego que, no começo, esse “esforço” para me distrair pareceu ingrato. O prazer que eu costumava tirar das coisas parecia não estar lá, especialmente porque a linha já tênue entre meus hobbies e meu trabalho ficou completamente borrada. A mudança veio quando eu decidi (re)maratonar Avatar: A Lenda de Aang e A Lenda de Korra. Não sei exatamente por que, mas acompanhar as duas séries devolveu aquela vontade de consumir cada um dos títulos “encalhados” na minha lista.

Não sei dizer se foi a manutenção de uma rotina ou só o fato de ter criado um momento para me entreter - ou até a soma destes dois fatores -, mas a realidade é que minha cabeça ficou mais leve. Mesmo assustado com os números aterrorizantes da pandemia e a preocupação com o bem-estar de entes queridos, minha mente ainda trabalhava de forma tranquila, dentro do possível.

Desde que passei a morar sozinho, há pouco menos de um ano, a cultura pop tem servido mais do que nunca como uma ponte para afastar a solidão. Além do já citado conforto sentido no entretenimento, discutir séries, filmes, gibis, livros e seja lá qual outro assunto surja em grupos de WhatsApp (algo que eu abominava) ou mesmo com desconhecidos no Twitter vem impedindo que a solidão física afetasse meu psicológico. Claro que conversar pessoalmente faz falta, mas não posso relevar a importância que essas conexões criadas pelo amor em comum pelo mundo do entretenimento tiveram nesse último ano e meio.

Essas conexões também criaram mais espaço para me abrir sobre minha saúde mental. Como disse no começo do texto, estes cuidados não eram frequentes quando minha ansiedade surgiu ou se agravou. Poder conversar sobre o assunto abertamente com quem enfrenta questões parecidas em suas rotinas aliviou o peso que eu sentia quando, mesmo sabendo que estou longe de ser o único a conviver com algum problema de saúde mental, me sentia isolado e incompreendido. De forma direta, a cultura pop me proporcionou um ambiente em que eu me sentisse seguro o bastante para compartilhar minhas aflições, algo que fez muita falta lá atrás.

Se sentir visto e compreendido é muito mais do que um conforto, especialmente quando o contato com outras pessoas é limitado pela distância física. Mesmo que a terapia venha sendo essencial no meu bem estar nos últimos anos, não me imagino mantendo o mesmo controle emocional e psicológico sem o conforto que encontrei na cultura pop.

O Centro de Valorização à Vida tem canais abertos 24 horas por dia com pessoas preparadas e dedicadas a dar apoio emocional e prevenir o sucídio. O serviço é voluntário e gratuito e pode ser acessado pelo site oficial do CVV, pelo telefone no número 188 e em postos de atendimento espalhados por todo o Brasil. Vale lembrar também que o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece acompanhamento psicológico e psiquiátrico gratuito, incluindo os medicamentos que os profissionais julgarem necessários.

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