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Lembra desse? Capitão América

Lembra desse? Capitão América

José Aguiar
29.11.2000
01h00
Atualizada em
21.09.2014
13h11
Atualizada em 21.09.2014 às 13h11

Ele é o porta bandeiras mais ilustre dos quadrinhos. Seu uniforme deixam claras suas convicções e - por que não&qt;& - aspirações. De traz de seu galante (e discreto) uniforme azul, vermelho e branco , ele é o maior patriota dos gibis. E das telas, há um bom tempo.

Talvez você não saiba, mas o bom e velho supersoldado está na luta por um bom filme já há algumas décadas. Em 1944, no auge da II Guerra Mundial, chegou às telas num daqueles deliciosos seriados preto e branco das matinês. Como a patriotada estava mais do que na moda, não podia haver momento mais oportuno para arrecadar um troco com o herói do momento.

EM PLENA GUERRA

Quem teve a honra de vestir o colante foi o ator Dick Purcell, que nem pôde desfrutar da repercussão de seu trabalho, pois faleceu pouco depois de encerradas a filmagens. Purcell pode ser considerado o legítimo precursor do Batman de Adam West (aquele dos anos 60), pois possuía uma barriguinha saliente e músculos não muito evidentes para um supersoldado. Na verdade, nem super ele era.

No filme, a conhecida origem nem é citada. Steve Rogers (para quem não sabe, o alter ego do bandeiroso) inexplicavelmente chama-se Grant. Não há o famoso escudo da personagem, nem asinhas na cabeça ou mesmo mangas brancas da camisa. Até as luvas que ele usava eram escuras. Para compensar a falta de apetrechos quadrinhísticos, o aventureiro não hesitava em se valer de um bom e velho revólver. Sem falar que possuía uma motoca turbinada. Tudo isso para combater o cientista maluco chamado The Scarab (O Escaravelho). Os quinze episódios de Captain América- The Purple Death foram o último seriado baseado em quadrinhos produzido pela Republic Pictures, bem como um dos maiores sucessos da história dos seriados da época .

NAS MÃOS DA MARVEL

Mas o melhor ainda estava por vir. Em 1979, a Marvel Comics, que havia ressuscitado o Capitão nos anos 60, ainda estava dando suas últimas flertadas com a televisão quando encasquetou em produzir duas pérolas em forma de longa metragem. Até aí tudo bem, mas pelo visto ninguém aprendeu com os erros dos filmes com suas personagens produzidos anteriormente. Sinta só o drama:

Steve Rogers - Sim! Lembraram o nome dele - era um anabolizado desenhista publicitário que gostava de rodar por aí em seu furgão descolado, até que um dia sofre um atentado por parte de uns terroristas que estavam atrás dos segredos de seu falecido pai. À beira da morte, ele recebe uma injeção (quem dera o SUS fosse assim...) de um soro supersecreto chamado FLAG (Bandeira em inglês. Justiça poética&qt;&) e adquire força e agilidade sobre-humanas! Pois então o governo se manifesta e revela o porque do ataque dos terroristas. O pai de Steve era nada mais, nada menos que: o Capitão América! Tenebroso&qt;& Nada a ver com os quadrinhos&qt;& Não se desespere amigo leitor, o pior (ou melhor dependendo do ponto de vista) ainda está por vir.

Agora que Steve estava fortinho, nada mais natural que assumisse o manto de papai e partisse pra briga com seus algozes. Que por sinal estavam contrabandeando umas arminhas nucleares. E o governo americano, bonzinho como ele só, reforma o furgão do novo Capitão conferindo-lhe uma maravilhosa parede retrátil (milagre do design e do aproveitamento de espaço) onde, milagrosamente se escondia uma supermotoca (ecos do seriado dos anos 40&qt;&) naturalmente camuflada com as discretas cores da bandeira americana. O mais maravilhoso nisso tudo é que o nosso herói saía para combate saltando com a moto, de dentro do furgão no maior estardalhaço, em meio a uma maravilhosa nuvem de gelo seco. O pior é que ele sempre deixava as portas traseiras do furgão abertas. É compreensível, porém, que ninguém tenha roubado seu carango. Afinal, ninguém prestava mesmo atenção no escândalo que era sua arrancada para a glória...

Pelo menos dessa vez, ele tinha seu fiel escudo a disposição. Só era difícil engolir que aquele pedaço de plástico transparente fosse mesmo à prova de balas. Sem falar que era preso à frente da moto para impedir que o galante patriota fosse baleado por algum malfeitor. Céus, mas por que ninguém atirava nos pneus&qt;&

O melhor mesmo, no entanto, era o visual do fulano. O talentoso Rogers fez questão de desenhar ele mesmo uma roupa que honrasse seu famoso genitor. O resultado foi um glorioso colante em que as tiras branco e vermelhas eram iguais a suspensórios e a máscara nada mais era que um capacete azul de motoqueiro com asas gigantescas pintadas nas laterais. Um luxo só. Todavia, na cena final do filme, o aventureiro ganha um uniforme mais decente, igualzinho ao das HQs. O que deixa uma pergunta no ar: Pra que a fantasia diferente que usou o filme todo&qt;&

Mas a alegria (e a teimosia) não tem fim. No mesmo ano, fizeram Captain América II - Death too soon, no qual nosso amigo combate nada mais nada menos que o grande Drácula dos Estúdios Hammer: Christopher Lee. Naturalmente, Lee não era o vampirão. E sim um cientista imbecil chamado Miguel, que pretendia envenenar os EUA com uma droga que acelerava o envelhecimento. O tipo de papel que se faz quando falta a grana para pagar o aluguel.

Capitão II até que não é tão ruim, se usarmos o primeiro como parâmetro. Tem mais ação, o uniforme é o certo (embora teimem em fazer a personagem usar aquele tambor na cabeça) e conta até uma seqüência antológica, quando nosso herói foge de uma prisão. Primeiro, ele arremessa com um só braço (falei que era fortinho) sua querida motoca sobre o muro do presídio. Em seguida, salta com ela a toda velocidade em pleno ar, transformando-a numa estupenda asa-delta - Detalhe: camuflada você sabe com que bandeira - para pousar numa estrada distante já no encalço do vilão! Mais trash pra quê&qt;& E a série parou por aí. Por que será&qt;&

UM ELENCO ATIVO

Reb Brown era o dublê de ator que encarnou o Capitão em ambos os filmes. Sua carreira pelo visto não se arranhou pela participação em tão ilustres produções. Continua atuando até hoje em abacaxis de guerra e filmecos Z de ficção científica.

Connie Selleca, que interpretou a mocinha no segundo telefilme mais tarde foi a namorada do prof. Ralf Hinkley, no clássico seriado O Super-Herói Americano.

Alex Hyde-White, que na época era apenas um garoto sem nome em ambos os filmes, em 1994, já crescido, foi o Reed Richards no filme proibido do Quarteto Fantástico produzido por Roger Corman.

Já Christopher Lee, parece ter se recuperado da pindaíba e tem atuado em produções como A lenda do cavaleiro sem cabeça e na vindoura trilogia O Senhor dos Anéis, sem esquecer STAR WARS - Episódio II.

50 ANOS DEPOIS, FIEL MAS NEM TANTO

Passou-se o tempo, e o bom e velho supersoldado estava quase soprando 50 velinhas. Nada melhor do que homenageá-lo com um filme à altura de seus feitos. Ainda mais que, à época, tinham voltado à moda os filmes com personagens de HQs. Mas nada camp ou kitsch como as produções dos anos 60 e 70. A onda era tentar ser o mais fiel possível à fonte.

E assim o foi com Capitão América - O Filme de 1992. Tal como nas HQs, Steve Rogers era incapacitado de servir a pátria-mãe (no filme por ter paralisia infantil) e oferece-se como voluntário num projeto secreto do governo. Recebe o soro e uma dose dos Raios Vita. Torna-se um supersoldado. Enfrenta os nazistas e o Caveira Vermelha. É preso a um míssil e congelado no ártico, voltando a vida décadas mais tarde. Legal, né&qt;& Igualzinho aos quadrinhos. Mas esqueci de contar umas coisinhas.

Visualmente o uniforme estava quase impecável... com exceção das fabulosas orelhas de cera! Isso mesmo, tentaram colocar as orelhas do ator pra fora da máscara como nas HQs e não deu certo. Por isso tiveram que improvisar...

Matt Sallinger (mais famoso por ser o filho do escritor J.D. Sallinger do que por ser ator) era mirrado antes do soro do supersoldado. E continuou sendo depois. Nada de músculos como os de seu antecessor no papel. Ele apenas estufa o peito na cena da transformação.

O Caveira Vermelha nos desenhos do Capitão.

Apenas 24 horas depois, dão para ele uma fantasia e o jogam sozinho (sem treinamento nem nada) em cima das linhas inimigas. Até que o coitado se sai bem e encara o Caveira (Scott Paullin) num mano a mano. Por sinal, o Caveira é um italiano fascista (de onde isso&qt;&) vítima de um experimento parecido e malsucedido que deformou seu rosto. Sem falar que ele é de uma erudição fabulosa, expressando-se com frases complexas como: The pen of my aunt is on the table, a caneta da minha tia está na mesa, em bom português. Já o tal míssil foi arremessado contra a Casa Branca e um menino xereta bate a uma foto do herói. Anos mais tarde, ele se torna presidente (Ronny Cox, de Robocop) e é seqüestrado pelo (quem&qt;& quem&qt;&) Caveira, que por sinal fez uma cirurgia plástica pra dar um trato na aparência. Mas, por coincidência, um certo alguém se descongela e parte pra briga com seu velho antagonista auxiliado pelo querido presidente. Só resta saber por que o Caveira esperou 50 anos para entrar em ação outra vez... Preguiça&qt;& Enfim, esse filme é uma boa prova de que não basta ser fiel ao original. Um bom roteiro é fundamental. Talvez por isso mesmo tenha sido lançado direto para vídeo.

O CAPITÃO DEFINITIVO

E falando nisso, para quem quer mesmo fidelidade, não há nada melhor do que os saborosos desenhos desanimados dos anos 60, decalcados direto das HQs. Mais fiel que isso, impossível. Dos apenas 13 episódios produzidos em 1966, há alguns episódios (já fora de catálogo) que podem ser encontrados em locadoras mais antigas. Um clássico! E, como recordar é viver, aí vai a letra da abertura do desenho para cantar no chuveiro:

O Capitão América é um grande Lutador
E Contra o inimigo é sempre vencedor
É um homem forte
Enfrenta a morte
Com coragem e amor para onde for
O Capitão América é um grande Vencedoor!








FINALIZANDO, UMA CURIOSIDADE

Pode ser ironia, mas o único ator que vestiu a malha do Capitão América e se deu bem na vida chama-se Jonathan Frakes. Mais conhecido como o imediato William Riker da nave estelar Enterprise, da série Jornada nas estrelas- A nova geração. Além de atuar também como diretor de cinema e TV, é produtor da serie light de ficção, Roswell. Pior é que o dito cujo nem filme fez como o destemido defensor da liberdade. Na época das vacas magras, ele inaugurava supermercados com sua fantasia de super-herói. Coisas da vida...