Monica Raymund e James Badge Dale em Hightown/Starz

Créditos da imagem: Starz/Divulgação

Séries e TV

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Mais focada em chocar que em desenvolver trama, Hightown não traz nada de novo

Ritmo lento e cenas de sexo excessivas transformam novo seriado policial da StarzPlay em um evento cansativo

Nicolaos Garófalo
19.05.2020
18h56

Com dezenas de produções policiais estreando e todo ano na TV, é preciso criatividade para se destacar da concorrência. Mostrando diferentes fases de uma investigação, abordando temas desconfortáveis e até transformando a relação entre colegas em uma irreverente comédia, estúdios sempre procuram inovar para alcançar o sucesso com um gênero televisivo extremamente popular. Algumas produções, no entanto, tentam se sobressair com exageros, confundindo choque com maturidade e exposição com realismo, deixando o desenvolvimento de tramas e personagens de lado.

Tentando se diferenciar de procedurais tradicionais, Hightown, nova série da StarzPlay, segue rigorosamente uma lista de exageros feita sob medida para chocar o espectador. A violência desnecessária e uso excessivo de cenas de sexo não têm relação nenhuma com o desenvolvimento da trama ou de seus personagens. Estes, aliás, são definidos por no máximo duas características básicas, que também nunca são aprofundadas.

“Policial lésbica”, o “detetive desequilibrado” e o “traficante latino” são apenas alguns dos estereótipos entregues por Hightown, que também faz um desserviço à comunidade LGBTQ+. Embora a protagonista, Jackie (Monica Raymund), uma latina homossexual, seja um passo importante na direção da representatividade, a série traz uma desconfortável objetificação do romance lésbico, além de basear quase toda representação de seus personagens não heterossexuais em uma visão meramente sexual.

Como se fosse um filme adolescente, o alívio cômico da produção pode ser resumido em trocadilhos sobre partes íntimas e piadas homofóbicas, contrapondo a tentativa da StarzPlay de mostrar um universo mais realista e maduro. Incômoda, essa apelação ao sexo e ao erotismo distrai o espectador dos poucos pontos positivos de Hightown.

Diferentemente das séries policiais mais tradicionais, a produção traz apenas um caso intrigante em sua temporada: o envolvimento do traficante Frankie (Amaury Nolasco), preso, no assassinato da jovem Sherry (Masha King), na província de Cabo Cod, nos Estados Unidos. Focar em um só crime e em como ele afeta diferentes pessoas de diversas maneiras seria um grande atrativo da série, não fosse a trama inchada e o ritmo lento dos roteiros.

A forma como aborda a dependência química, pelo menos em seus primeiros episódios, também merece elogio. Os roteiristas da série evitam de maneira simples julgar usuários em tratamento, mostrando a luta para se manter limpo e como o ambiente leva os indivíduos ao abuso de diversas substâncias.

Infelizmente, essas boas histórias nunca se destacam de fato em Hightown, ocultas por diálogos arrastados e sequências desconexas. Problemáticos, os primeiros episódios da série poderiam ter metade da duração sem perder em nada de substância. Com começo esquecível, a produção faz o bastante para chocar, mas nunca chega perto da qualidade de outros seriados do gênero.