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Monstro: História de Lizzie Borden | Final explicado e o que é verdade na série

Nova temporada da antologia de Ryan Murphy apresenta uma resposta definitiva para um crime que permanece sem solução há mais de 130 anos

Omelete
7 min de leitura
17.09.2026, às 13H56.
Monstro: História de Lizzie Borden | Final explicado e o que é verdade na série

Atenção: o texto contém spoilers de Monstro: A História de Lizzie Borden.

A quarta temporada de Monstro parte de um desafio diferente das histórias anteriores da antologia de Ryan Murphy e Ian Brennan. Ao contrário de Jeffrey Dahmer e Ed Gein, Lizzie Borden nunca foi condenada pelos crimes que a tornaram famosa. Acusada de matar o pai, Andrew Borden, e a madrasta, Abby Borden, em 1892, ela foi absolvida no ano seguinte — e ninguém mais respondeu pelos assassinatos.

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É justamente nesse espaço deixado pela História que a série da Netflix constrói sua versão dos acontecimentos. Sem muita preocupação em preservar a ambiguidade do caso, Monstro: A História de Lizzie Borden afirma que Lizzie foi culpada, mas acrescenta uma grande reviravolta: ela não agiu sozinha. Na produção, a empregada Bridget “Maggie” Sullivan é sua amante, cúmplice e parceira tanto nos assassinatos quanto no encobrimento das provas.

Quem matou Andrew e Abby em Monstro?

Na versão da série, Lizzie e Maggie matam Andrew e Abby juntas. Antes disso, a produção mostra Lizzie assassinando Bertha Manchester, uma vizinha que maltratava a empregada. A morte funciona como um ensaio para o crime principal e, ao mesmo tempo, como o momento em que Lizzie deixa de apenas fantasiar sobre a violência e decide agir.

As duas ainda tentam envenenar Andrew e Abby servindo ostras estragadas, mas o casal sobrevive. Quando o plano fracassa, Lizzie parte para um método muito mais direto. Ela desfere o primeiro golpe contra Abby, no quarto de hóspedes, enquanto Maggie inicia o ataque contra Andrew, encontrado mais tarde no sofá. Lizzie participa dos dois assassinatos, deixando claro que não é apenas a mente por trás do plano, mas também sua principal executora.

A motivação reúne diversos elementos apresentados ao longo da temporada: a disputa pela herança, a repressão imposta às mulheres naquele período, a relação sufocante com o pai e a madrasta e a morte das aves de Lizzie. Maggie também enxerga no crime uma saída para a posição de submissão e para os abusos que enfrenta trabalhando na casa.

Depois das mortes, as duas queimam as roupas ensanguentadas e constroem seus álibis. É uma escolha bastante assertiva da série, que prefere transformar o mistério em um romance criminal a continuar debatendo se Lizzie seria ou não culpada. Mais do que reconstituir o caso, Monstro usa os assassinatos para falar sobre duas mulheres que veem a violência como uma forma extrema — e evidentemente monstruosa — de libertação.

Como Lizzie consegue ser absolvida?

Embora a investigação eventualmente chegue até Lizzie, a polícia não encontra provas físicas suficientes para ligá-la definitivamente aos assassinatos. A série também explora um dos elementos mais importantes do caso real: a dificuldade da sociedade daquele período em acreditar que uma mulher branca, religiosa e de uma família respeitada pudesse cometer um crime tão brutal.

Lizzie entende essa percepção e aprende a usá-la a seu favor. Na trama, Nance O’Neil a ajuda a encarar o julgamento como uma grande atuação. Em vez de tentar convencer o júri apenas por meio dos fatos, ela constrói a imagem de uma mulher frágil, traumatizada e incapaz de empunhar uma machadinha contra os próprios pais.

A estratégia funciona. Enquanto a acusação depende de indícios, depoimentos contraditórios e uma arma que não pode ser conclusivamente relacionada às mortes, a defesa transforma a própria feminilidade de Lizzie em argumento. Ela é absolvida e fica livre para receber a herança do pai.

A absolvição, porém, não significa aceitação. Lizzie conquista a liberdade judicial e financeira que desejava, mas continua aprisionada pela própria reputação. A sociedade que não conseguiu condená-la também nunca deixa de tratá-la como assassina.

Na vida real, o resultado foi semelhante. Lizzie foi absolvida em junho de 1893 por um júri formado apenas por homens, após cerca de 90 minutos de deliberação. Não havia sangue em suas roupas, a arma do crime nunca foi identificada de maneira definitiva e parte das evidências contra ela foi excluída do julgamento. O caso permanece oficialmente sem solução.

O que acontece com Lizzie depois do julgamento?

Após ser absolvida, Lizzie compra com Emma uma mansão em uma área nobre de Fall River. A casa, chamada Maplecroft, representa tudo o que o pai havia negado às filhas: independência, conforto e uma posição na parte mais rica da cidade. Mas a mudança não apaga o passado.

Lizzie e Emma acabam rompendo a relação, deixando a protagonista sozinha com sua herança e com o peso da fama. Isso também possui uma base real. As irmãs moraram juntas até 1905, quando Emma deixou Maplecroft depois de uma série de desentendimentos. Uma das possíveis causas teria sido a amizade de Lizzie com a atriz Nance O’Neil, além das festas realizadas na mansão. As duas aparentemente nunca voltaram a se falar.

Lizzie permaneceu em Fall River, passou a usar o nome “Lizbeth” e morreu em 1927, aos 66 anos. Emma morreu apenas nove dias depois. Mesmo décadas após a absolvição, porém, Lizzie continuava sendo tratada como culpada pelo imaginário popular — algo que a própria série reforça ao apresentar sua versão do crime como uma verdade.

Por que Aileen Wuornos aparece no final?

O encerramento da temporada dá um salto de quase um século para retornar a Aileen Wuornos, interpretada por Sarah Paulson. Condenada pelo assassinato de seis homens e executada em 2002, ela é apresentada como uma espécie de herdeira da lenda de Lizzie Borden.

Em seus últimos momentos, Aileen tem uma visão de Lizzie e Maggie chamando-a. Não se trata de uma conexão sobrenatural literal, mas da conclusão da tese que a temporada tenta construir sobre mulheres transformadas em “monstros” pela violência, pelos abusos sofridos e também pela forma como seus crimes são consumidos pelo público.

A comparação é provocativa, embora simplifique duas histórias muito diferentes. Lizzie foi absolvida e viveu até a velhice; Aileen foi condenada e executada. Uma tornou-se um mistério histórico, enquanto a outra teve crimes comprovados. Para Monstro, entretanto, ambas pertencem a uma mesma linhagem de mulheres cuja violência desafia as expectativas sociais e, por isso, ganha uma dimensão quase mitológica.

A cena final também recupera a principal pergunta da antologia: monstros nascem assim ou são criados pelas circunstâncias? A série claramente se interessa mais pela segunda possibilidade, ainda que nunca absolva completamente suas personagens da responsabilidade por suas escolhas.

O que é verdade e o que foi inventado pela série?

O ponto central da história é verdadeiro. Andrew e Abby Borden foram mortos dentro de casa em 4 de agosto de 1892. Abby morreu primeiro, no andar superior, e Andrew foi atacado cerca de uma hora e meia depois enquanto estava no sofá. Lizzie e Bridget estavam na propriedade durante o período em que os crimes aconteceram.

Lizzie também apresentou versões contraditórias sobre onde estava, tentou comprar ácido prússico pouco antes das mortes e queimou um vestido alguns dias depois. Uma machadinha sem cabo foi encontrada no porão, mas nenhuma dessas evidências comprovou sua culpa. Não havia sangue nas roupas que usava quando os corpos foram encontrados, e a suposta arma nunca foi definitivamente ligada aos ferimentos.

Já a relação amorosa com Maggie pertence ao campo da especulação. Bridget Sullivan existiu, trabalhava para os Borden e estava na casa no dia dos assassinatos, mas nunca foi acusada de participação. Não existe qualquer prova de que ela e Lizzie tenham sido amantes ou planejado os crimes juntas. A série transforma uma teoria popular sobre a sexualidade de Lizzie em peça fundamental de sua narrativa.

A participação de Nance O’Neil no julgamento também é inventada. Lizzie só conheceu a atriz depois de ser absolvida. As duas se tornaram próximas, mas Nance não a preparou para o tribunal e não teve qualquer envolvimento conhecido em sua defesa.

As aves da família realmente foram mortas por Andrew, embora, segundo o depoimento de Lizzie, ele tenha torcido seus pescoços por acreditar que atraíam crianças para a propriedade. Não há comprovação de que fossem animais especialmente amados por ela ou de que o episódio tenha provocado algum desejo de vingança. A tentativa deliberada de envenenamento com ostras e o assassinato de Bertha Manchester também são criações da produção.

No fim, Monstro: A História de Lizzie Borden usa registros históricos como estrutura, mas não tem a intenção de funcionar como uma investigação imparcial. Ryan Murphy e Ian Brennan escolhem a versão mais dramática, romântica e sangrenta disponível: Lizzie matou, Maggie ajudou e as duas fizeram do crime uma forma de escapar do mundo que as aprisionava.

É uma leitura coerente com os temas da temporada, mas não uma conclusão histórica. Mais de 130 anos depois, ainda não sabemos quem matou Andrew e Abby Borden. A Netflix oferece uma resposta bastante segura de si — mas o verdadeiro fascínio do caso continua justamente no fato de que talvez nunca tenhamos uma.

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