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Marcelo Tas fala sobre narrar Ziraldo e o desafio de deixar o ego de lado

Apresentador aborda a atemporalidade da obra do autor em entrevista ao Omelete

Omelete
3 min de leitura
17.10.2026, às 06H15.

A Audible lançou uma nova coleção de 28 audiolivros de Ziraldo, contando com a narração de Marcelo Tas para alguns títulos clássicos do quadrinista, incluindo sua obra máxima: O Menino Maluquinho. Em entrevista exclusiva ao Omelete, o comunicador afirmou que dar voz aos textos do autor é a confirmação de que a liberdade criativa e a coragem de Ziraldo vencem a memória curta do tempo e dialogam com novas gerações.

Ao relembrar uma reflexão pessoal de que "a televisão tem memória curta", Tas destacou ao Omelete que a disposição de Ziraldo em ousar, manteve suas histórias vivas: "Narrar essa obra hoje para o público atual é uma prova material disso. O Ziraldo nasceu num mundo muito mais machista do que o de hoje, assim como eu. Na hora que eu estava lendo, percebi o risco de falar de namoro para criança, mas ficou absolutamente provocador — que é sempre a intenção da arte — e, ao mesmo tempo, muito amoroso e respeitoso com o estado da criança quando se fala em namoro, princesas ou dragões. A criança vive nesse mundo de fantasia que é muito verdadeiro."

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Segundo o apresentador, essa coragem artística de Ziraldo exige um compromisso de escuta e desapego pessoal de quem interpreta suas obras. Conhecido por sua forte presença opinativa na mídia - como líder da bancada do CQC, o repórter Ernesto Varela e apresentador do Provoca -, Marcelo Tas explicou à reportagem a necessidade de despir-se do próprio ego para colocar sua voz a serviço da autoria original: "Interpretar o texto de outra pessoa é um desafio gigante, porque exige abrir mão do ego e da autoria para ficar 100% a serviço da obra." 

Para manter essa fidelidade técnica durante as intensas sessões de gravação, Tas revelou o cuidado minucioso da equipe em respeitar a escrita de Ziraldo: "Quando o texto é bom, é um grande prazer. A gente não alterou nem um artigo sequer. Fomos hiper-rigorosos de deixar o texto, porque ele parece uma conversa fluida, não uma leitura. É um texto muito bem escrito, coloquial, profundo e simples ao mesmo tempo — simplicidade e profundidade juntas é um negócio louco. Gravávamos sessões de 4 horas seguidas. A respiração muda, você fica meio tonto de oxigênio, mas eu saía menos cansado, pronto para ir para a balada se precisasse! Isso acontece por causa da entrega total à autoria e de emprestar a voz para aquilo virar outra coisa." Essa entrega técnica que a adaptação para o formato de audiolivro mantivesse a força e a afetuosidade originais que consagraram as obras de Ziraldo na literatura brasileira.

Para fechar o papo com o mesmo tom lúdico e provocativo que marca as criações do escritor, questionamos Tas sobre qual pergunta seu emblemático personagem, o repórter Ernesto Varela, faria a uma figura da literatura se pudesse entrevistá-la. O apresentador brincou ao imaginar um encontro movido pela curiosidade simples e genuína típica das crianças: "Eu gostaria de entrevistar Platão na Grécia e perguntar: 'Meu querido, preciso muito levar essa sua resposta para o momento que estou vivendo lá naquele outro mundo: o que é a verdade?' [...] O Varela só faz perguntas simples: 'O que é a verdade?', 'O senhor é um ladrão?', 'Qual é a sua próxima jogada?' São perguntas de criança."

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