Imagem de Keeping up with the Kardashians

Créditos da imagem: Keeping up with the Kardashians/Divulgação

Séries e TV

Artigo

Como Keeping up with the Kardashians foi além da alienação e virou um fenômeno

Oito temporadas do reality sobre a vida dos Kardashians estão disponíveis no Amazon Prime Video

Henrique Haddefinir
09.04.2020
11h10

Apesar de sempre ter estado entre os famosos, chegando a aparecer em alguns episódios do infame Simple Life, reality show de Paris Hilton, o grande salto para a fama de Kim Kardashian aconteceu em fevereiro de 2007, quando sua sextape com o ex-namorado Ray J vazou e chegou a ser comercializada por uma produtora (que foi devidamente processada, é claro). As imagens de Kim com Ray se tornaram uma sensação e por causa dessa sextape, a curiosidade sobre ela começou a tomar conta das redes e da mídia, justamente porque o nome Kardashian não era tão anônimo assim.

Segundo consta, foi Kris Jenner, matriarca da família, quem procurou o produtor Ryan Seacrest com a proposta de registrar a rotina de todos em um reality, dando origem a Keeping up with the Kardashians. Olhando em retrospectiva, com todo o drama que ronda o clã, Kris acabou sendo uma visionária.

O nome Kardashian não remetia apenas ao quanto Kim foi exposta. Seu pai, Robert Kardashian, foi um dos advogados de defesa de ninguém menos que OJ Simpson, o astro do futebol acusado de matar sua ex-esposa Nicole Brown. Nicole era melhor amiga de Kris. Junte-se isso ao fato de que, após o divórcio, o medalhista de ouro Bruce Jenner se tornou seu segundo marido e uma outra de suas filhas, Kourtney, já tinha participado de um reality, o muito menos popular Filthy Rich.

Na primeira temporada da série American Crime Story, o caso de OJ foi abordado e pudemos ver David Schwimmer (O Ross, de Friends) na pele de Robert Kardashian, num momento da história em que seu nome não era nem mesmo dito corretamente pelos jornalistas. Em uma emblemática cena da série, ele diz aos filhos que um dia o sobrenome da família seria conhecido pelo mundo todo... E ele estava certo. Em outubro do mesmo ano em que a sextape de Kim vazou, o reality estreou no canal E!. O sucesso foi tamanho que hoje, ainda no ar, o programa alcançou a sua respeitável décima oitava temporada, com o público ainda querendo saber o que acontece nas vidas de Kris, Kim, Kourtney, Khloe, Kendall e Kylie.

Bolha com K

A primeira coisa a se considerar sobre a atração é que ela nunca foi bem vista pela crítica e por parte da opinião pública. Os Kardashians foram acusados instantâneamente de oportunismo, de estarem vendendo a própria intimidade e de estarem fazendo isso sem serem muito autênticos. De fato, não há a menor possibilidade de ser muito verdadeiro com câmeras acompanhando sua vida por toda parte. Ao mesmo tempo, também não há condições de ser fake por um período tão longo de exposição. O material apresentado pelo reality oscila entre situações roteirizadas para transmitir uma constante ideia de luxo e riqueza; e situações dramáticas reais, que vulnerabilizam os membros da família, que têm problemas comuns a todos.

É preciso considerar também que o programa estreou numa época em que o formato dos realities estava no auge da própria saturação. Keeping up with the Kardashians já era a reinvenção de uma exposição parecida, promovida pela MTV, com a família Osbourne, que era interessante não pela atmosfera abastada, mas pelo fator peculiaridade. Inclusive, talvez o materialismo exacerbado da sociedade de Los Angeles tenha contribuído para a má fama do programa. Mansões, carros milionários, marcas caríssimas e muitos privilégios compõem a rotina da família.

Mas, é curioso notar que após asssistir aos episódios, pequenas fugas da alienação escapam em um ou outro momento, como quando Kim perde um brinco de 75 mil dólares no mar e enquanto a assistimos cair em pranto convulso é possível ouvir ao longe sua irmã Kourtney gritar: “Tem gente no mundo morrendo, Kim”.

O ritmo dos episódios é irregular, mas muito cedo percebemos como nossa próprias expectativas nos traem: a rotina de Bruce Jenner (hoje Caitlyn Jenner) é muito simples e tranquila, mas basta um dos plots dele começar a se desenvolver para que torçamos pelo próximo embate entre as irmãs ou a próxima vez em que Scott (o marido-desastre de Kourtney) vai armar um escândalo. Kim é a âncora absoluta do programa e não só isso sobe à sua cabeça inúmeras vezes, como afeta as irmãs e principalmente o irmão Rob, o único homem do clã, sempre à deriva e com um semblante triste e derrotado. Khloe, a irmã sempre apontada como “o patinho feio”, compensa o mundo de fantasia com tiradas sarcásticas e provocativas.

As oito temporadas disponíveis no Amazon Prime Video não alcançam eventos transgressores como o relacionamento entre Rob e Blac Chyna e a transição de adequação de gênero de Bruce Jenner, que retornou algum tempo depois com seu novo corpo e novo nome, Caitlyn Jenner (essas impressões, é claro, se baseiam apenas nas temporadas disponíveis). Mas, esses oito anos abraçam a estranha relação de Kim com o jogador Kris Humphries (e o casamento que durou 72 dias), os primeiros surtos de bebedeira de Scott, a separação de Kris e Bruce e os primeiros passos do curioso encontro entre Kim e Kanye West.

Superficiais sim, mas com conflitos e rusgas familiares com que todos podem se identificar identificar. Como todas as famílias, os Kardashians podem ser detestáveis e encantadores, sinceros e oportunistas; e em alguma escala o programa mostra algumas verdades. Como acontece com quase todo reality show, se você vencer a sua própria culpa por querer assisti-lo, pode até se divertir.

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