Foto promocional de Newhart, da CBS

Créditos da imagem: Newhart/CBS/Divulgação

Séries e TV

Artigo

Newhart e o melhor final de série de TV já feito

O bisavô dos fan services já ensinava

Marcelo Hessel
07.05.2019
17h47

Como achar para uma longeva série de TV um desfecho que esteja à altura da expectativa de seu público? Algumas escolhem as reuniões de reminiscências (Seinfeld30 Rock), outras vislumbram futuros num "superfinal" (MASHA Sete PalmosStar Wars RebelsFuturama) e muitas vão no caminho tradicional do crescendo e do arco dramático em ciclo que se fecha (BuffyMad MenBreaking BadFamília Soprano).

E há a saída da metalinguagem. Ela aparece com frequência como uma forma segura de surpreender o espectador. É segura porque a metalinguagem sempre faz os roteiristas parecerem mais espertos do que realmente são - os titereiros que têm domínio completo sobre o seu teatro de bonecos. O tiro pode sair pela culatra, porém, ao sublinhar que o público também foi controlado na encenação. É famoso o final da série médica St. Elsewhere, que mostrava um menino autista brincando com um globo de neve em que aparecia o prédio do hospital onde o seriado se passou por seis temporadas; a NBC recebeu reclamações em 1988 porque "como assim os médicos não eram de verdade?".

Nenhum final foi mais certeiro na sua ousadia, porém, do que o último episódio de Newhart. A sitcom da CBS, exibida nos EUA entre 1982 e 1990, fez a escolha da metalinguagem pela via mais arriscada, a do motivo de que "tudo não passava de um sonho". Ao invés de indignar o público, porém, o desfecho atendeu a um fan service de DOZE ANOS que ninguém esperava.

Newhart era estrelada pelo ator e comediante Bob Newhart, mais conhecido hoje como o Professor Proton de The Big Bang Theory. Ele já havia vivido um psicólogo por seis temporadas na sitcom The Bob Newhart Show e em seguida fechou com a CBS para protagonizar Newhart, no papel de um escritor que decide, ao lado da esposa, abrir uma estalagem numa cidade rural de Vermont. Basicamente, Newhart lidava com o dia a dia da cidadezinha, da variedade excêntrica de hóspedes. Durou oito temporadas e a CBS estava contente com a audiência, cogitou uma nona temporada em 1990, mas Newhart e os criadores definiram parar depois do ano oito.

Antes de partir para a reviravolta, o episódio final flerta com outro tipo de desfecho, o do vislumbre melancólico do futuro: um magnata japonês compra metade da cidade para construir um campo de golfe e o escritor e sua mulher são os únicos que decidem ficar. A trama salta cinco anos no tempo, antigos vizinhos voltam à estalagem (e o episódio faz alguns fan services pontuais, como a cena em que dois irmãos falam pela primeira vez em toda a série), e o escritor enlouquece diante das visitas, das memórias, das escolhas que fez. Eis que ele é atingido por uma bola de golfe, cai desacordado e acorda... em The Bob Newhart Show, a série de TV que ele fez ANTERIORMENTE:

Embora a cena fizesse referência a uma série exibida 12 anos antes, o público presente na gravação do finale de Newhart reagiu com ovação. A atriz Suzanne Pleshette, que vivia a mulher do psicólogo e testemunha o clássico diálogo "você não acredita no sonho que eu tive", só consegue começar a falar depois de 15 segundos, aplaudida na aparição-surpresa. A própria Pleshette não sabia o que faria no dia em que foi convidada pela produção para participar da gravação da CBS, e ainda assim ela e Newhart fizeram a cena num take só.

Boa parte da equipe e do elenco também foi mantida no escuro; um final falso havia sido escrito e vazado para a imprensa, em que o escritor, depois de atingido pela bola, vai parar no Céu e conversa com Deus. A autoria da trolagem/fan service passou a ser discutida anos depois. A esposa de Bob Newhart, Ginnie, teria dado a ideia, versão que os produtores-executivos contestaram numa carta à revista EW em 1995. Em duas oportunidades posteriores, porém, Newhart afirma que foi mesmo Ginnie quem criou a premissa da trama dentro do sonho, "porque havia muita coisa mesmo inexplicável sobre a série".