Nip/Tuck | Como o sucesso de Ryan Murphy previu a ascensão do produtor

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Nip/Tuck | Como o sucesso de Ryan Murphy previu a ascensão do produtor

Nos 15 anos de estreia da série, o programa reflete várias das abordagens que o transformaram no showrunner mais poderoso da TV

Henrique Haddefinir
23.07.2018
13h21

No final da década de 90 e início dos anos 2000, Ryan Murphy era um roteirista idealista que tinha conseguido fazer um filme e uma série que não estava preparada para seu tempo. Popular, um drama teen cheio de elementos que mais tarde resultaram em Glee, ficou no ar por apenas dois anos, mas deu para a crítica um gostinho do que o texto de Murphyera capaz. Contudo, garantir notoriedade ou longevidade na TV era uma tarefa que exigia um equilíbrio entre estilo e consciência de mercado. Segundo o próprio produtor, muitos lhe fecharam as portas, até que ele conseguisse vender uma nova e revolucionária ideia.

Nip/Tuck estreou em 22 de julho de 2003 e, agora, completa seus quinze aninhos de existência. Na trama, o hedonista cirurgião Christian Troy (Julian McMahon) divide com o amigo Sean (Dylan Walsh) a sociedade numa clínica de cirurgia plástica que tem um jeito peculiar de garantir sua sobrevivência: eles aceitam casos que nenhum outro cirurgião aceitaria, seja que caso for, do mais comum ao mais bizarro. Ao mesmo tempo, dividem uma paixão pela mesma mulher e são constantemente confrontados com suas compulsões sexuais, químicas e dramáticas. Quebrados por dentro, eles tentam consertar pessoas por fora.

Murphyvendeu uma primeira temporada que flertava com seus temas recorrentes, mas que os abraçou apenas a partir do ano dois, quando Nip/Tuck se tornou aquele que os críticos chamavam de "o drama mais ousado da TV". Mesmo que tentando ao máximo frear seus impulsos criativos à posição comercial que lhe era cobrada, o produtorteve a oportunidade de crescer seu estilo e imprimir sua identidade, que logo passou a ser registrada em todos os trabalhos que vieram depois. Curiosamente, ao olharmos para a sériedepois desses quinze anos, podemos encontrar nela vários pedacinhos da personalidade artística de seu criador e que lhe transformaram, mais para frente, numa das maiores potências do entretenimento americano.

Nip/Untucked

Depois de uma primeira temporada bastante marcada pela exposição sexual (uma estratégia para captar audiência), a série ganhou notoriedade e o segundo ano veio com força total, cheio de temas polêmicos entre os pacientes e com uma storyline toda apoiada na transexual vivida por Fanwke Jansen. Junto com a homossexualidade da anestesista Liz (Roma Mafia), esses eram os primeiros recortes significativos da trama em direção ao que Murphysempre quis: falar sobre minorias. Contudo, o ano dois foi também aquele que começou a estabelecer a linguagem visualmente agressiva, bizarra, direta, que se contrastava com um texto elegante e que passaram a ser o material de sedução que convencia atores renomados a se juntarem aos trabalhos do showrunner.

No terceiro ano um assassino mascarado retalhava os rostos das pessoas em forma de sorriso e toda a tensão foi construída em cima disso. Para quem não se lembra, o ator brasileiro Bruno Camposchegou a fazer parte dessa temporada. Nela, começaram os flertes com as diretrizes do horror. Crimes violentos, linguagem gráfica sangrenta, assassino quase sobrehumano, gritos e vísceras. Aquelas eram as raízes de American Horror Story e até de Scream Queens, que era mais direcionada ao estilo dos filmes slasher. De certa forma, todo um longo senso de desconforto visual era parte do método criativo de Nip/Tuck. As cirurgias eram mostradas em planos fechados e se correspondiam com diversas manifestações extremas fora das salas esterilizadas.

A série começou a enfraquecer na quarta temporada, quando um pouco da sutileza dos roteiros foi perdida. A mente artística de Murphy funciona de maneira transgredida, ela vai buscar beleza e otimismo através de escuridões psicológicas e perversões sexuais. Quanto mais a série seguia, mais livre para exagerar nos temas ele se sentia. O quarto ano passou a incomodar, mas em seu season finale deixou todo mundo estupefato, quando na sequência final, mostrou o elenco literalmente dublando a canção "Brighter Discontent", do Thev Submarines. Vidrado em musicais, mas sem um elenco de cantores, Murphy(que dirigia o episódio) resolveu seu fetiche colocando todo mundo para dublar a música que servia ao seu propósito criativo. Glee, o fenômeno musical criado por ele quase três anos depois, dava suas primeiras pistas.

Decadence Avec Elegance

Ainda que a partir do quarto ano a série tenha perdido prestígio, Murphycontinuava conseguindo grandes nomes para participarem do show. O mais curioso é que muitos deles tinham em comum uma coisa que o showrunner também sempre defendeu: oportunidades para atores e atrizes mais velhas que não tinham mais boas oportunidades no cinema ou na TV. Vários dos personagens importantes foram entregues a nomes como Jacqueline Bisset, Brooke Shields, Alec Baldwin, Larry Hagman, Frances Conroy, Melanie Griffith, entre outros. Um pouco depois, essa foi a meta que fez Jane Lynch encontrar o estrelato em Glee e Jessica Lange virar uma das grandes musas de AHS. Mas, alguns nomes que hoje são muito famosos como Bradley Cooper, Peter Dinklage, Rose McGowan, Mario Lopez e até Sarah Paulson também apareceram na série dos cirurgiões.

Após mudarem o cenário da história para Los Angeles e investirem mais na comédia, os produtores e roteiristas entenderam o enfraquecimento do formato e o sexto ano foi preparado para ser o último. Infelizmente, nem mesmo a iminência de uma última temporada proporcionou ao show um final digno. As decisões absurdas passavam pelo sempre cansativo Matt (John Hensley) e chegavam até Kimber (Kelly Carlson), a melhor personagem; e que teve um final injusto, moralista e covarde. O mesmo final que também foi endereçado a Gina (Jessalyn Gilsig). Em seu encerramento, Nip/Tuck melancolizou sua trama, separou todos os personagens e manteve intocada a absolvição ao comportamento sempre hipócrita, arrogante e misógino de seus protagonistas. Murphy buscou ternura nesse retrato, esquecendo-se das carniças femininas que eles foram deixando pelo caminho, algo que hoje em dia, dificilmente ele faria.

Também foi em Nip/Tuck que começou o mito de que as séries do showrunner perdem seu rumo a partir de algum ponto. Isso é questionável por diversas perspectivas, mas considerando que estamos diante de oitava e esperada temporada de American Horror Story, diante de tantas premiações para American Crime Story e Feud, com o sucesso de audiência de 9-1-1 e com as tantas quebras de paradigmas em Pose, é seguro dizer que Nip/Tuck foi o início de uma era de produções marcantes e necessárias para a cultura pop mundial.