Séries e TV

Entrevista

Omelete entrevista: Daniel Messias

Omelete entrevista: Daniel Messias

José Aguiar
15.09.2003
00h00
Atualizada em
18.11.2016
00h00
Atualizada em 18.11.2016 às 00h00

Daniel Messias

Copa Toon 2003

Chester Cheetos

Animação 3-D para Ace

Hardy e o casal Unibanco

Superman, para as lojas Renner

O homem que plantava árvores

Pernalonga em
"A cavalgada das Valquírias"

É senso comum que o Brasil não tem um mercado forte quando o assunto é uma indústria de entretenimento. Quadrinhos, cinema e animação locais têm uma enorme dificuldade de chegar a público. Sendo assim, boa parte dos profissionais locais migram para onde é possível exercer seu ofício. O mercado publicitário é onde se concentra o maior número deles, pois é um dos poucos capaz de sustentar os altos custos que esses profissionais necessitam para desempenhar seu ofício. Muita gente nem desconfia, mas a esmagadora maioria das animações que são veiculadas nos intervalos comerciais da TV são produzidas integralmente aqui, no Brasil; mesmo as que empregam personagens estrangeiros. Quem é de fora do meio acaba desconhecendo o mérito dos animadores brasileiros, cuja qualidade equipara-se tranqüilamente com o que se faz de melhor no exterior.

Hoje o Omelete tem o prazer de trocar algumas idéias com Daniel Messias, veterano animador cujo estúdio é um dos maiores e mais prolíficos do país; responsável por mais de mil filmes em quase três décadas de atividade. Inclusive pelas divertidas vinhetas do canal a cabo Cartoon Network, que dão aquele toque mais brasileiro às personagens do canal e mais recentemente pelos especiais de Space Ghost de costa a costa, que fizeram parte do Copatoon, no mês passado.

Com a palavra, Daniel Messias:

Obrigado pelo interesse no que desenvolvemos aqui no estúdio. Você bem sabe que animação é um trabalho de equipe, e se algum mérito eu tenho, foi o de escolher bem os melhores profissionais do mercado brasileiro.

É a esse pessoal que atribuo todos os méritos das obras aqui produzidas. As falhas eventuais, pode atribuir sempre a mim, que tenho feito de tudo para saná-las ao longo de todos esses anos.

Sei que é indelicado, mas preciso saber sua idade e naturalidade.

Nasci na cidade de São Paulo, num dia 13 de Dezembro de.... deixe-me ver... olha, faz tanto tempo que acho até que já esqueci; vou ficar devendo essa.

Há quanto tempo existe o seu estúdio e quais os principais trabalhos de seu portfólio?

Como estúdio mesmo, existimos desde 1975. De lá pra cá, já fizemos mais de mil filmes, a maioria de publicidade: Frango Sadia, Toddynho, Chester Cheetos, C&A, Hardy, Papa-Léguas (Sedex), todos com Pernalonga e os Looney Tunes, e alguns curtas.

Na sua opinião, qual foi o mais importante desenho (ou período) na história da TV?

Para mim, apaixonado frenético dos desenhos da Warner, o melhor período foi a década de quarenta (que eles mesmos chamam de golden age). Nessa época, aquela fantástica equipe, dirigida entre outros pelo gênio de Chuck Jones, realizou uma obra prima: um filme com Pernalonga cantando As valquírias de Wagner. É uma obra prima, o melhor para mim.

Qual é o papel dos canais a cabo no mercado de animação hoje em dia?

Muito importante. A TV a cabo veio ampliar a demanda de filmes, clips, seriados e publicidade de animação. A tendência é ainda crescer mais, criando mais oportunidades de trabalho na área. Pra mim, aí e na Internet está o futuro da animação, e não na produção de longas metragens, quer sejam eles para cinema ou televisão.

Além dos altos custos para se produzir animação de qualidade, o que mais inviabiliza a produção de séries animadas no Brasil?

Os custos não são altos, se comparados aos do primeiro mundo. A falha está na exibição. Aí se localiza o grande buraco negro. Não há onde veicular essas animações. As emissoras (TVs aberta e fechada) compram pacotes baratíssimos de distribuidores americanos e japoneses, que quase sempre produzem seus filmes na China, Coréia e outros paises do leste asiático, a preço de banana. Esses pacotes, quase sempre de qualidade duvidosa devido à velocidade com que são produzidos, rodam pelas emissoras do mundo inteiro durante anos e anos, propiciando um suculento retorno aos produtores e exibidores estrangeiros. Justamente por isso, esses paises produtores desenvolveram verdadeiras linhas de montagem formadas por exércitos de mão de obra aviltadamente barata, contra os quais é muito difícil competir. Diante desse tigres, nossos estúdios brasucas não passam de butiques.

Some a isso a férrea disciplina oriental e obediência a esquemas de trabalho em grupo e você então vai entender por que os asiáticos produzem tanta animação....e cá entre nós, tanto lixo. Haja Pokemon que agüente.

Qual o seu desenho animado favorito atualmente?

Atualmente não posso dizer que tenha me impressionado com algum filme. O último que me causou verdadeiro impacto pela sua originalidade e conteúdo, foi o canadense L´homme que plantait des arbes. Acho que apareceram muitos filmes inspirados nessa obra prima. Portanto, prefiro ficar com o original, mesmo.

Seu estúdio é muito atuante em publicidade e no mercado externo. Há algum projeto sendo desenvolvido por vocês para o Brasil, tanto em cinema e TV?

Já fiz filmes para toda a América Latina, Europa e Estados Unidos. Acabei de fazer um para o México. Estamos atualmente animando um filme de 8 minutos para a Cartoon Network, com exibição prevista para o Brasil e México.

Qual foi o evento mais revolucionário na animação contemporânea?

Inquestionavelmente, foi o advento do computador. Você pode dizer, sem medo de errar, que há dois períodos na animação: A.C. e D.C, ou seja, antes e depois do computador. A nova ferramenta está produzindo uma revolução nos processos de produção e até na estética da animação... e olha que a revolução mal começou.

Um dos aspectos mais interessantes na animação é o fato de que ela é um trabalho coletivo, que necessita de extrema organização. Qual é o critério para a seleção de uma equipe?

Costumo selecionar as pessoas mais pelo aspecto da sociabilidade e da capacidade do trabalho em equipe do que por eventuais qualidades de gênio ou supertalento. Esses, em geral, não funcionam no trabalho de equipe.

Qual é o seu papel na coordenação de uma animação? Você ainda tem tempo de pôr a mão na massa junto com os animadores?

Ainda trabalho mais do que gostaria, pois sinto que a minha intervenção ainda é necessária. Mas só animo personagens de que gosto e com quem me identifico, como Pernalonga, Road Runner & Coiote (SEDEX) e alguns poucos.

Sei que há vários tipos de desenhistas. Alguns se dão muito bem com quadrinhos, ilustração e outras áreas afins. Mas acabam não levando muito jeito com desenho animado. Como a gama de conhecimentos exigida para a formação de um animador é muito grande, pergunto: Qual é o perfil de um animador?

Não sei se é fácil traçar esse perfil.

O talento para o desenho é fundamental, mas, sem a paciência, não há absolutamente frutos a colher. O domínio do timing e do acting em animação é coisa que vem com o tempo; os apressadinhos acabam se dando mal e saltam do barco muito antes dele partir. Aí, costumam se queixar que não têm jeito pra coisa. Minha primeira animação que eu considero decente foi um filme com o frango da Sadia cantando e dançando enquanto tomava banho. Eu já tinha dez anos de carreira quando fiz o trabalho. Se você tem muita pressa, desista da animação.....

Pelo que pude perceber em seu site (http://www.danmess.com/), você procura valorizar os que trabalham em seu estúdio, destacando-os e não eclipsando seus nomes em função de sua assinatura, como acontece em tantos lugares. De onde vem essa preocupação?

Primeiro, eu passo mais da metade do dia com minha equipe. Então, essa convivência tem que ser muito saudável e tranqüila. Tenho que conquistar meus colaboradores e transformá-los em amigos. Só assim eles trabalharão numa atmosfera legal e isto trará grandes resultados. Com isso, toda a rotina se transforma numa troca, onde todos, sem exceção, se beneficiam. Todos confiam na minha liderança, pois sabem que eu posso fazer todo o trabalho. Não sou leigo, e sei muito bem onde e quando algo pode ser melhorado. Já fiz de tudo em animação: storyboard, scene-planning, cenários, arte-final em acetatos, criação de personagem etc. Isso sem falar de animação, que faço até hoje. Assim, mesmo quando não animo um filme, sei o que é melhor para o projeto inteiro, e é isso que vou buscar extrair de meus colaboradores.

Sei que não é muito criativo, mas é inevitável perguntar: Como começou a sua paixão pelos desenhos animados?

Meu pai era jornalista e chargista do jornal A Gazeta e um grande apaixonado de cinema. Eu, criança ainda, só queria saber de desenhar.

Um dia, ele apareceu em casa com uma câmera 16mm Paillard que filmava quadro a quadro. Comecei a experimentar umas animações bem toscas de um indiozinho que eu criara. Foi horrível o resultado. Mas, na minha mente, aquilo era pura magia. Me pegou de jeito e fiquei enfeitiçado com a coisa. A magia dura até hoje.

Hoje em dia, com os programas digitais, são relativamente mais acessíveis os meios de se trabalhar com animação. Mas como foi para você começar em 1975?

Não foi tão difícil assim. O computador é uma ferramenta sofisticada, mas o lápis não é tão precário assim. O que me faltava em 75, e hoje eu tenho de sobra, é a informação, as referências de livros e vídeos, que hoje se tem em casa através da Internet. Naquela época, você precisava pesquisar e dar duro, às vezes até adivinhar um resultado qualquer. Hoje, a coisa está bem fácil, está tudo nivelado. Mas uma coisa é certa: o computador, como ferramenta, revolucionou a animação.

Uma coisa que percebo em muitos novos candidatos a animadores é que, devido às facilidades de alguns programas de animação, é uma pressa em se tornarem profissionais. Muitos deles acabam queimando etapas, principalmente por dispensarem o bom e velho lápis. Como você vê essa tendência?

Ruim, isto é um erro. O primeiro conceito do filme nasce do storyboard e da discussão em grupo dos criadores. Apenas através do desenho é que essas idéias podem ser materializadas. Se você não desenha, não espere que o computador faça isso por você. Quando isso acontece, você vê como resultado aquele monte de imagens pasteurizadas, umas iguais às outras, sem estilo ou personalidade. É o resultado da falta de talento individual do animador, que depende totalmente da máquina.

Você colocou a internet, junto da TV a cabo, como o futuro canal para a animação. Como e quando você acha que isso será possível?

Pra já. No ano 2000, fiquei quase que exclusivamente trabalhando para uma emissora de TV a cabo. E quanto à internet, veja quantos animadores ou webdesigners trabalham para essa mídia hoje em dia. Infelizmente, no nosso país, as coisas derrapam um pouco, antes de engrenar. Enquanto aqui temos cerca de 3 milhões de assinantes da TV a cabo, nos Estados Unidos, existem 30 milhões. Então, imagine o universo de prestadores de serviços orbitando nesse universo. Mas a coisa vai chegar aqui também.

Como você vê a atual invasão de desenhos japoneses?

Com naturalidade.

Eu não sou um grande apaixonado da animação japonesa, embora haja designers de animação e quadrinhos magníficos no Japão. O que chega na nossa televisão infelizmente é de qualidade abaixo do aceitável. É um material feito às pressas, pra competir com o rival americano e suprir uma fatia suculenta do mercado. Vamos ter que conviver com isso ainda durante muito tempo.

Agora, para os animadores japoneses (chineses, coreanos, hindus, etc), isso é ótimo. Eles estão rodando o taxímetro, trabalhando e faturando a todo o vapor e criando uma poderosa indústria de animação, que hoje suplanta de longe a produção americana. Não adianta a gente dizer que não gosta desse tipo de estética. Ninguém gostava antes de peixe cru, sushimi, sakê e outros iguarias que vem de lá.
Hoje, são um must apreciado por todos (ou quase todos!)

O Omelete agradece a Daniel Messias pela entrevista.