Pais de Primeira | Série da Globo explora mudanças com otimismo e sagacidade

Créditos da imagem: Pais de Primeira/Rede Globo/Divulgação

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Pais de Primeira | Série da Globo explora mudanças com otimismo e sagacidade

Bom roteiro e direção fazem seriado uma opção inteligente para as tardes de domingo

Henrique Haddefinir
27.11.2018
19h27

Na série Pais de Primeira, um dos detalhes mais notórios da produção é que o tema da maternidade/paternidade estava saindo das páginas de Antonio Prata, um autor que já começou a divulgação do trabalho dizendo que seu avô, por exemplo, jamais pensou que precisasse ter qualquer coisa a ver com a educação dos filhos. "A geração atual espera que os pais se envolvam". Ao contrário das produções do gênero que segregam a ficção a partir do olhar responsável de uma das partes, aqui tudo é uma questão de reciprocidade. Assim, o programa já começa com uma vantagem de ser a representação de uma perspectiva moderna, um retrato honesto e bem humorado de como a geração dos anos 2000 lida com tamanha mudança.

Com dois episódios já disponíveis na GloboPlay e exibições garantidas nas tardes de domingo pela Rede Globo, a série tem direção de Luis Henrique Rios e conta com um elenco selecionado para fazer a engrenagem funcionar. Essa direção, aliás, garante ao seriado o resultado mais importante de todos: a relação entre o processo de criação e o horário em que o produto será exibido. As tardes da Globo – que geralmente são tomadas de programas de auditório ou humorísticos baseados em esquetes – poderiam afetar negativamente a linguagem criativa. Contudo, isso não acontece.

A história de Pais de Primeira já é explicada em seu título. Um jovem casal vivido por Renata Gaspar (Taís) e George Sauma (Pedro) descobre-se "grávido". Ele, um quase boêmio e ela uma workaholic orgulhosa. Ambos trabalham com ideias, são ligados ao mundo das criações e são guiados pelos códigos contemporâneos que incluem desde a internet até as referências pop. Pedro ainda sonha com uma banda e Taís compara a própria insensibilidade ao quanto nunca chora vendo determinadas cenas de novela. Eles são fruto do milênio e o maior ganho da série está em estudar como a gestação de um filho anula as vantagens da modernidade e coloca todo mundo no mesmo lugar.

Olha Quem Está Falando

Para ilustrar melhor essas sínteses comportamentais, cada uma das famílias tem um imperativo. Os pais de Pedro são vividos por Marisa Orth e Daniel Dantas, casados por muitos anos, delicados, mas afoitos por demonstrações de evolução: ele filma tudo o tempo todo e ela começa já fazendo uma tatuagem (errada). Já os pais de Taís tiveram seu casamento arruinado. Heloísa Périssé vive uma vó alcoolizada e Nelson Freitas tem uma namorada por semana. Cada um a sua maneira, eles interferem e espelham a experiência dos novos pais de um modo que é bastante sensível e cuidadosa.

O elenco termina de ser formado pelo "casal margarina" vivido por Monique Alfradique e Rodrigo Ferrarini. Alfradique, inclusive, fica com o divertido papel de ser a mãe-moderna-antenada que invade as cenas com um texto cheio de boas tiradas de humor involuntário. Ela sabe tudo, de um modo estranhamente organizado. Como todos os outros, está cheia de boas intenções, mas reforça o time que sufoca Tais com informações que na maioria do tempo só a afligem mais.

A exibição nas tardes de domingo também limita o tempo dos episódios e os roteiros optam por muitas elipses. Entretanto, surpreende a forma orgânica com a qual tudo é executado. O que poderia virar uma deficiência na apresentação dos personagens e situações, vira dinamismo e nenhum tempo é perdido com nada que não seja sagaz ou divertido. É claro que há alguns exageros - a sequência da manifestação na rua agride a sobriedade da produção -, mas esses são superados logo em seguida.

O texto traça ótimos paralelos, faz boas analogias e embasa as falas de seu criador. Um dos apontamentos de Renata Gaspar, por exemplo, se encontra perfeitamente com sua personagem durante o que foi mostrado no programa. Ela declara que uma das coisas mais importantes é que "a série não trata a mulher como uma megera que se torna mãe para sublinhar a imaturidade do marido, que sempre sai como o legal da história". Quando o segundo episódio termina suavemente, com o jovem casal fugindo do caos através da serenidade e do amor, entendemos que a proposta é celebrar a transformação com otimismo. Por isso, Pais de Primeira já é um acerto que merece completa atenção.