Pátria capricha na tensão para narrar mistérios sobre famílias rivais e o ETA

Créditos da imagem: Pátria/HBO/Reprodução

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Pátria capricha na tensão para narrar mistérios sobre famílias rivais e o ETA

Nos primeiros episódios, adaptação do livro de Fernando Aramburu estabelece as bases para explicar como uma relação até então amigável entre vizinhos culminou em um assassinato

Mariana Canhisares
29.09.2020
12h13

O que não falta a Pátria é tensão. Desde a primeira cena, a nova série espanhola da HBO investe em um clima de insegurança e mistério para narrar a jornada de duas famílias rivais, devastadas cada uma a sua maneira pelo conflito basco. O ingrediente em comum à história destes dois lares vizinhos são as ações do ETA, grupo separatista que deixou mais de centenas de mortos e milhares de feridos nas suas décadas de existência e cujos atentados marcaram profundamente o País Basco, sobretudo as vidas das antigas amigas Bittori (Elena Irureta) e Miren (Ane Gabarain). Enquanto uma teve seu marido assassinado por um dos membros da organização, a outra viu seu filho militar a favor do grupo e acabar na prisão. É, portanto, com um tom doloroso que o seriado convida o espectador a entender como a situação destas personagens chegou em um grau extremo de ódio mútuo, e analisar como o ETA impactou gerações.

De início, é fácil presumir que Pátria focará no assassinato de Txato (José Ramón Soroiz), o marido de Bittori que levou três tiros na porta de casa. Mais do que o fato desta cena abrir a produção, ela é realmente o ponto de partida da história que se desenrolará pelos próximos sete episódios. Afinal, a notícia de que o ETA não cometerá mais atentados desperta em Bittori sua curiosidade latente sobre o ocorrido e, décadas depois do crime, ela decide voltar para sua antiga casa e fazer uma investigação própria - para desespero de toda a comunidade, especialmente Miren e sua família. No entanto, esta é apenas uma falsa impressão. Há, sim, o mistério do “quem matou?”, mas aos poucos a narrativa lenta e cheia de flashbacks deixa claro que esta é apenas uma das perguntas que precisam ser respondidas pela série.

Isso porque Pátria não dá todas as suas cartas de uma vez. Pelo contrário, ela constrói sua trama como um verdadeiro emaranhado, dando pistas aparentemente desconexas sobre a participação de cada um dos personagens. E há mais envolvidos que as vizinhas, o filho militante e o marido assassinado. Além do agora prisioneiro Joxé Mari (Jon Olivares), por exemplo, Miren é mãe de outros dois jovens: Gorka (Eneko Sagardoy), que se distanciou da família com o passar dos anos, e Arantxa (Loreto Mauleón), que sofreu um AVC em algum momento e precisa de um tablet para se comunicar. Já Bittori tem dois filhos, Xabier (Iñigo Aranbarri) e Nerea (Susana Abaitua), isto é, um médico que ainda não lidou de verdade com a perda do pai, e uma jovem que na época não encarou o luto e agora quer conseguir respostas do seu jeito.

Sem explicitar o que tem relação com o crime e o que tem a ver com o gradual distanciamento entre as famílias, o seriado deixa o público inquieto para compreender como cada uma das peças se encaixa no quebra-cabeças. Nesse sentido, é claro como o envolvimento do autor Fernando Aramburu, que escreveu o livro no qual Pátria se baseia, é benéfico. Ao lado do criador da série, Aitor Gabilondo, ele assina episódios que não saciam sua curiosidade por completo. Vale notar que, entre os dois primeiros capítulos, apenas um intensifica esse efeito com um gancho bombástico - muito bom, por sinal. Mas a construção da narrativa por si só dá conta de prender o espectador nessa turbulência bizarra e constante que se tornou a vida de ambas as famílias, assombradas até mesmo pela simples ideia de voltarem a conviver em um mesmo bairro.

Assim, fica claro que Pátria teve um começo interessante e merece atenção nas noites de domingo, na HBO. Os episódios são exibidos semanalmente, às 21h, e ficam disponíveis também no HBO Go.

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