Paradise tem 2ª temporada sólida, mas flerta com trama simplista demais
Série de Dan Fogelman abraça a ficção científica e isola a suspensão da descrença
A primeira temporada de Paradise foi uma das grandes surpresas de 2025. Com uma trama criativa e envolvente, a série criada por Dan Fogelman subverteu expectativas já no primeiro episódio e nos apresentou um mundo muito mais complexo do que o sugerido anteriormente, com trailers e sinopses. O que parecia ser mais um "quem matou" envolvendo política e teorias conspiratórias se transformou em uma trama pós-apocalíptica que não se baseava apenas na ficção científica como apoio, mas em muito coração — afinal, Fogelman também é o criador do dramalhão This Is Us — e reviravoltas. Por isso, chega a ser estranho que Paradise tenha uma segunda temporada tão simplista.
É necessário dizer, contudo, que o rótulo de simplista se deve principalmente às ambições que a própria série nos apresentou ao longo de toda a sua segunda temporada. Desde os primeiros episódios era nítida a inclinação para uma narrativa sci-fi, com as visões de Xavier (Sterling K. Brown) e Link (Thomas Doherty) se cruzando mesmo que ambos nunca tenham se visto. Mais para a frente, a "previsão" de que Jane (Nicole Brydon Bloom) seria uma assassina desde antes de seu nascimento consolidou o pensamento de que Paradise é muito mais do que aparentava ser. Mas tanto o lado sci-fi quanto o lado dramático ocasionaram soluções simples demais.
Talvez para não cair na armadinha da autoexplicação exagerada, Fogelman e seu time de roteiristas foram para o caminho da suspensão da descrença. O avião de Xavier cai próximo a Graceland, onde Annie (Shailane Woodley) se abrigou durante o Apocalipse? Sim. Adolescentes hackeiam mapas controlados pelo governo? Sim. Xavier chega em Atlanta e dá de cara com o carteiro que salvou sua mulher? Claro. Torabi (Sarah Shahi) é capaz de enganar e derrotar um soldado altamente treinado? Mas é óbvio. Tudo nesta segunda temporada de Paradise, mesmo o que não deveria ser, acabou simplista demais.
Isso não significa que deu tudo errado após uma primeira temporada quase perfeita. Assim como mostrou em This Is Us, Fogelman é mestre em entrelaçar arcos narrativos para unir personagens e informações que pareciam desconexas. Basta um flashback bem feito para que tudo faça mais sentido, e o que parecia alguém irrelevante torna-se um dos rostos mais importantes de sua história. É por isso que os tropeços no segundo ano não acabam com as esperanças de que, na já confirmada terceira e última temporada, as respostas simples demais possam ficar um pouco mais robustas.
Apostar no mais simples também aponta que Paradise resolveu abrir mão de uma possível enrolação para esticar sua história. Isso favorece principalmente a trajetória de Sinatra (Julianne Nicholson), que já se intercalava no papel de grande vilã e possível heroína mal compreendida desde o início. Sua personalidade dúbia talvez não tivesse força o bastante para aguentar mais uma temporada inteira do limbo da dúvida, e fazê-la tomar decisões que afetam diretamente o final desta história a colocam de vez em seu lugar devido. Mas há quem sofra com o esvaziamento de seus papéis na história, como a agente Robinson (Krys Marshall) e o insuportável Jeremy Bradford (Charlie Evans).
Com o fim do segundo ano, o caminho para o encerramento da história de Paradise parece um pouco mais claro. A óbvia inclinação para o lado científico que reorganiza a trama introduzida no início indica um novo foco — e com mais tempo para trabalhá-lo, as resoluções podem ser mais agradáveis. Claro, optar pelo simples não é de todo ruim, e temos Lost como o maior exemplo de um fenômeno que foi perdendo força com o tempo ao se complicar demais. Mas se conseguir se encontrar no meio do caminho entre o simplista e o exagerado, Paradise pode chegar a um final à sua altura.
Paradise (série)
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