Loki encara a crise dos super-heróis pelo caminho da ironia

Créditos da imagem: Disney/Divulgação

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Loki encara a crise dos super-heróis pelo caminho da ironia

Série começa com promessa de mais uma sessão de terapia para o MCU no Disney+

Marcelo Hessel
09.06.2021
13h15

É curioso ver como séries de TV distintas reagem ao esgotamento das narrativas de super-heróis, que dominam a produção americana do cinema há quase uma década e meia. No melhor estilo destruir para criar, as adaptações de espírito marginal, como Invencível, O Legado de Júpiter e The Boys, optam pela violência para problematizar o gênero. Como a Marvel está no coração do mainstream (de certa forma, a Marvel e a Disney ditam a forma e quais são as fronteiras do próprio mainstream) ela não pode simplesmente apertar o botão de autodestruir.

O que resta então ao MCU é se desconstruir a partir da autorreferência, e o que podemos ver nas três séries do Disney+ é que essa desconstrução toma a forma de uma sessão de terapia. Não é por acaso que WandaVision, Falcão e o Soldado Invernal e agora este primeiro episódio de Loki têm cenas com protagonistas sentados uns de frente para os outros discutindo suas razões de existir. O que está em jogo é menos o destino do universo do que a pertinência atual desse gênero em crise.

Em WandaVision, a primeira série a reagir ao fim do arco do Infinito e ao ocaso da pandemia, a crise toma a forma da esquizofrenia, em que a habilidade de moldar totalmente a realidade leva à desidentificação: “Que histórias contar agora que elas acabaram, e quem sou eu para narrá-las?”. Já Falcão e o Soldado Invernal, que inclusive leva a ideia da terapia ao pé da letra com Bucky Barnes, trata tudo de forma muito literal do ponto de vista político, menos o homoerotismo velado dos superencapuzados, que dá o tom da dinâmica tensionada da briga pelo escudo e não deixa de ser uma problematização do gênero dos quadrinhos em si também.

Loki dá indícios de que abordará essa problematização de um jeito mais atrativo do que WandaVision, primeiro porque não faz uma escolha tão literal pela metalinguagem, que sempre periga se esgotar em si mesma. A metalinguagem (expressa nas séries de TV dentro da série) era toda a razão de ser de WandaVision. Já no primeiro episódio de Loki, embora a Marvel continue repassando sua história e fazendo as autorreferências de uma jeito didático (com o protagonista assistindo a si mesmo na tela), o caráter metalinguístico parece melhor assimilado como comentário de si mesmo.

Ora, ao tratar o mundo da Time Variance Authority como um grande escritório de burocracia kafkiano, o que o MCU está fazendo em Loki é convidar o espectador aos seus próprios corredores, da sala de roteiristas ao almoxarifado de objetos de cena. Loki e Mobius discutem o que define um vilão, e que poder de livre-arbítrio tem um personagem dentro de uma narrativa que ele não controla, como se estivessem dentro de um filme de Charlie Kaufman. A expectativa de ver um Loki versus Loki inclusive pode remeter ao Nicolas Cage diante de outro Nicolas Cage no Adaptação escrito por Kaufman. 

A graça da coisa é que os contornos da TVA, com seus funcionários sempre em movimento, preocupados demais com suas funções para reconhecer o próprio tédio, fazem uma piada tremendamente irônica com o próprio funcionamento da máquina de gerar produtos de super-heróis em geral e do Marvel Studios em particular. A impressão que fica do primeiro episódio é que essa ironia não é involuntária; o fato de o produtor Michael Waldron ter trabalhado em Rick and Morty antes de se bandear para a Marvel serve de indício desse senso de humor.

Que forma deve tomar, então, a desconstrução autorreferente da Marvel nesta sua terceira série no Disney+? A julgar pelo primeiro episódio de Loki, não teremos um banho de sangue nem cinco estágios de luto, mas a boa e velha capacidade de rir de si mesmo. (E se fosse uma série de Deadpool ainda dava para esperar, por trás das estátuas dos Guardiões do Tempo, o corpo em formol de Walt Disney mexendo os pauzinhos.)

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