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Lanternas foca em Hal Jordan, pais e filhos e suicídio no excelente penúltimo episódio

"O Legado dos Jordans" não é o episódio mais explosivo da primeira temporada, mas ainda assim é um dos melhores

Omelete
5 min de leitura
28.09.2026, às 10H09.
Lanternas, Kyle Chandler

Créditos da imagem: HBO

Eu só consigo imaginar o que Hal Jordan (Kyle Chandler)... bom, seu holograma, pensou quando viu John Stewart (Aaron Pierre) puxando e apontando uma arma para sua própria cabeça, logo depois de gritar por seu pai graças à ilusão causada pelo gás do medo que levou a civilização de Antaan à ruína. É no planeta deles que “Halograma” e John estavam quando esse susto aconteceu, mas – se ainda fosse permitido – eu apostaria que a mente de Hal voltou para o flashback que abre o penúltimo episódio de Lanternas, “O Legado dos Jordans.”

Naquela memória, vemos um momento definidor entre Hal e seu pai, Martin Jordan (Jake B. Miller, incorporando uma montanha de sentimentos num sorriso simples), quando Martin explica para o pequeno Hal que um homem deve deixar preparativos para os seus entes queridos caso ele morra. O que Hal não sabia era que seu pai planejava se matar, e seus preparativos – que incluíam entregar uma chave para que o filho abrisse seu cofre pessoal e descobrisse sua carta de despedida – eram a perpetuação de um ciclo de depressão e morte na família. O tal “Legado dos Jordans" sem dúvidas veio à mente do holograma de Hal (a quem vou chamar só de Hal a partir de agora) quando John apontou a arma para si.

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O medo é um tema fundamental para qualquer boa história de Lanternas na DC, e aqui vemos que o medo também existe na família Jordan, assim como nos Stewarts. Sua essência era diferente, mas é o medo do mesmo jeito. O penúltimo episódio de Lanternas não acelera demais as coisas, e há mistérios de sobra para o final (Quem matou Hal? Por que Sinestro está no planeta de Antaan? Alguém pode, por favor, dar um abraço em Kerry?), mas esse capítulo figura tranquilamente entre os melhores da primeira temporada simplesmente por depender da química entre Hal e John. No meu texto sobre o quarto episódio, comentei que ver os vislumbres de uma amizade entre os dois era justamente o que tornaria sua eventual cisão tão dolorosa. E havia, sim, uma parceria entre eles; algo que durou até mesmo depois da briga que os separa em Rushville. Segundo Kerry (Kelly Macdonald), Hal torcia por John como alguém torce por seu time. Reclamando. Às vezes decepcionado. Mas sempre torcendo.

Hal Jordan e John Stewart
HBO

Pouco a pouco, “O Legado dos Jordans” mostra o que os dois poderiam ter sido. Como o Hal mais velho, este Hal, mais novo e menos ranzinza, não demora a entender o que sua versão mais velha viu no aprendiz, mas diferente do homem de carne e osso, o holograma não é orgulhoso demais para elogiar, ensinar e proteger John. Enquanto os dois investigam o cofre de Hal – onde não há uma declaração de suicídio mas, sim, um portal para o planeta de Antaan – e vão aos poucos removendo as barreiras levantadas pelos acontecimentos em 2016, vemos um novo tipo de química surgir entre os personagens. Trata-se de um vai-e-vem divertido de acompanhar que não vai surpreender quem acompanhou as entrevistas que Chandler e Pierre deram juntos. No lugar dos alfinetes, encontramos dois caras (por alguma razão, essa me parece a palavra certa para usar), andando em frente ombro a ombro rumo ao desconhecido.

Em Rushville, Kerry fica surpresa quando Noah (Shea Pritchard) adia a revelação de qual será a universidade pela qual ele jogará futebol americano. O maior choque que a xerife leva naquele dia, contudo, é quando ela vê, e ouve, o holograma de Hal. O rosto de Macdonald quando Kerry escuta as primeiras palavras do fantasma de seu amor devia ser o suficiente para garantir mais um Emmy para a atriz, e aquela cena revela o cuidado da série em construir esse novo (velho?) Hal. Ele ainda é engraçado, ainda demonstra uma falta de tato em algumas situações, mas há mais sensibilidade, e ele não sente a necessidade de esconder tantas coisas sobre si por trás de uma fachada de sarcasmo e indiferença.

Talvez a teoria de que o Hal que morreu estava infectado pelo Parallax seja verdade, e talvez seja por isso que Hal virou o que virou, mas “O Legado dos Jordans” também oferece margem para interpretarmos a personalidade ácida que tomou conta do Lanterna Verde clássico de outra forma. Naquele flashback com o pai, Hal estava segurando uma bola de beisebol que ele se recusou a entregar para o outro arremessador do time quando o técnico toma a decisão de substituir o pequeno Jordan. Faltavam apenas duas eliminações para Hal completar um jogo completo, e por isso, ele se recusou a sair e entregar a bola, o que fez seu time perder por WO – para o orgulho do pai, que fica furioso com a decisão do treinador.*

Lanternas John Stewart
HBO

*Como talvez nem todo mundo entenda de beisebol, deixe-me explicar: isso é o equivalente a tirar um jogador que já fez dois gols na partida, aos 40 do segundo tempo, quando ele está prestes a bater um pênalti e completar o hat-trick. Não se faz.

A conversa entre pai e filho termina com Martin sugerindo que Hal enfim solte a bola. É difícil ficar segurando ela, explica o piloto que logo menos abriria mão de sua vida. Hal arremessa a bola, mas a última cena de “O Legado dos Jordans” mostra que o garoto foi atrás dela depois de enterrar seu pai. Não é difícil entender a bola como a vida, e diferente de seu pai (e seu avô), Hal Jordan se recusa a soltá-la. Enquanto a depressão, ansiedade e traumas se acumulavam, deixando-o mais e mais amargurado, a força de vontade de Hal Jordan permanecia mantendo-o vivo. O anel pode ter virado sua bola. A conexão com a vida que ele se recusava a perder.

Novamente. Talvez haja um Parallax por trás de tudo. Talvez descubramos isso quando John se tornar um Lanterna – cada vez mais, compro a teoria de que ele será um Lanterna Amarelo heroico, e que a série não usou imagens do gibi Lanterna Verde: Terra Um, onde isso acontece, sem motivo – e identifique o parasita do medo dentro do antigo anel de Hal. Talvez seja isso que Sinestro (Ulrich Thomsen), abandonado no planeta de Antaan, nos ajude a descobrir as respostas para essas perguntas.

Mas, quem sabe, Hal Jordan tenha sofrido com um legado de tristeza, morte e infelicidade desde seus oito anos de idade. E, ainda assim, ele persistiu até o fim. Muito se criticou esse Hal Jordan por suas atitudes, mas eu não consigo imaginar algo mais corajoso do que isso.

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