Rick and Morty retorna afiada e familiar, mas distante de sua fórmula perfeita

Créditos da imagem: Cena do 6º episódio da 4ª temporada de Rick and Morty, Never Ricking Morty

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Rick and Morty retorna afiada e familiar, mas distante de sua fórmula perfeita

Cuidado com spoilers do sexto episódio da 4ª temporada de Rick and Morty

Julia Sabbaga
05.05.2020
13h44

Quando a segunda parte da 4ª temporada de Rick and Morty ganhou o seu divertido trailer, eu não apenas me animei com o retorno de Bola de Neve, Tammy e a cidadela de Ricks como cheguei a montar uma lista com as possibilidades e teorias que a prévia estabelecia. E então, algumas semanas depois, recebemos o primeiro episódio da nova leva do 4º ano, e eu levei aquele singelo tapa na cara da produção de Justin Roiland e Dan Harmon. E eu deveria ter imaginado. Se tem algo que Rick and Morty nunca foi é previsível. 

Todas as aparições que retornam no trailer - e algumas outras que teriam me animado ainda mais - fizeram parte do novo e sexto episódio, “Never Ricking Morty”, e nada delas significa muita coisa. A estrutura do capítulo, que claramente veio para ser o “Interdimensional Cable” desta temporada, brinca com a metalinguagem e com a expectativa dos fãs da melhor maneira possível. Com pequenos segmentos narrativos e pouca conexão entre eles, Rick and Morty voltou a tirar sarro de si mesmo em um episódio inteiro que mal traz o real Rick e o real Morty. Na dimensão tradicional, a dupla apenas brinca com um “trem de histórias”, e tudo que vimos nos primeiros 17 minutos do episódio não aconteceu. 

Depois de um começo fraco de temporada, “Never Ricking Morty” é certamente um conforto. A química tradicional entre avô e neto retorna ao que já havia evoluído durante as três primeiras temporadas (por mais que tenhamos visto apenas um relance disso no capítulo) e a volta do episódio feito de pequenas esquetes, que começou na primeira temporada com “Interdimensional Cable”, teve sua sequência na 2ª temporada, e na 3ª se reinventou com “Morty’s Mind Blowers”, mostra uma reaproximação com a fórmula familiar. Além disso, ver a série voltar o seu cinismo afiado em piadas metalinguísticas é outro acerto. 

Mesmo assim, Rick and Morty ainda soa desequilibrado. “Never Ricking Morty” dá uma certa nivelada na balança, retornando para um território conhecido e interrompendo uma estratégia que parecia estar presente em todos os episódios anteriores do novo ano, de se negar ser ele mesmo. Durante o início da temporada, mais parecia que Rick and Morty usava o cinismo para recusar falar de qualquer coisa real, que empolgasse os fãs de verdade, como se houvesse uma negação em se glorificar, algo que sempre fez parte da série, esperta demais para ela mesma ou para qualquer público. Discutir (metalinguisticamente) o fato de que não há um caminho certo para seguir pode ser repetitivo, mas nada neste capítulo parece tão aleatório quanto as tramas dos primeiros cinco da 4ª temporada. 

Ousado e sem medo de incomodar, “Never Ricking Morty”, no entanto, tropeçou em falta de humor e complexidade excessiva. Quando se chega no fim, tudo se revela simples e pouco importante, mas isso não impede que o capítulo tenha quase sua duração completa em uma viagem confusa que, sem grandes piadas memoráveis, tem pouca recompensa por tempo demais (algo talvez como o 3º episódio da temporada, “One Crew Over the Crewcoo’s Morty, que se embaralha em uma sátira de filmes de roubo longa e pouco frutífera). Ainda falta à Rick and Morty na 4ª temporada aquele gancho hilário, o tempero que faz da série muito mais do que uma viagem cínica e debochada no tempo e espaço.

Talvez o que mais atrapalhe Rick and Morty atualmente é que a série atingiu um auge brilhante em sua 3ª temporada, e desde então, tem se recusado a retornar e aprofundar em arcos e tramas já estabelecidos. Não à toa, “Never Ricking Morty” traz de volta o “Evil Morty”, o exército de Ricks, a Tammy, o Bola de Neve (e até um “Evil Mr. Poopy Buthole”) tudo para uma sátira de seu próprio finale, como se qualquer coisa que a série tramasse realmente não fosse recompensar a expectativa dos fãs. Mesmo assim, a tentativa de desfecho é mais digna do que a fuga da responsabilidade por medo de frustração.