Como Pachinko uniu culturas para contar uma história trilíngue e transatlântica

Créditos da imagem: Detalhe do pôster de Pachinko (Reprodução)

Séries e TV

Entrevista

Como Pachinko uniu culturas para contar uma história trilíngue e transatlântica

A criadora Soo Hugh e a estrela Kim Minha falam ao Omelete sobre a produção da Apple

Omelete
5 min de leitura
Caio Coletti
25.03.2022, às 06H00

Pachinko me fez perceber que a tradução é uma forma de arte”. As palavras são de Soo Hugh, roteirista que assumiu o trabalho hercúleo de adaptar o épico literário de Min Jin Lee para a TV, e saiu disso com a série que estreia no próximo dia 25 de março no Apple TV+. Como ela conta ao Omelete, os scripts foram escritos inteiramente em inglês, antes de passar por traduções para japonês e coreano.

Devo admitir que eu era um pouco ingênua quando começamos a produção... Não sabia quão difícil seria”, diz Soo. “Mesmo depois da tradução inicial, havia um segundo processo, que era passar alguns diálogos para os dialetos que usamos na série, que são específicos dos lugares e épocas que retratamos. Era importante para mim ter essa autenticidade.

De família sul-coreana, a roteirista consegue entender a língua materna razoavelmente bem (“Eu falo como uma criança de 10 anos”, brinca), mas não sabe quase nada de japonês. “Como escritora e produtora, eu tive que fazer algo muito difícil: dar um salto de fé, confiar o meu texto a outras pessoas e à competência delas, comenta.

Duas Sunjas

Kim Minha como Sunja na fase adolescente, em Pachinko (Reprodução)

Esse foi o processo necessário para contar a história de Sunja, uma jovem sul-coreana, através de várias décadas e locações: da Coreia ocupada por forças japonesas no início do século XX até o Japão vibrantemente urbano de anos depois, para onde ela foge ao lado do seu amado Hansu. Kim Minha, que interpreta Sunja na adolescência e vida adulta, ganhou o papel após um exaustivo processo de testes - este é seu primeiro grande projeto na frente das câmeras.

No set, eu tentei sempre me concentrar em cada situação e cada obstáculo que Sunja passa, ao invés de me focar nos desafios que isso representava para mim como atriz”, revela ela ao Omelete. “Tentava me colocar no lugar dela, suas emoções e seus pensamentos, de forma natural.

Igualmente desafiador para a jovem estrela foi saber que a versão mais velha de sua personagem seria interpretada por Youn Yuh-jung. Conhecida no Ocidente por sua performance vencedora do Oscar em Minari, a atriz de 74 anos é uma verdadeira lenda do cinema e da TV sul-coreanos, com mais de quatro décadas de carreira e uma coleção invejável de prêmios.

Nós não tivemos muito tempo para conversar no set, porque nossas agendas eram bem diferentes, então só pudemos realmente falar uma com a outra quando as filmagens acabaram, conta Kim. “Quando nos encontramos, conversamos sobre a atitude de Sunja, o jeito de falar dela, e sobre como buscamos representar isso na tela. Foi um momento incrível para mim.

Criando um mundo “perdido”

Quando você faz uma produção de época, as pessoas pensam: ‘Ah, é fácil, só copiar as fotografias’. Mas nós não tínhamos fotografias!, conta Soo Hugh sobre as dificuldades de recriar a Coreia colonizada e o Japão suburbano habitado pelos personagens. Como ela aponta, os registros desses locais e eras são raros porque artistas e jornalistas da época não achavam que essas pessoas marginalizadas eram dignas de se fotografar”.

Assim, sobrou para a designer de produção Mara LePere-Schloop um trabalho que é metade “garimpo” de imagens e descrições históricas e metade criação de um mundo ‘perdido’”, nas palavras da showrunner. Andar pelos sets era incrível. Nós construímos quarteirões e mais quarteirões das vizinhanças onde nossa história se passa - e, se você se aproxima das casas e bate nelas, vê que são feitas de madeira, mas basta dar alguns passos para trás que você é transportado para outra era”, comenta Soo.

Uma ajuda valiosa nessa missão veio da dupla de diretores contratada pela série: Kogonada (Columbus) e Justin Chon (Gook) são jovens e celebrados cineastas ásio-americanos de abordagens opostas, mas complementares. Eles são visionários, não os contratamos para mudar o estilo deles. Para uma série como a nossa, que passeia por diferentes eras e locais o tempo todo, a diferença funciona a nosso favor”, reflete a showrunner.

Kogonada, dono de um estilo mais contido e lírico, é perfeito para os momentos ambientados na Coreia, segundo Soo, porque introduz “uma âncora mais forte de realidade” à série. Já Chon, que costuma filmar de maneira mais livre e instintiva, complementa bem o caos que toma conta da história” uma vez que ela se move para o Japão. Em vários dos dias de filmagem, os diretores compartilharam o mesmo set, filmando cenas de diferentes episódios.

Projeto pessoal

Jin Ha em uma das cenas nova-iorquinas de Pachinko (Reprodução)

Além de desafiador, no entanto, o processo de fazer Pachinko foi emocionalmente recompensador para Soo Hugh - e a culpada disso é a mãe da roteirista. “É engraçado, porque a minha mãe sempre apoiou muito minha carreira, mas dava para perceber que ela não entendia muito bem isso. Quando eu disse que queria ser uma escritora, foi como se ela pensasse: 'Oh, porque você precisa dificultar tanto as coisas para si mesma?'”, brinca ela.

Acho que Pachinko é o primeiro projeto meu com o qual ela tem uma conexão real, não só porque lida com a nossa terra natal, mas porque é o tipo de história que ela gosta. Ela leu o livro, e ficava me mandando mensagens: 'O que você está filmando agora? Como você vai fazer essa cena?'. Eu deveria ter dado um crédito de consultora para ela!”, completa, revelando ainda que a mãe não quis assistir à série antes do restante do público, preferindo experimentá-la como todo mundo.

Perguntada sobre o que a atraiu para Pachinko, Soo não titubeia em dar uma explicação bastante filosófica: “Eu quero contar histórias de pessoas ordinárias que fazem coisas extraordinárias. Gosto de histórias de pessoas indomáveis, que têm um sonho e o alcançam com força de vontade e determinação. [...] Não sou uma artista cínica, e não quero contar histórias cínicas - quero contar histórias que nos pedem para ser o melhor que podemos ser.

Pachinko estreia em 25 de março, com seus três primeiros episódios, no Apple TV+. Os capítulos seguintes serão lançados semanalmente, sempre às sextas-feiras.

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