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Lovecraft Country vai ao espaço e inverte a lógica do horror cósmico

Seriado se firma como um olhar feminino no sétimo episódio

Marcelo Hessel
28.09.2020
11h04
Atualizada em
02.10.2020
14h45
Atualizada em 02.10.2020 às 14h45

O maior legado de H.P. Lovecraft para a literatura é a definição do subgênero conhecido como horror cósmico. A expressão começou a aparecer dos contos tardios dos Mitos de Cthulhu e não trata de horror com viagens espaciais, especificamente, embora os limites do Cosmo além da Terra sejam frequentemente testados. Na verdade, o horror cósmico trata de apequenar o homem; o horror vem da descoberta de que a ordem das coisas, caótica que seja, é muito mais vasta e complexa do que nossa insignificante experiência cotidiana permite enxergar.

Em seu sétimo episódio, “I Am”, Lovecraft Country entra de cabeça no aspecto mais expansivo do horror cósmico: ao investigar a morte de seu marido, Tia Hippolyta (Aunjanue Ellis) descobre o segredo por trás do planetário de Hiram e é levada numa viagem existencial pelas dobras do espaço-tempo. A exemplo de milhares de donas de casa americanas dos anos 1950, que abdicaram de uma carreira para gerir lar e família na promessa de que isso as realizaria como indivíduos, Hippolyta se ressente de não ter sido astrônoma, como sonhava. O episódio então coloca a coadjuvante no centro da trama (a seleção de protagonistas de ocasião é tão democrática quanto as escolhas que o seriado tem feito por tropos de histórias de horror, episódio a episódio) para que ela tenha seu instante de redenção. 

A jornada de Hippolyta talvez seja o momento decisivo nesta temporada em que Lovecraft Country inverte de vez e se emancipa das dinâmicas estabelecidas na obra de Lovecraft. Quando a personagem chega ao observatório e descobrimos um telescópio apontado para as estrelas, que depende de coordenadas específicas para funcionar, a sensação imediata é de mau agouro: um sem número de cautionary tales de fantasia já nos ensinou que brincar com o desconhecido - especificamente apontando faróis para as profundezas do espaço sideral - é capaz de trazer os mais inomináveis horrores até nós. Mas não foi agora que as criaturas colossais de Lovecraft desembarcaram na Terra, porque mesmo no ápice do mau agouro (a troca de tiros que deixa um morto) não há sinal de que os Antigos observam o que acontece na série.

Então vem a inversão definitiva: essa jornada é de iluminação, e não de horror, como sempre Lovecraft relata quando seus personagens enlouquecem com meros vislumbres da vida além da Terra (mesmo quando alienígenas crustáceos oferecem aos homens a oportunidade de viajar com a consciência pelo espaço-tempo, é o horror da despersonificação que prevalece). Em outras palavras, aqui vemos o espaço sideral não como os arautos das invasões extraterrestres anunciaram, mas o espaço sideral otimista da ficção científica especulativa, que enxerga além-Terra o destino manifesto dos homens, fadados a expandir suas consciências e suas vivências pelo Cosmo. Então “I Am” pega esse roteiro de viagem que já conhecemos bem - de Flash Gordon a 2001 - e transforma, na figura de Hippolyta, o expedicionismo masculino em um despertar para o feminismo.

Já estava claro, na mão da produtora e roteirista Misha Green e de diretoras como Cheryl Dunye, que Lovecraft Country fica muito mais à vontade quando está abordando questões do feminino dentro do tema geral da segregação racial; talvez seja por isso que Tic hoje é mais um protagonista funcional, através de quem a trama corre, enquanto as mulheres vão cavando seu espaço com arcos de pertencimento, primeiro com Leti, depois Ruby e Christina, Ji-Ah e agora Hippolyta. Até a redenção de Montrose, por periférica que tenha sido até agora, é mais sobre acessar o feminino do que reforçar convicções do masculino. Que a figura de Aunjanue Ellis seja despida com orgulho - um corpo nu de uma mulher de 51 anos, e não de uma atriz de 20 ou 30 anos - é outra conquista. 

Lovecraft Country continua fazendo esse passeio discursivo de uma forma lúdica, brincando com formatos e gêneros enquanto pontua (os áudios de arquivo em off não nos deixam esquecer) o peso histórico de se posicionar politicamente contra o racismo, a homofobia e o machismo. Este sétimo episódio chega a flertar com um caminho de blaxploitation (especialmente no segmento das guerreiras africanas) para incorporar uma tradição negra do entretenimento de massa, e mais uma vez fica claro que hackear o sistema de dentro para fora, apropriar-se dos gêneros para infiltrar o posicionamento político, funciona bem em Lovecraft Country.

As brincadeiras de metalinguagem são caras ao seriado, enfim, e isso fica evidente quando o episódio termina e um misterioso livro surge nas mãos de Tic. A referência reconecta Lovecraft Country ao seu primeiro episódio, que já sugeria um uso pesado de autorreferências para se validar como narrativa mitológica. Com a temporada de dez episódios embicando para o desfecho, o mais provável é que essa amarração da trama seja mesmo feita como um ouroboros, com uma dose considerável de fan service.

Quer saber mais sobre horror cósmico? Confira a nossa Live sobre H.P. Lovecraft e o horror cósmico.

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