Riverdale

Créditos da imagem: CW/Divulgação

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Riverdale retorna com comovente tributo a Luke Perry

Sufocada em eventos eloquentes e inverossímeis, Riverdale respira numa homenagem delicada e justa ao trabalho do ator

Henrique Haddefinir
11.10.2019
19h08
Atualizada em
11.10.2019
19h28
Atualizada em 11.10.2019 às 19h28

Luke Perry não estreou na TV em Barrados no Baile (1990-2000), mas foi nessa produção que encontrou o estrelato. Dylan, seu personagem no drama adolescente, era um quase bad boy, com jaquetas de couro pretas, topete e aquela falha na sobrancelha providenciada especialmente para encantar os corações das adolescentes carentes da época. Dylan era um solitário, não tinha uma relação próxima da família e ainda por cima colecionava confusões por causa de garotas e pelo seu temperamento. Esse início de carreira para Luke não deixa de ser emblemático quando colocamos em perspectiva o tipo de personagem que ele vivia em Riverdale: um homem cheio de raízes, um pai dedicado e um membro absolutamente adorado da comunidade.

Fred Andrews – o nome de seu personagem na série – se ausentou da produção ainda na reta final da temporada 3, no início desse ano. Fred não estava em uma narrativa especialmente relevante quando Luke faleceu depois de um AVC, nos primeiros dias de março. Mas seu papel na série não era o de protagonizar grandes viradas, pelo contrário. Em meio ao ritmo descontrolado das histórias de Riverdale, chegava a ser um bálsamo que o Sr. Andrews estivesse ali, com suas mesmas camisas xadrez, mexendo em ferramentas e dando conselhos sensatos ao filho (que é uma espécie de Dylan). Sua partida efetivamente não afetará em nada a rotina da louca cidade, mas com a morte do personagem uma fatia essencial de humanidade foi perdida.

Quando olhamos para trás, tivemos outros papais que precisaram se despedir de produções seja por causa do roteiro ou por causa dos atores que os viviam. As mortes de Jonathan Kent (John Schneider) em Smallville e de Mitch Lerry (John Wesley Shipp) em Dawson’s Creek, por exemplo, foram muito marcantes. Em ambos os casos, o perfil dos personagens era o mesmo; pais adorados que estavam sempre apoiando e aconselhando seus filhos (e servindo de figuras paternas para outros personagens). Até mesmo pais que não se despediram das séries em que estavam inseridos, como o Burt (Mike O’Malley) de Glee, detinham também esse mesmo grupo de qualidades, que não são usados para uma narrativa se movimentar, mas para serem uma voz que pondera ou guia os personagens  entre os momentos de tensão. Porém, em nenhum desses casos a despedida era mútua – ficção e realidade – o que torna essa volta de Riverdale um pouco mais especial.

No meio do caminho tinha uma Brenda...

As piruetas dramatúrgicas são uma praxe da linguagem da série, que temporada após temporada mostra os personagens enfrentando todo tipo de extremo sem que respeitem nenhum tipo de rotina. Mesmo assim, meses depois, está tudo como antes. Ainda que mortes eventualmente aconteçam, nenhum senso real de perigo se aproxima dos personagens principais, justamente porque o objetivo da série é empilhar ganchos e reviravoltas que apenas impeçam o espectador de dormir. A histeria dos roteiros é tanta, que qualquer pausa desafoga os acontecimentos e dá tempo aos personagens de aproveitarem um outro ritmo. Esse é, sem dúvida, o segundo grande ganho desse episódio inicial da temporada, além da homenagem ao último trabalho de Luke como ator.

Ausente dos episódios finais da temporada passada, Fred foi substituído pela mãe de Archie (KJ Apa) na função de conselheiro. Os produtores foram espertos e chamaram Molly Ringwald para viver a personagem, mantendo a ligação dos pais do protagonista com ícones dos anos 80-90. Os dois foram atingidos pela notícia de que Fred morrera depois de um atropelamento criminoso na beira de uma estrada, onde ele, é claro, parara o carro para ajudar uma mulher que tivera o pneu do carro furado. Durante alguns minutos parece realmente que o roteiro vai se aproveitar do caso para criar um mistério em torno de quem executou o atropelamento. Mas, com o primeiro golpe emocional desferido pelo episódio, essa preocupação vai diminuindo.

Shannen Doherty abandonou o elenco de Barrados no Baile na quarta temporada, mas sua história com o personagem de Luke ficou marcada como uma das mais icônicas do mundo seriado. Foi especialmente delicado que a produção de Riverdale tivesse pensado em honrar não só o presente de Luke, como também parte de seu legado. Shannen já havia tentado promover um encontro com Luke antes, mas infelizmente ele não aconteceu. Sua aparição em Riverdale aconteceu em circunstâncias adversas, mas seu trabalho foi sensível, correto; e aumentou a ideia de tributo que em episódios como esse não pode ser abandonada. A atriz demonstrou um imenso pesar diante da morte do amigo e, inclusive, homenageá-lo foi a única razão pela qual ela aceitou voltar no reboot de Barrados no Baile.

Sem viradas rocambolescas, o episódio chegou ao seu final fazendo o que Fred Andrews sempre fazia: ensinando-nos uma lição. A  resposta radical pode esconder circunstâncias complexas que não necessariamente representam a maldade. Enfim, a Riverdale que só se reunia para massacres e perseguições, se uniu por um objetivo mais nobre. A “volta” de Fred para a cidade foi o momento mais comovente de todo o episódio; e talvez justamente porque não tinha tantas palavras. O texto da série é industrial, só repete métodos, mas aqui, nesse tributo, trouxe uma atmosfera de realidade, de temperatura, de comoção, do mesmo jeito que acontece com histórias contadas do nosso lado quando alguém vai embora. Luke foi honrado como deveria... Deve ter ficado feliz com o que viu.