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Artigo

House - Remédio contra a chatice

Terceira temporada da série chega à TV

Andres & Fiks
15.03.2007
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h23
Atualizada em 21.09.2014 às 13h23

A premiada série House M.D. - que estréia hoje a sua terceira temporada no Universal Channel - diverte, irrita e provoca reflexão até no mais sonolento espectador. É impossível ficar indiferente!

Entre aborrecidos atendimentos ambulatoriais obrigados pela chefa e cabeludos casos em busca de um diagnóstico, o Dr. Gregory House vai despejando sua ojeriza quase romântica pela humanidade em tijoladas verbais politicamente incorretas.

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House adora arriscar, dando uma de psicanalista, e geralmente se sai bem. Nem sempre. Se na psicanálise selvagem o médico acerta, no quesito diagnóstico House volta e meia erra. E feio. Pelo menos na primeira hipótese e no tratamento inicial que praticamente impõe. Seu furor em curar na maioria das vezes faz piorar os pobres pacientes, que finge desprezar, provocando o ódio do doente e de seus familiares.

Mas que diabos esta série tem de bom? Além do protagonista que adoramos odiar, o inglês Hugh Laurie (que acumula dois Globos de Ouro pelo papel), a velha mania de apresentar médicos como pessoas totalmente dedicados ainda cola, assim como a busca da verdade clínica e uma atmosfera de investigação científica que faz sucesso em C.S.I. e seus genéricos.

Do mesmo modo que em séries investigativas, House sempre começa com uma apresentação clínica extravagante, com a simulação anatômica e fisiológica através de uma câmera que invade órgãos e acompanha bactérias, trombos, espasmos. Aliás, eles nunca faltam. Quase todos os pacientes convulsionam, geralmente para mostrar a gravidade do caso ou por que a equipe de Dr. House está no caminho errado.

A beleza interior

Há 500 anos a humanidade abriu mão do respeito imposto pela Igreja aos mortos, e desde Leonardo da Vinci nos deliciamos em bisbilhotar cadáveres. Alguma dúvida? É só dar uma olhada nas maiores séries de sucesso atuais. Quase todas têm mortos vasculhados por protagonistas gélidos. Sem contar a vida real - que cada vez mais imita a arte - com as várias exposições sobre corpos, cadáveres caprichosamente trabalhados que viajam pelo mundo e agora aportam na Oca do Ibirapuera, em São Paulo.

House é semelhante a C.S.I. quando mostra uma equipe empenhada em sua profissão cuja vida pessoal fica em último plano. São autômatos. E só há uma regra: vencer a doença que se apresenta como inimigo. Dr. Gregory House segue à risca os mandamentos da medicina. E não importa a relação médico-paciente. O fígado, o coração, o cérebro são mais importantes. Os únicos conflitos humanos servem para sublinhar que Gregory e sua patota decidiram pela vida religiosa via profissão. Turma fantástica esta, que realiza desde exame de urina até análise de genes (impossível tanto conhecimento na prática clínica)!

Moral, ética, lei... Tudo isso não importa. Em House, os médicos mentem aos pacientes, aos familiares, invadem casas em buscas de provas das doenças como se fossem detetives. Fazem dos doentes tubos de ensaio como terroristas do bem, moda iniciada em 24 horas.

A televisão - das séries - tem testado as audiências muito além do limite imposto pela autocensura americana. Não segue normas morais, mas mantém-se sempre o padrão conservador mais atual. House subverte o lugar tradicional dos médicos como salvadores de seus pacientes. Gregory e equipe querem eliminar doenças. Os pacientes estão em segundo plano.

Mas nada é tão frio assim. Sobra espaço para pieguices de Natal, músicas tristes que embalam as cenas que mostram a vida solitária dos médicos e como eles sofrem por trás da máscara de personagem decidida. O que vale é a verdade, mas uma verdade segura, que não arrisca. A verdade da ciência. As verdades que Gregory diz aos colegas, aos pacientes e seus familiares soam apenas como rabugice e alívio para sua condição de manco de bengala e viciado em analgésicos; é hilariante a máxima: "as drogas não me deixam alto, me fazem neutro".

Para isto é necessário a prova da realidade. Talvez este seja o grande segredo em House. Não há certezas. Em todos os episódios há diagnósticos errados e tratamentos que não dão certo. O grande charme da série é uma aposta provisória que sempre trata da vida perante a uma dramática ameaça de morte.

Entre a altivez de C.S.I. e o triunfo da vida pessoal sobre a profissional em Grey's anatomy, Gregory House vai pelo caminho de Hannibal Lecter, de O silêncio dos inocentes. Ele tem todos os atributos morais e éticos para ser execrado, mas conquista seus pupilos, a diretora do hospital - que se curva à sua inteligência médica - e o espectador, que adora vê-lo e escutá-lo dizer tudo aquilo que tempos politicamente corretos nos impedem em público.

O médico e o ilusionista

Há um truque essencial em House e imaginamos que todos sabem dele! É como o ato de ilusionista ou a grande mágica de um David Copperfield. Sabemos que é falso: um elefante não pode desaparecer na nossa frente... O caso único, um em milhões - como se diz constantemente na série - será curado.

Vemos atletas aleijados voltarem a jogar; músicos paralíticos que saem andando do hospital; crianças com alergias já em parada respiratória que levantam como pequenos Lázaros e caminham de bracinhos abertos para as mamães choraminguentas... O truque essencial é este: sabemos desde o início que o paciente será salvo. Afinal, quantas foram as mortes no hospital durante o plantão do Dr. House? Esse cara é um milagreiro impressionante. Lembra-nos dos velhos curandeiros místicos, das bruxas em Shakespeare, dos oráculos gregos. Gregory House é feio, solitário, manco, sem atrativos, ranzinza... Nunca o vemos estudando, mas alimenta seu infinito conhecimento com... Adivinhem? Séries de televisão sobre medicina. UAU!

Mas o divórcio com a realidade não diminui o interesse. Ao contrário, aumenta. A população está cada vez mais velha no mundo inteiro. Chegar aos 80 é quase corriqueiro. Chegarmos lá saudáveis é o desejo geral. Se acreditarmos numa medicina capaz de fazê-lo, opa, vamos apoiá-la incondicionalmente.

Como todo bom programa, diverte por proporcionar uma fantasia que todos desejamos seja possível de realizar-se. Afinal, nascemos com um médico ao nosso lado e esperamos morrer com um perto aliviando nossas dores. Pelo menos com 100 anos e saudáveis... E se o tal do Gregory House sabe como... Qual é mesmo o endereço do hospital dele?