Séries e TV

Artigo

Justiça | Nossas primeiras impressões da minissérie da Globo

Emissora adere ao formato das narrativas cruzadas

Henrique Haddefinir
28.08.2016, às 22H49

Um dos significados da palavra justiça se refere à "qualidade do que está em conformidade com o que é direito, ao modo de avaliar o que é justo". É claro que justiça também é um verbete que remete ao que é legal, a um conjunto de regras que define o destino dos indivíduos que procuram ou desrespeitam a ordem da sociedade. Num país como o nosso, com nosso histórico, há, por consequência, uma variação inevitável do sentido de justiça: nem sempre ela é feita de maneira satisfatória, seja pelos órgãos responsáveis ou pelas mãos daqueles que se julgam capazes de invocá-la.

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Essa é basicamente a premissa da nova minissérie da Rede Globo, que levou ao ar na última semana os quatro primeiros episódios (de um total de 20), que acompanharão as vidas de quatro condenados. Três deles foram presos injustamente e um é realmente culpado. Para os que são inocentes, a justiça foi falha e uma vez postos em liberdade, eles tentarão uma reparação pessoal segundo as próprias noções do que é justo. Já para o que foi preso corretamente, a liberdade legal é sua verdadeira saga. Uma vez cumprida a pena, é justo perseguir um ex-condenado?

Criada por Manuela Dias (a mesma autora da adaptação de Ligações Perigosas), a minissérie Justiça mostrou em seus primeiros capítulos que não tratará mesmo do sistema penal, focando, de fato, na forma como cada um avalia o que é justo, baseado na própria experiência ou na de quem está em volta. A cada dia da semana (com exceção da quarta-feira, quando não há exibição), o público acompanhará a história de um personagem e o que foi protagonista em um dia, pode aparecer como mero coadjuvante no outro. Assim, a Globo adere de fato à linguagem seriada da fragmentação de narrativas, prendendo o espectador no jogo de montagem de cenas.

Os Justiceiros

Justiça começou com a história de Elisa (Deborah Bloch), que vê a filha ser assassinada pelo noivo por conta de uma traição. A estrutura do capítulo é uma velha conhecida dos fãs de séries de TV, com cortes entre passado e presente que constroem um quadro bem planejado do que virá a seguir. Os outros três protagonistas da minissérie aparecem nesse capítulo em momentos diferentes e o destino deles será entrelaçado no mesmo dia, quando serão presos. O interessante é perceber que as tensões que levam às prisões convergem várias vezes durante a semana, mas o espectador as acompanha sempre por ângulos diferentes. Um exemplo disso é o atropelamento de Beatriz (Marjorie Estiano), que faz parte da história de Maurício (Cauã Reymond), que só será o foco nas sextas-feiras, mas que acontece em todos os capítulos anteriores, a cada vez com um olhar distinto.

A base de Justiça desafia as próprias regras, aliás. Deborah Bloch é a protagonista das segundas-feiras, mas ela não é a personagem que foi presa. Vicente (Jesuíta Barbosa) é o assassino de sua filha e depois de sete anos confinado, é posto em liberdade. Inconformada, ela quer reparar a frouxidão dos códigos penais por contra própria. Maurício, que teve a esposa atropelada, também mata uma pessoa, mas a eutanásia que ele executa na amada não é julgada pelas leis do roteiro: a jornada dele é aplicar sua justiça no atropelador, que fugiu sem prestar socorro. Numa escala menor, o assassinato de um cachorro, cometido por Fátima (Adriana Esteves), invoca a fúria de seu vizinho irresponsável, que arma para que ela seja presa. Inocência e culpa vão se contradizendo a medida em que as histórias avançam. Ao "fazer justiça" você pode acabar cometendo outra.

Outra subversão - que pode enfraquecer a coerência do roteiro se não for bem controlada - está nas noites de quinta, quando acompanhamos a história de Rose (Jessica Ellen), que na véspera de sua matrícula na tão sonhada faculdade é presa com drogas que deveriam estar com a amiga Debora (Luisa Arraes). Debora foi liberada imediatamente da batida policial, mas Rose foi revistada por ser negra. A complicação maior está no fato de que Debora foge sem explicar nada e Rose é filha da empregada da família da amiga. Embora esse quadro evidencie uma história ligada ao racismo e à discrepância social, quando sai da cadeia, Rose procura a amiga de novo e descobre que ela se tornou estéril depois de um estupro. As duas, então, seguirão na busca pelo estuprador.

Aparentes incoerências no roteiro podem ser resolvidas com a paciência de esperar o capítulo seguinte. Nessa primeira semana, não há explicações sobre por que todos ficam presos por sete anos independente da variação de crimes. O futuro da história pode revelar detalhes que provoquem reviravoltas. Elisa quer pegar o assassino da filha, Maurício quer pegar o atropelador da esposa, Fátima quer pegar o vizinho que armou sua prisão... Rose fica à deriva, tendo sua trama subvertida para a justiça da amiga e não de sua própria. Isso à primeira vista, é claro. O estupro pode ter, inclusive, algo a ver com a busca dela por reparações.

Os trailers da minissérie já adiantavam um clima sombrio e pesado. A história não nos poupa de altas doses de sofrimento, que são sublinhados com interpretações viscerais e uma trilha sonora melancólica, a começar pela versão de "Hallelujah", também velha conhecida do público de séries e que é cantada por Rufus Wainwright. Contudo, sabemos que em narrativas tão fragmentadas assim, ter uma noção de sua eficiência só é possível quando colocamos o quadro geral em perspectiva. A iniciativa da minissérie é, sem dúvida, uma das grandes viradas da TV aberta no caminho da elaboração de dramaturgias mais complexas e menos engessadas. Justiça seja feita, sabemos que produções muito ricas podem ser tomadas de apuro técnico, mas que há muito tempo estamos precisando de boas histórias.

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