Lovecraft Country: Conheça o processo de criação do universo da série da HBO

Créditos da imagem: Divulgação/HBO

Séries e TV

Entrevista

Lovecraft Country | Conheça o processo de criação do universo da série da HBO

A designer de produção Kalina Ivanov abriu seu baú de referências em entrevista ao Omelete

Gabriel Avila
19.10.2020
18h22
Copy and paste the converted output.

Lovecraft Country encerrou sua primeira temporada como um dos grandes lançamentos da televisão em 2020. Com forte inspiração na literatura pulp, a série abordou os mais variados tipos de horror, que vão desde a obra do escritor H.P. Lovecraft até eventos reais igualmente aterradores. Para entender o processo de criação desse universo, que funciona como um portal entre o mundo real e a fantasia de horror, o Omelete conversou com a premiada designer de produção Kalina Ivanov, que relembrou que seu primeiro passo foi entrar na mente dos personagens:

“Como designer, tenho a filosofia de sempre criar com base na realidade. Assim que encontro essa realidade, começo a me aprofundar, criar a parte de ficção científica, de fantasia e etc. Sempre sinto que quando estou trabalhando em uma comédia, ficção científica ou drama, é preciso começar do núcleo emocional dos personagens e expandir dali”. Para conhecer Atticus Turner (Jonathan Majors) e sua família, Ivanov lembra de ter buscado referência em registros sobre a vida da comunidade negra na Chicago dos anos 1950. “Existem muitas fotografias de Gordon Parks, que foi um grande fotógrafo da moda afro-americana. Então você começa desse ponto, e assim que encontra sua paleta e suas cores, o que reflete cada personagem, você cria todo um mundo a partir desses apartamentos para cada um deles”.

Arte conceitual do episódio "Whitey's on the Moon" por Kalina Ivanov

Arte conceitual do episódio "Whitey's on the Moon" por Kalina Ivanov

Divulgação/Kalina Ivanov

Esse estudo ficou visível logo no primeiro episódio da série, que recriou algumas das mais famosas fotos de Gordon Parks. A designer revelou também que esse mergulho no passado foi útil até mesmo para a parte fantástica de seu trabalho na série. “O ponto de partida para a parte de fantasia foi a ficção científica da década de 1950. Somando os livros, histórias em quadrinhos e filmes, há uma riqueza maravilhosa de materiais para pesquisa. Então olhei para tudo isso de uma perspectiva moderna e pensei ‘Ok, são os anos 1950, mas como posso interpretar e colocar tudo isso para os olhos de hoje e, talvez, de amanhã?’. Foi muito desafiador, mas um desafio maravilhoso”.

Um dos grandes atrativos de Lovecraft Country é seu passeio por diferentes gêneros a cada episódio. Questionada sobre as dificuldades em pensar em cenários que vão de casa mal-assombradas a mundos alienígenas, Kalina Ivanov voltou a seus anos de formação teatral. A designer lembrou que fazia cenários para diferentes peças, que iam de Shakespeare a óperas e comédias. “Em minha carreira trabalhei muito para cobrir muitos gêneros diferentes e acho que tudo isso literalmente se juntou neste projeto em particular. Porque nele pude pensar o design de números musicais e futuristas, e também historicamente específicos, além de cenas saídas da fantasia dos anos 1950”.

A influência de H.P. Lovecraft

Afirmando que a experiência na série foi como “voltar para a escola”, Kalina Ivanov revelou que Lovecraft Country também marcou por uma novidade: trabalhar ao lado do departamento de efeitos visuais para a criação dos cenários de Ardham. A cidade que aparece nos dois primeiros episódios tiveram forte influência dos monstros criados por computação gráfica. “Criaturas como os Shoggoths criaram a conexão com H.P. Lovecraft. A ligação com sua obra veio a partir dali, daquele monstro em particular”, relembrou. “Acabei me inspirando no visual dos Shoggoths, especialmente os dentes. Usei como ponto de partida para o episódio 2, em que eu gostaria de incluir dentes de forma subliminar a muitos elementos. Se você voltar a ele, vai ver dentes por toda a parte. Você só não percebeu ainda, mas estão lá (risos). No corredor, por exemplo, há vários dispostos pelo caminho”.

Arte conceitual do episódio "A History of Violence" por Kalina Ivanov

Arte conceitual do episódio "A History of Violence" por Kalina Ivanov

Divulgação/Kalina Ivanov

Mais do que referenciar os monstros, a escolha deu toda a identidade ao lar dos Filhos de Adão, que na série é uma réplica de uma construção antiga com forte ligação com ocultismo. Isso fica ainda mais aparente no piso do laboratório, em que pequenos triângulos foram incorporados ao local da mesma forma em que os dentes de uma das criaturas. “Usei aquele Shoggoth e o incorporei ao cenário. Não sei se todo mundo vai perceber, mas essa é uma parte importante. Acho que conecta todas essas ideias.”

As memórias dos soldados na Guerra da Coreia

Um pedaço importante da vida de Atticus Turner é seu passado como veterano na Guerra da Coréia. Além da belíssima cena que abre a série misturando o horror do campo de guerra com os terrores saídos da literatura, esse período ganhou vida no episódio “Meet me in Daegu”. Kalina Ivanov relembra esse capítulo como uma experiência quase que a parte. “Todos os episódios foram desafiadores, mas esse talvez tenha sido o maior”, afirmou. “Estávamos em Atlanta, na Georgia, que não tem nada a ver com a Coreia do Sul de forma alguma. E acho que fizemos a sábia decisão de filmar este episódio por último, porque havia uma enorme quantidade de pesquisa a fazer”.

Se a influência de Gordon Parks foi importante para criar a Chicago de Lovecraft Country, a Coréia do Sul da série nasceu da memória de soldados que voltaram do conflito. “O que me impressionou foi ter acesso a um grande número de fotos coloridas tiradas por soldados americanos. Tivemos uma riqueza incrível de imagens reais, em que pudemos ver a vida e o ambiente naquele momento. Foi incrivelmente emocionante partir dali, porque ganhou vida e ajudou a demonstrar como era a rotina de um soldado”.

Mais do que um flashback de guerra, o sexto episódio contou a história de Ji-Ah (Jamie Chung), uma mulher que esconde o terrível segredo de ser uma Kumiho - um espírito ancestral invocado para se vingar da humanidade. Para a construção do lar da personagem, Ivanov recorda que recebeu a ajuda de uma designer vinda da Coréia do Sul. “Para cenários como a casa em que Ji-Ah vive com sua mãe, eu havia feito pesquisas, mas nada como ter alguém que poderia realmente podia ler sobre a autêntica arquitetura sul-coreana. Com ela pudemos ser incrivelmente precisos nessas casas incrivelmente ergonômicas que são lindamente arquitetadas de forma tão simples e eloquente. A construímos como uma casa real, você poderia se mudar e viver ali”.

Ivanov relembra que um dos momentos em que teve certeza de que havia atingido a autenticidade que gostaria foi pela reação do elenco. “Nossa atriz, a Jamie Chung, veio até mim e me abraçou quando viu o cenário, dizendo que parecia que estava em casa. E a sensação era realmente essa, e foi importante ser preciso para passar realidade”. Em entrevista ao Omelete, a atriz Jamie Chung também relembrou esse momento afirmando que pisar no set pareceu “uma viagem no tempo”.

Para a designer, foi importante pensar no lado humano de Ji-Ah. “Sim, a personagem que vive ali é uma Kumiho, com suas caudas e etc, mas não fiz o design pensando nisso. Fiz pensando na mãe, que é dona da casa e cuja filha passou por tantos eventos trágicos”. Por outro lado, a dualidade da personagem foi importante para dar o tom de seu lar. “É uma casa muito bonita e atrativa em sua superfície, mas que também tem uma parede de pedras que representa perigo. Tive que pegar um pouco daquele calor da casa e colocá-lo em contraste com aquela parede em específico para passar a sensação de estar em uma prisão. Como se fosse uma masmorra, sabe?”

Arte conceitual do episódio "I Am" por Kalina Ivanov

Arte conceitual do episódio "I Am" por Kalina Ivanov

Divulgação/Kalina Ivanov

O resultado parece ter agradado, já que a designer guarda “Meet me in Daegu” com um grande carinho. “Secretamente este é meu episódio favorito… Não posso ter preferidos, são todos minhas crianças (risos), mas esse é um dos que mais me orgulho.”

Por fim, Kalina Ivanov celebrou a experiência em toda a série, especialmente a liberdade criativa que recebeu para criar mundos como em “I Am.”, episódio que coloca Hippolyta (Aunjanue Ellis) em uma jornada através de diferentes universos. “Para mim foi como uma criança em uma loja de doces, porque nunca tive a oportunidade de criar meus próprios mundos de ficção científica. Para este em específico quis criar o mundo alienígena mais belo e caprichado, inspirado na literatura dos anos 1950, mas com um olhar moderno. Acho que o resultado ficou espetacular, aquele episódio me deixou muito feliz.”

A primeira temporada de Lovecraft Country chegou ao fim no último domingo (18). Os episódios já estão disponíveis para streaming no HBO Go.

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados para as finalidades ali constantes.