Pico dos Marins | O achado acidental que transformou a série do Globoplay
Produção está disponível completa no serviço de streaming e é inspirada no podcast de mesmo nome
Marcelo Mesquita não estava procurando ouro. Estava vasculhando caixas na casa do Seu Ivo atrás de material de imprensa sobre o escotismo quando encontrou, perdida num canto, uma caixa de tênis da Adidas. Dentro estavam uns 14 rolinhos de Super 8. "Falei: 'Seu Ivo, o que é isso?'. Ele olhou e falou: 'Ah, não sei, Marcelo, eu filmava tanta coisa'". O que estava gravado ali mudaria completamente o documentário que Mesquita ainda estava cozinhando em seu interior.
Pico dos Marins: O Caso do Escoteiro Marco Aurélio estreou no Globoplay em 12 de maio, com oito episódios que expandem o podcast lançado em 2022 e que ultrapassou 1 milhão de downloads. A série acompanha o desaparecimento de Marco Aurélio Simon, escoteiro de 15 anos visto pela última vez em 8 de junho de 1985, durante uma expedição ao Pico dos Marins, em Piquete, no interior de São Paulo. Mas o que separa esse documentário da infinidade de produções true crime que inundaram as plataformas nos últimos anos é justamente uma decisão estética que nasceu de um achado casual num cômodo cheio de caixas.
Depois de assisti-los, Mesquita encontrou o Marco Aurélio escoteiro, o irmão gêmeo Marco Antônio, o próprio Seu Ivo, pai dos jovens, imagens do casamento, das crianças no sítio, das fanfarras. E percebeu que o Seu Ivo havia parado de filmar assim que o filho desapareceu. O Super 8 não era só um formato: era a memória de uma família congelada num ponto específico do tempo. "Comecei a pensar: é isso. Essa é a memória do Seu Ivo", contou o cineasta em entrevista exclusiva ao Omelete. A decisão que veio em seguida foi a de usar a mesma câmera, os mesmos rolinhos, para filmar as dramatizações da série.
O que torna a escolha ainda mais precisa é que Mesquita não inventou as cenas. O relatório escoteiro da expedição de 1985 registra exatamente o que aconteceu naqueles dias: a fogueira, a eleição do monitor, os rezos do grupo, a separação. Tudo isso virou roteiro, foi para a Super 8, e o resultado é um material em que a linha entre arquivo e ficção fica propositalmente turva. Para as dramatizações que precisavam ser claramente identificadas como tal, a equipe usou a Alexa, câmera digital de alta resolução, sem grão, sem o negativo que caracteriza a película. Na Super 8, segundo Mesquita, o espectador fica em dúvida, e essa dúvida é exatamente o que ele queria.
A produção de bastidores não foi simples. Piquete e as cidades do sul de Minas vizinhas ao Pico dos Marins são, como Mesquita descreve, "paradas no tempo". A delegacia onde os escoteiros foram interrogados em 1985 é a mesma, no mesmo prédio centenário. A casa do Seu Afonso ainda existe. Com a direção de arte, a equipe buscou fotografias originais para devolver a aparência do espaço como ele era na época, e gravou lá dentro. A reconstituição, portanto, acontece nos mesmos lugares onde tudo aconteceu de verdade.
Mas a caixa de tênis não foi o único achado que a série guardou para si. Entre as visitas à casa do Seu Ivo, Mesquita descobriu outra coisa que o podcast jamais mencionou: duas fitas em que a Dona Neuma, mãe de Marco Aurélio, falecida em 2015, havia entrevistado o Juan, o chefe escoteiro que liderava o grupo no dia do desaparecimento e que se tornou o principal suspeito das investigações. As gravações existiam, estavam lá, e Mesquita escolheu guardar parte desse material conscientemente para a série. Não porque o podcast precisasse de ganchos, mas porque aquilo era grande demais para caber num áudio sem imagem.
O peso desse material vai além do conteúdo das fitas em si. Dona Neuma entrevistando o Juan é uma mãe diante do homem que, para parte da família e das investigações, sabe mais do que diz. É um confronto que aconteceu fora dos autos, longe da polícia, conduzido por uma mulher que não estava disposta a esperar. Mesquita sabia que aquilo precisava ser visto, não só ouvido. E que a série era o único lugar onde esse material poderia ter o peso que merecia.
O podcast e a série, portanto, não são a mesma coisa contada em formatos diferentes. São obras que se completam deliberadamente: o áudio constrói a base, planta as perguntas, e a série chega com o que ficou guardado, as imagens de Super 8 do Seu Ivo, as fitas da Dona Neuma, as dramatizações filmadas nos mesmos lugares onde tudo aconteceu. Mesquita foi a fundo numa história que começou como um café de 40 minutos e durou oito anos. A caixa de tênis foi o ponto de virada. As fitas da Dona Neuma foram a confirmação de que havia mais a ser contado.
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