O Doutrinador | Série começa com clichês e trama pouco inspirada

Créditos da imagem: Space/Divulgação

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O Doutrinador | Série começa com clichês e trama pouco inspirada

Com roteiro esburacado, produção brasileira não encontra identidade própria

Nicolaos Garófalo
20.08.2019
17h20
Atualizada em
20.08.2019
17h46
Atualizada em 20.08.2019 às 17h46

Discutir justiça com as próprias mãos dentro da cultura pop é, automaticamente, falar também de Justiceiro. Afinal, Frank Castle se tornou sinônimo da luta contra o falho sistema policial e judiciário americano e, depois de uma tragédia pessoal, adotou a alcunha que ficaria ainda mais conhecida após a boa interpretação de Jon Bernthal nas séries da Netflix.

Ao mesmo tempo, falar da “luta contra o sistema”, pelo menos no Brasil, é lembrar do Capitão Nascimento, personagem imortalizado por Wagner Moura que, com treinamento militar, pouco se importava em dobrar as morais e jogar os direitos humanos pela janela para ir atrás de traficantes nas favelas do Rio de Janeiro em Tropa de Elite. Em um amálgama destas duas premissas, O Doutrinador tenta dar ao espectador uma resposta à situação política, constantemente protagonista de escândalos, independente de ideologias partidárias.

Inspirada na HQ homônima de Luciano Cunha, a série segue Miguel (Kiko Pissolato), policial da Divisão Armada Especial (DAE), que prende o governador Sandro Corrêa (Eduardo Moscovis) em um desdobramento da Operação Linfoma, que investiga o desvio de verba pública dedicada à Saúde. Culpando uma tragédia pessoal no grupo de políticos investigados, o agente se junta, por puro acaso, a uma manifestação contra a soltura do governador Corrêa. É nessa situação que nasce o Doutrinador.

Ao contrário da HQ, onde o anti-herói era um “supersoldado” criado na época da ditadura, a série humaniza sua identidade secreta, dando a ele um passado plausível e uma família. Infelizmente, os diálogos engessados e o roteiro esburacado fazem com que esse esforço seja em vão. A facilidade com que Miguel supera o luto ou mesmo sua relação com a black-block e hacktivista Nina (Tainá Medina) são injustificáveis, assim como qualquer sensação de suspense que a trilha sonora ou os jogos de câmera tentam criar.

O fato da série ser uma versão estendida do longa lançado em 2018 torna a pressa da trama ainda mais discutível. A inclusão de personagens, núcleos e até execuções serve apenas para distrair mais o espectador do enredo principal, fazendo com que seja impossível sentir qualquer coisa além de indiferença pelos protagonistas, estejam eles assistindo televisão ou trocando tiros com os vilões.

Não existem riscos nas ações do Doutrinador. Mesmo quando perseguido por seu melhor amigo após mais uma missão, sabemos que o anti-herói escapará, apesar de, teoricamente, ter passado pelo mesmo treinamento do homem que tenta prendê-lo. Como se essa vantagem física de Miguel não fosse cômica o bastante, os vilões políticos são os mais cartunescos possíveis, rindo diabolicamente a cada novo plano de Caixa 2, sempre com charutos ou uísques  em mãos.

Apesar disso, o esforço da série em expandir o universo da HQ não passa despercebido. Colocar o repórter Dantão (Ricardo Dantas) como fonte do DAE ao invés de informante direto do Doutrinador, ou mesmo trocar o Guto dos quadrinhos por Nina nas telas, distingue a versão televisiva, mas torna impossível não traçar paralelos com o que era feito em Justiceiro, principalmente quando ouvimos uma definição muito semelhante à que a série de Castle dava sobre estresse pós-traumático.

Colocar Miguel dentro de uma força-tarefa especial da polícia federal é, talvez, a maneira mais confortável de trazer o espectador para o seu lado: além já termos visto – e aplaudido – esse tipo de personagem em Tropa de Elite doze anos atrás, o fato de ele caçar membros da “velha política” ainda satisfaz a sede de revanchismo político que tomou o país nos últimos anos.

Estruturalmente falha nestes primeiros momentos, O Doutrinador tem oportunidades para crescer nos próximos episódios. Desenvolvendo mais personagens como Edu (Samuel de Assis) e Diogo (Nicolas Trevijano), membros importantes do DAE, ou dando mais tempo para relações se formarem, a série tem a capacidade para merecer uma segunda chance. 

O Doutrinador estreia no canal Space em 1º de setembro, às 21h.