Séries e TV

Entrevista

House | Omelete Entrevista David Shore - Parte 2

Criador da série fala sobre o sucesso da série, a importância da fórmula e sua relação com House

Marcelo Forlani
27.04.2011
00h29
Atualizada em
21.09.2014
14h19
Atualizada em 21.09.2014 às 14h19

Há um mês publicamos a primeira parte do nosso encontro com David Shore, o criador de House. Agora está na hora de aprofundar mais alguns assuntos, na entrevista exclusiva que fizemos com este advogado canadense que comanda uma das séries de TV mais bem-sucedidas da atualidade. Veja como foi:

Quando você percebeu que House era um sucesso?

David Shore e Hugh Laurie

None

House

None

David Shore

None

Inicialmente não foi. Quando começamos, éramos medianos. Existe um boato nos EUA de que quando estreamos, já estávamos prestes a ser cancelados. Eu nunca senti que pudéssemos ser cancelados, mas isso não foi porque estávamos indo muito bem, era mais porque estávamos indo apenas bem, enquanto o resto da programação da Fox naquele ano estava indo muito mal e por isso eu meio que sabia que eles tinham que nos manter. Mas o sucesso de House ainda é algo que eu tenho dificuldade em aceitar. Eu não consigo definir quando foi porque minha mente não estava pronta para aceitar isso. Quando começamos a ser exibidos depois do American Idol, os números começaram a subir cada vez mais e isso me surpreendeu. Acho que estamos entre os dez primeiros. Então foi mais para fim da primeira temporada que eu comecei a perceber que estávamos indo bem. Não acreditei mesmo quando comecei a ouvir que estávamos indo bem até em outros continentes.

Eu acho que vocês foram o número 1 aqui.

Não brinca! Eu li na internet que éramos o seriado número 1 do mundo - eu acho que agora não somos mais. Não é algo que você almeja. Eu sei que isso pode soar estúpido, mas você acha que as pessoas têm vontade de criar a melhor série do mundo, a mais popular. Eu realmente não penso desse jeito. Eu só queria poder contar minhas histórias e acabei ficando surpreso com tudo isso.

Você se lembra da primeira vez que ouviu a expressão "Huddy" (House + Cuddy)?

Eu não me lembro exatamente quando. Eu sei que também teve "Hameron" (House + Cameron), depois veio o Huddy. Eu não me lembro porque - isso é bem complicado para eu dizer - eu tento não ler muitas coisas na internet, não ler os comentários. Não que eles não sejam brilhantes e perspicazes, mas eu acho que tenho que escrever as histórias que eu quero escrever, contar as histórias que eu acho interessante e torcer para encontrar um público que goste disso. Também tenho que saber que vai existir um grupo de pessoas que não vão gostar. Então eu tento não ler os comentários por medo de acabar sendo sugado por esse mundo.

Na primeira parte da conversa, nós começamos a falar sobre o intervalo entre as gravações, as edições e a transmissão. Como isso funciona para você, como roteirista? Porque algumas vezes uma trama que você pensou e construiu - por exemplo, a trama da contratação da Thirteen, Taub e Kutner, que foi tupo um reality show, na minha opinião, ficou um pouco longa. Como é quando você tem esse tipo de percepção do público e é muito tarde para fazer qualquer coisa...

E é muito tarde! Certas vezes, eu tenho minha própria reação para a trama, em que você acaba em um lugar que era exatamente como você pensou. Tudo vem com a experiência. Geralmente eu consigo dizer o que vai funcionar e o que não vai, mas existem coisas que acabam te surpreendendo. É parte do trabalho ter certeza de que aquilo que você pensa que vai funcionar realmente funcione. O trem precisa continuar seguindo em frente e se eu começar em um caminho que não seja bom, eu fico preso naquilo. Mas você também pode cometer erros e seguir em frente. Na primeira temporada você não tem esse luxo. Mas isso é meio que bom, você não pode ter medo de testar as coisas e você pode aceitar que nem tudo vai funcionar do jeito que você queria, mas não tem problema. Você dá o seu melhor e tenta fazer as coisas de uma maneira diferente, mas nem tudo dá sempre certo.

Falando sobre fazer coisas diferentes, adoro todos os episódios de fim de temporada. Você sempre consegue se superar. O primeiro ano foi ótimo, o segundo ano foi melhor ainda... O final da temporada é algo que você especial para tentar fazer algo diferente?

Nós trabalhamos por meses para chegar naquele ponto. Geralmente sabemos como vai ser esse episódio, estamos cientes de que ele vai ser o último do ano e sabemos que temos que fazer algo que vai...

Deixar um gancho para a próxima temporada.

Sim, como isso. Pelo menos algo que prenda a audiência, que deixe todo mundo pensando o que vamos fazer com aquilo. Então, sim, é um episódio importante.

Eu realmente gosto quando você rolam as cenas de alucinação, como você fez em "Bombshells", ou quando você inclui cultura pop - como no episódio que tem o início baseado em uma cena de Pulp Fiction. Foi brilhante. Como isso entra nos episódios? São ideias dos roteiristas ou você sugere...?

Sim, eu sou um dos roteiristas e nós temos ideias coletivamente, que de vez em quando são um pouco mais diferentes do que as comuns, quebrando a fórmula. E nós nos divertimos com essas coisas. Tendo dito isso, eu acho que as ideias formuladas são as mais importantes - você não pode fazer coisas no estilo Pulp Fiction a menos que consiga fazer com que a fórmula básica funcione. O quebrar da fórmula só funciona se a própria fórmula estiver funcionando. Os roteiristas que fazem histórias rotineiras e ainda assim conseguem fazer com que elas funcionem do começo ao fim, esses são os meus preferidos. De certo modo, é mais fácil fazer as coisas espetaculares, as loucuras, as coisas diferentes, todas elas são bem divertidas, mas precisamos também do que é normal.

Apenas por curiosidade - depois que você fez a homenagem a Pulp Fiction, a série Community também fez uma.

Tenho certeza que é uma coincidência.

E eu sei que é, mas ainda assim é engraçado que seja quase simultâneo, com um intervalo de tempo bem pequeno entre os dois episódios.

É bem engraçado mesmo, bem estranho. Tem bastante coisa acontecendo, eu não sei como as coisas acabam na confusão.

Não é como se fosse uma homenagem à A Origem, que é um filme recente.

Sim, é um filme que já existe há algum tempo. Eu acho que os roteiristas gostam muito de Pulp Fiction, então isso pode ter contribuído um pouco.

Em "Bombshells" você também fez uma homenagem à Two and a Half Men. Com tudo o que aconteceu com o Charlie Sheen...

Nós fizemos a homenagem antes de tudo acontecer e o timing foi incrível. O episódio foi basicamente ao ar quando tudo explodiu. House estava usando a camisa e tudo mais.

E falando em Two and a Half Men e tudo o que aconteceu, você acha que seria capaz de substituir Hugh Laurie por qualquer razão que seja? É claro que ele não é Charlie Sheen, mas pode ser que aconteça um acidente ou coisa do tipo - ou você cancelaria a série?

Sem o Hugh Laurie? Não, não haveria mais série.

Você já assistiu à minissérie da BBC, Sherlock?

Eu comprei outro dia, ia assistir no voo para cá mas estava muito barulho, então está para assistir no meu computador. Eu ouvi ótimas coisas sobre a série.

Realmente é ótima, mas assistir House meio que estragou a série para mim. Eu sempre acabava criando paralelos entre Sherlock e House.

Sério? Poxa, desculpa!

Mas de um modo bom, eu realmente gostei de Sherlock.

Sherlock Holmes foi uma grande inspiração.

Você pode me dizer quais são seus seriados antigos favoritos?

Era para eu ter ajudado a desenvolver The Rockford Files - esse era um ótimo seriado das antigas. Bob Newhart - eu adorava tudo o que ele fazia. Todos os seriados do [Steven] Botchco meio que mudaram a TV - Hillstreet Blues, L.A. Law e antes disso até a primeira temporada de Miami Vice era algo como eu nunca tinha visto antes. Eu sou um cara da TV. Essas são as pessoas que começaram a construir um pouco do que vemos na TV hoje em dia, que é um tipo de história mais madura e produções bem mais sofisticadas.

Além de Hugh Laurie, que trabalha com você, o protagonista de The Walking Dead, Andrew Lincoln também é britânico e agora o Batman, Homem-Aranha e o Superman também são britânicos. O que você acha que os difere dos outros atores? Ou você acha que é só uma coincidência?

Me faz pensar que talvez não seja uma coincidência. Nós não o contratamos por ser britânico, mas o contratamos apesar dele ser britânico porque sabíamos que o sotaque seria um problema. Não foi para nós, mas para ele é - Hugh é obcecado por isso. Nós achamos que o sotaque dele está ótimo mas é uma das coisas que mais o incomoda. Eu acho que talvez haja uma atitude diferente quanto à atuação na Inglaterra. Existem exceções quanto a isso em ambos os lados do Atlântico, mas atuar é um trabalho para o qual você tem que treinar e entregar o prometido. Eu acho que essa é uma atitude bem saudável para se atuar na TV ao contrário da mentalidade de estrela - mas como eu disse, há diversas exceções. Se eu generalizar, o que eu estou fazendo, há menos da mentalidade de estrela na Inglaterra e eu acho que isso deu a oportunidade para atores melhor treinados, atores com os quais você consegue trabalhar.

George Costanza [personagem de Jason Alexander em Seinfeld] é obviamente o alter ego de Larry David [um dos criadores de Seinfeld]. Você se relaciona a algum personagem de House?

Eu meio que sou o próprio House. É simplista demais dizer isso, mas aquelas atitudes e as coisas que ele diz - eu não sou tão rude quanto ele e também não sou tão inteligente. Mas as duas coisas estão ligadas, se eu fosse tão inteligente, talvez eu fosse rude daquele jeito. [risos] Eu sei que eu posso estar errado, então eu tenho um pouco mais de tato. A busca da verdade, da racionalidade vem de mim. Eu gosto disso e Hugh [Laurie] também gosta disso. Gostamos dessas qualidades em um nível bem pessoal.

Eu pedi que me twitassem algumas perguntas e uma das pessoas perguntou se você já sabe quando a série vai acabar.

Sim, pelo menos eu espero que sim. Não é sempre assim que funciona nos EUA porque é um negócio. Eles mantêm uma série no ar enquanto ela ainda arrecada dinheiro, o que acaba fazendo com que algumas séries durem mais do que deveriam. Eu espero que esse não seja o nosso caso. Lost é meio que o exemplo principal da série que disse "não, nós vamos parar agora". Eu não sei quando House vai terminar, mas eu espero que não seja tarde demais.

Mas você tem material para...

Eu não sei como vai terminar, mas eu tenho mais material para a série sim.

Para pelo menos mais umas, duas temporadas?

Eu espero que sim.

Para encerrar, outra pergunta vinda do twitter é se você seria amigo de House.

Sim, eu seria amigo de House, mas não necessariamente seu paciente. [risos]

Muito obrigado.

Obrigado.

No Brasil, a nova temporada de House está sendo exibida às quintas, em novo horário - 22h -, no Universal Channel. Veja o que estamos achando.