Bandeira com rosto de Marielle Franco

Créditos da imagem: Carl de Souza/AFP

Séries e TV

Artigo

Série documental sobre Marielle cumpre tarefa de conectar público com as vítimas

Projeto será lançado no streaming e acompanhado de uma série dramatúrgica

Tereza Novaes
09.03.2020
17h10

É muito difícil não se emocionar com episódio de estreia da série documental sobre Marielle Franco que a Globo lança nesta quinta-feira (12), na TV. Na sequência, no dia 13, ela entra completa na plataforma de streaming como a primeira empreitada da Globoplay no gênero. Marielle - O Documentário dá voz àqueles que perderam a companheira, a filha e a amiga. Vídeos de celular, áudios e mensagens de texto de WhatsApp reconstituem o afeto entre a vereadora assassinada e os seus.

O mesmo acontece com a família do motorista Anderson Gomes, a outra vítima fatal da emboscada. Um vídeo gravado pela viúva do momento em que ela revela estar grávida nos leva muito perto da dor de Agatha, cujo filho pequeno tem problemas de saúde.

Humanizar as vítimas é expediente comum na cobertura de violência, algo às vezes dolorido e que pode soar apelativo. Mas há momentos de respiro e leveza. Em um deles a mãe de Marielle, dona Marinete, pede para o marido trocar de camisa: "Não vai aparecer assim na Globo".

A intimidade da família estruturada, unida e amorosa de Marielle renova a esperança em um país que melhorou nas últimas décadas. O álbum da festa de 15 anos de Marielle é apresentado com orgulho pela mãe: "Olha como ela estava linda, o vestido eu mandei fazer, foi primeiro aluguel, custou os olhos da cara." "As pessoas comentaram por muito tempo, era muita pompa para nossa condição", relembra o pai sobre a comemoração.

O primeiro episódio da série cumpre o objetivo de conectar o público com as vítimas e seus familiares e narra a ascensão de Marielle do Complexo da Maré à Câmara dos Vereadores.

Nos outros cinco, a história segue estes dois eixos narrativos: a vida de Marielle até o dia 14 de março de 2018, data de sua morte, e os desdobramentos do crime na sociedade, as fakes news, as buscas pelos assassinos e o impacto para as famílias. Entrevistas com políticos aliados e rivais, policiais, membros do Ministério Público, além de reportagens exibidas pelos telejornais da Globo conduzem pelo tortuoso processo de investigação, ainda inconclusivo.

"A série em nenhum momento tenta investigar quem matou Marielle, esse não é um trabalho nosso, acompanhamos o caso há dois anos, mas não é algo que entendamos como responsabilidade nossa", disse o diretor-geral Globoplay, Erick Brêtas.

No mesmo evento em que a série documental foi apresentada à imprensa, houve o anúncio de uma série ficcional sobre a vereadora. Projeto de Antonia Pellegrino, que terá direção de José Padilha e texto de George Moura.

A polêmica em torno do projeto, que ainda está em desenvolvimento, acabou ofuscando o lançamento do documentário. O fato de os três serem brancos e de Padilha, diretor de Robocop e O Mecanismo, ser considerado por muitos "uma pessoa de direita", nas palavras dele, foram combustível para a controvérsia, que levou Pellegrino a se explicar.

"O fato de não haver um Spike Lee no Brasil fala sobre o nosso racismo estrutural, e não sobre supremacia branca. Não tem uma Ava DuVernay no Brasil não porque não existam diretoras negras talentosas. Mas porque existe sim racismo estrutural. Abrir espaço para diretores, roteiristas, profissionais negros é um compromisso público que fizemos. E o julgamento de estamos comprometidos em reproduzir racismo é muito precipitado", escreveu Pellegrino em seu Instagram.