Se Eu Fechar os Olhos Agora não é uma série convencional, diz Ricardo Linhares

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Se Eu Fechar os Olhos Agora não é uma série convencional, diz Ricardo Linhares

O roteirista e o criador da obra original Edney Silvestre falam sobre a adaptação, que estreia em abril

Henrique Haddefinir
23.03.2019
14h51

Se eu Fechar os Olhos Agora “não pode ser considerada uma minissérie convencional", segundo o showrunner Ricardo Linhares. E de fato não é. Tudo sobre a produção tem uma certa peculiaridade, a começar por seu lançamento, que inverteu a ordem, começando primeiro no Now, para em abril estrear na Globoplay e na rede aberta. Uma estratégia interessante, que funciona quase como um teste, uma maneira de avaliar as respostas emocionais do público e da crítica. Considerando a dramaturgia e o trabalho de adaptação, essas respostas são quase uma inevitabilidade para o espectador da produção.

Se Eu Fechar Os Olhos Agora é baseada no livro de Edney Silvestre que, mesmo sendo um autor de sucesso no meio literário, é mais conhecido pelo público por seu trabalho como jornalista. O livro foi seu primeiro romance e ao falar sobre ele a paixão e a segurança das próprias referências fica muito evidente. "Gosto de literatura ancorada na realidade do país, como está na Rússia de Tolstoi, na França de Zola, na Europa de Hemingway, nos Estados Unidos de Philip Roth, no Brasil de Graciliano Ramos. Sou testemunha de como a História, no sentido macro, interfere e altera nossas histórias pessoais”, explicou. “Em Se Eu Fechar os Olhos Agora, o que começa como uma trama de assassinato de uma mulher devassa abre um panorama de mais de um século de nossa história, em que estão as raízes da destruição de Anita (Thainá Duarte) e de sua família”. O autor visitou as filmagens e deu carta branca ao também roteirista Ricardo Linhares para que enriquecesse ainda mais o universo da obra: “hoje já não sei mais dizer com segurança o que está no original e o que foi criado por ele”, afirmou Linhares.

Ao longo de 10 capítulos, a minissérie contará a história dos amigos Paulo (João Gabriel d’Aleluia) e Eduardo (Xande Valois), que são muito diferentes, mas acabam unidos por uma descoberta funesta: descobrem o corpo de uma mulher perdido na mata. A partir daí, uma investigação policial costura a história da minissérie, enquanto outras “investigações” correm em paralelo, de uma ordem muito mais pessoal. “Escrevi os episódios de modo que a verdade por trás das aparências seja revelada em pequenas doses”, disse Linhares. “No fundo, ninguém é o que aparenta ser. Os personagens dissimulam e reprimem seus sentimentos para serem aceitos na vida em sociedade. Mas os crimes e suas consequências vão desvendando as pequenas vidas escondidas por trás das fachadas de cada um. Para isso, construí a narrativa em diversas camadas. No primeiro plano, os crimes e o risco de morte geram tensão e expectativa. Enquanto isso, eu vou descortinando as outras camadas, mostrando o que está oculto sob a aparente harmonia das relações sociais”.

A história se passa no início da década de 1960 e, apesar de se tratar de um thriller em essência, explorará através de seu texto uma série de posicionamentos da sociedade daquela época. “Os sintomas não são unicamente regionais", completou Silvestre. "Racismo, intolerância, corrupção têm sido males que nos afligem e nos prejudicam desde que o Brasil era colônia de Portugal”. Ricardo Linhares, contudo, reforçou que a fluidez da dramaturgia só foi possível porque não foi escrita com propósitos discursivos: “Não procurei abordar assuntos contemporâneos. Grande parte dos conflitos daquela época é que permanece atual, infelizmente. Isso dá atualidade à temática, mas a série retrata o período e os costumes de acordo com a mentalidade de 1961 (...) A história é contada do ponto de vista do período, mas o público vai reconhecer e se espelhar em várias situações, porque a essência dos sentimentos continua a mesma, sejam conflitos amorosos, sociais, ou comportamentais”.

De Olhos Bem Abertos

A história da minissérie tem referências atraentes e bastante abrangentes. A trama policial nos remete a Twin Peaks, em que a morte de Laura Palmer afeta todo o organismo sócio-cultural da cidade. Aqui, é a morte de Anita que exerce esse papel. Porém, a identidade visual de Se Eu Fechar Os Olhos Agora contorna o gênero noir e não deixa de passar pelo que de mais envolvente existe na dramaturgia brasileira. O público do seriado vai descobrir as referências, mas o folhetim está presente no DNA da produção. Ricardo Linhares falou um pouco sobre isso: “Meu objetivo foi fazer uma narrativa com dramaturgia brasileira, sem seguir o estilo policial ou detetivesco americano e inglês. Cada capítulo tem uma estrutura independente, o que foge da linguagem das novelas e minisséries nacionais, e o aproxima de uma série. Por exemplo, não acompanho todos os personagens em todos os episódios. Eles só aparecem quando são necessários para a história. Ubiratan (Antonio Fagundes) só entra a partir da metade do segundo episódio. Em qualquer outro produto audiovisual brasileiro, uma estrela como Fagundes teria que aparecer desde o primeiro capítulo. Hanna (Betty Faria) entra apenas nos dois últimos episódios, pois antes não teria função na trama. Procurei criar uma narrativa diferenciada do que estamos acostumados a assistir na TV aberta brasileira. Desenvolvi personagens que eram esboçados no livro, como Geraldo Bastos (Gabriel Braga Nunes) e Dom Tadeu (Jonas Bloch). Inventei novos personagens como Adalgisa, uma ex-miss, (Mariana Ximenes), Edson (Gabriel Falcão) e o repórter Cassiano (Pierre Batelli), entre outros, estabelecendo novos laços românticos, familiares e de amizade".

Na televisão americana, o sucesso de minisséries como Big Little Lies e The Sinner acabou resultando em uma mudança de conceituação e os produtos se tornaram séries, ganhando novas temporadas. O autor Edney Silvestre foi otimista sobre a possibilidade: “A continuação já existe. Desde o começo. No meu romance há mais informações sobre os homens adultos que Paulo e Eduardo se tornaram, assim como os destinos que os aguardavam (...) há mais em Se Eu Fechar os Olhos Agora e na continuação do romance, depois que Paulo e Eduardo saíram da cidadezinha”. Com esse elenco espetacular que a minissérie apresenta, somado aos personagens ampliados ou desenvolvidos por Ricardo Linhares, às imagens de enorme beleza, às tramas intrigantes e a um cenário como nunca foi visto no Brasil, nem no exterior, Se Eu Fechar os Olhos Agora talvez tenha, mesmo, fôlego para outras temporadas.

Linhares, apesar do claro desejo de ver o universo estendido, deu uma resposta mais realista: "no momento, estou fazendo a supervisão de texto de duas novelas (Amor de Mãe, de Manuela Dias, pras 21h, e Malhação 2020, de Priscila Steinman) e elaborando os capítulos de uma série inspirada em Cacau, livro de Jorge Amado. Mas se houver o interesse em uma segunda temporada, eu topo. Gosto de trabalhar e de criar! Já sei até como seria o ponta-pé inicial. Mas acho que isso dificilmente acontecerá em função dos compromissos que eu, o diretor e o elenco já assumimos".

Com um crime a ser desvendado, uma amizade que resiste a todo mal e muitos segredos escondidos com sorrisos no rosto e reputações ilibadas, a minissérie Se eu Fechar os Olhos Agora tem direção de Carlos Manga Jr. e ainda Murilo Benício e Debora Falabella no elenco. A estreia acontece em abril na Globoplay e na TV aberta.