Mais dramático, The Good Doctor retorna com episódio especial sobre a pandemia

Créditos da imagem: ABC/Divulgação

Séries e TV

Artigo

Mais dramático, The Good Doctor retorna com episódio especial sobre a pandemia

Impacto do final da terceira temporada é adiado por conta de eventos ainda mais trágicos

Henrique Haddefinir
04.11.2020
11h02
Atualizada em
04.11.2020
11h22
Atualizada em 04.11.2020 às 11h22

Em Setembro de 2001, quando o atentado terrorista às Torres Gêmeas aconteceu, algumas das maiores produções da TV na época tomaram a decisão consciente de não abordar a tragédia. Comédias e dramas familiares preferiram o caminho do alívio ficcional, mas para séries policiais ou médicas, sobretudo as que se passavam num raio de proximidade com o centro financeiro de Manhattan, não abordar o assunto seria o mesmo que se esconder numa caverna. Eis que agora, com a pandemia de Covid-19, a televisão passa por situação similar.

A diferença desta vez é que escapar de falar sobre o assunto se tornou impossível, uma vez que a pandemia afetou a própria rotina de produção hollywoodiana. O papel das séries médicas, é claro, está no centro das atenções; as tramas apoiadas em saúde pública (mesmo que privada) não poderiam se esquivar, e em alguns casos o desenvolvimento das tramas foi suspenso em favor do tema do momento. No caso de The Good Doctor, essa suspensão fica mais tensa porque os eventos do final da terceira temporada foram muito trágicos.

O término do triângulo entre Shaun (Freddie Highmore), Carly (Jasika Nicole) e Lea (Paige Spara), o inferno pessoal de Claire (Antonia Thomas) e a absurda morte de Melendez (Nicholas Gonzales) anunciavam uma quarta temporada com importantes reajustes a serem feitos, além, é claro, do período de luto. A morte de Melendez foi uma manobra gratuita da série, e esperava-se que o criador David Shore respondesse a isso de alguma forma. No final das contas ele respondeu, mas de uma forma profundamente questionável.

The Ghost Doctor

Logo no começo do episódio, uma legenda já nos avisa que a prioridade é falar sobre a pandemia e que a perspectiva dos profissionais de saúde é parte da gênese do que a série representa. Logo, não é hora de lidar com luto ou términos. A trama começa dias antes do decreto de emergência no país e muito rápido vamos vendo o vírus se espalhando e tomando conta da vida dos personagens. Assim como na vida real, em que fomos precisando colocar tudo no modo espera para conseguir sobreviver, isso também acontece ali no campo da ficção. Claire, Shaun, Lim (Christina Chang) e todos os outros que trabalham no hospital agora têm batalhas maiores para serem travadas.

David Shore é um grande manipulador de conceitos técnicos, mas, infelizmente, não é um bom construtor de material humano. Os pacientes eleitos para serem os exemplos do ataque do vírus foram bem escolhidos (uma mulher grávida, um homem com reviravoltas sintomáticas constantes e uma mãe de família comum), mas o texto não ajuda a promover o envolvimento necessário e parte do objetivo da história fica pelo caminho. Há uma frieza invencível na obra de Shore, e quando se fala de drama esse pode ser um pecado mortal. Não ajuda também o fato de que por conta dos protocolos de segurança, a série não poderia contar com o mesmo contingente de pessoas. Com isso, os corredores do hospital parecem vazios em vários momentos, não há um senso de caos e muitos figurantes em determinadas cenas aparecem sem máscaras. Demora até que nos importemos com o que se passa.

A vida amorosa de Shaun continuaria a ser um tópico importante, talvez o mais importante, quando a série voltasse. Contudo, com o redirecionamento, os roteiristas precisaram pisar nos freios. A relação dele com Lea ainda está em pauta, mas a única coisa possível foi separar os dois por conta do isolamento, proporcionando um canal para abordar os aspectos emocionais disso. Mas, além do texto rasteiro, Lea e Shaun são um casal disfuncional, no qual os roteiristas continuam insistindo porque se Shaun precisa ter uma vida romântica, que seja seguindo os modelos padronizados dos anos 90. Ainda é difícil lidar com a saída de Carly, depois de ter sido ela quem verdadeiramente investiu e amadureceu aquela relação.

Enfim, a grande “surpresa” do retorno foi a última cena, quando Claire vai até o depósito em que estão guardados os pertences dos mortos. O arco de Claire no episódio, com a filha de uma paciente grave, foi a mais próxima de arrancar alguma emoção do espectador. Quando a personagem chega ao depósito para procurar um cordão, dá de cara com o fantasma (ou com um projeção) de Melendez. Além do recurso ser a cara de David Shore justamente porque é velho, ele sinaliza uma série de equívocos: soa como uma desculpa por ter matado o personagem, soa como uma maneira de compensar os insatisfeitos e, ainda que tenha sido só uma firula poética, foi entregue na sequência com tons de grande revelação.

Se Claire acha que viu o amado, as possibilidades são ruins (uma doença, um tumor, uma esquizofrenia). Se ela só teve uma epifania ou algo próximo disso, a cena não foi entregue dessa forma. Se ela realmente viu um fantasma, aí é pior ainda. The Good Doctor parece não ter amadurecido... Talvez seja melhor adiar todo e qualquer desenvolvimento entre os personagens fixos e focar apenas nos desdobramentos da pandemia. Assim perdemos menos.

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados para as finalidades ali constantes.