Heartstopper e a importância da homoafetividade na TV

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Séries e TV

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Heartstopper e a importância da homoafetividade na TV

Apesar de contar uma história de amor como ela merece ser contada, o sucesso da Netflix também reforça a inevitabilidade das diferenças

Omelete
6 min de leitura
Henrique Haddefinir
20.06.2022, às 11H37

O primeiro casal gay dentro de uma série de TV americana chegou até o público em 1975. Era um sitcom ousado, chamado Hot In Baltimore, que obrigou o canal ABC a colocar, antes do início de cada episódio, um anúncio de que as histórias continham “temas adultos”. Era evidente que mesmo que houvesse cautela, a ideia não seguiria adiante. Hot in Baltimore foi cancelada depois de apenas 13 episódios e acabou se tornando somente uma nota de referência em textos como esse.

O enredo deste sitcom e sua “ousadia” foram proclamados como uma espécie de marca cultural dali por diante. Além dos personagens gays, a série tinha como personagens principais prostitutas e um imigrante ilegal. Apesar da propaganda de que essa era uma iniciativa corajosa, no final das contas era como se gays, prostitutas e imigrantes ilegais estivessem todos no mesmo balaio da marginalização norte-americana. O tom foi estabelecido e atravessamos as décadas repetindo esses mesmos preconceitos.

Dentro do universo das séries de TV adolescentes, os casais gays só começaram a aparecer com destaque na década de 90. Dawson’s Creek, em 1998, apresentou a narrativa de saída de armário de Jack, mas o personagem só foi ter um relacionamento de verdade na temporada 4 e a forma como ele foi abordado (como se a feminilidade do parceiro fosse um problema) acabou esvaziando a narrativa de seus significados. Willow e Tara, de Buffy (1997), tiveram uma abordagem melhor, mas o final da história entre elas também cedia a uma recorrência injusta: a trágica.

Mesmo em série “adultas”, como Six Feet Under (2001), a narrativa dos casais gays passava, geralmente, pelo mesmo ciclo de toxicidade provocado pela dolorosa saída do armário (que resultava em muitos abusos na auto-estima dos envolvidos) e chegavam até dois caminhos: a hipersexualização ou a neutralidade absoluta. David e Keith eram heteronormativos, fora do meio e extremamente erotizados. Até que a relação deles encontrasse algum equilíbrio foram temporadas e temporadas de uma interação cheia de mentira, traição e pornografia. A série vizinha, OZ (1997), alcançou fama mundial não por ser uma série sobre um presídio, mas por contar a história de amor brutal entre Keller e Beecher, que entre cenas de sexo quase explícito, correlacionava violência extrema com carinho.

Com o avanço dos anos, muitas dessas dinâmicas acabaram se tornando regras de abordagem, uma espécie de mimese involuntária. Com essa carreira de tragédias e extremos, era natural que personagens gays fizessem seus intérpretes ganharem destaque como grandes atores; o que contribui, inevitavelmente, para a perpetuação da ferramenta. A dor e o sofrimento eram o que mantinham a audiência interessada, enquanto os casais protagonistas – de menina e menino – tinham mais tempo de tela, mais investimento, mais segurança, por mais entediantes que fossem e menos interessantes que soassem.

Heartsopper é sobre amor (também)

Netflix/Divulgação

Assim que Heartstopper foi lançada, sua reputação atravessou a internet como uma série diferente, como uma história de amor “como tinha que ser”, sem as mesmas manias das outras produções do gênero. Essa ideia que vinha de parte da comunidade gay, se chocava com a contra-partida do público massivo, que repete a ladainha de que “a TV agora tem sempre um gay”, como se isso fosse um problema ou mesmo uma ameaça para o protagonismo heterossexual inerente à realidade inevitável da maioria. Exatamente por isso, aceitar a presença de histórias essencialmente gays na televisão não deveria ser difícil para ninguém.

Baseada nos quadrinhos de Alice Oseman (e adaptada por ela), Heartstopper não se passa em território americano, mas está completamente mergulhada nesses mesmos códigos. Nick (Kit Connor) e Charlie (Joe Locke) são personagens conduzidos com ternura e sensibilidade, que acabaram sendo marcantes por estarem longe de quase todos os vícios de linguagem com os quais a comunidade gay precisou viver desde aquele ano em que Hot in Baltimore estreou. Mas, vamos reforçar bem esse “quase”, porque ele é muito importante.

Tudo que acontece na relação entre os protagonistas da série é previsível. Não no sentido pejorativo, mas no sentido confortável, como naqueles filmes de Sessão da Tarde. É importante reforçar que o enredo de Nick aceitando aos poucos a própria sexualidade é deveras comum; e que os mecanismos que causam tensões entre Charlie e os outros personagens – sejam seus amigos ou os amigos de Nick – também são bastante naturais e reconhecíveis. Mesmo em Glee (2009), Ryan Murphy já tinha dado ao relacionamento de Kurt e Blaine um tratamento igualmente sensível e com o mesmo tempo de tela e importância dramática que o casal principal da produção. E com um detalhe importante que não faz parte do universo de Heartstopper: um dos dois elementos do casal é claramente afeminado. Em Schitt’s Creek, a premiada comédia criada pelos Levy, isso também acontece e tem o mesmo valor.

Sem Extremos

Muito de como Heartstopper atingiu seu público se deve a uma ansiedade de livrar-se desse passado em que casais gays morriam ou eram puro fetiche. Isso explica, aliás, o profundo desserviço que Elite (2018) tem prestado desde que estreou. A série se apegou tanto ao homoerotismo tóxico, que sua temporada atual se baseou inteiramente na exploração disso. Mas, ao mesmo tempo, é importante sinalizar que ainda que estejam suavizados por uma direção delicada, o comportamento covarde, as agressões à auto-estima e a negligência ainda fazem parte da estrutura de Heartstopper. E a questão toda é que isso não deveria ser um problema.

Séries voltadas para o público LGBTQIA+ são essenciais para a cultura mundial e também para o mercado. Mas, por conta de uma obviedade histórica, as narrativas homoafetivas nunca serão iguais as narrativas heteronormativas; e até que alcancemos o ponto onde a homossexualidade seja naturalizada, essas narrativas ainda não podem ser. Para inspirar pais, mães, irmãos, amigos, os conflitos de jovens como Nick precisam estar no ar. O drama da saída do armário, da rejeição, não tem que ser um vilão - e Heartstopper é tão bem-sucedida justamente porque consegue fazer isso sem perder de vista a responsabilidade afetiva.

O sexo tampouco é um inimigo. O sexo é um propulsor da comunidade, sempre foi, sempre será; e esconder sua presença com ares de superioridade romântica não é honesto. Ele não deve, principalmente, ser compartimentado para fora das noções de homoafetividade, porque, de fato, desejo e afeto não são a mesma coisa, mas são partes complementares de um relacionamento pautado na verdade. Heartstopper foi criada para alcançar adolescentes pelo viés da ternura e ela é – de todas com as quais compartilha características – a que melhor fez isso. Mas, devemos ter cuidado para não celebra-la por conta de tudo que a faz se parecer com uma série heteronormativa, porque, enfim, já há narrativas demais assim ao nosso redor.

Heartstopper é um primor, uma produção que trata a diferença com respeito e com beleza, que fala de tudo que angustia o jovem que experimenta a afetividade de um jeito especial - como as narrativas do mundo não costumavam privilegiar. Mas, que também traz de volta a oportunidade de olhar para o romance, para a fidelidade, para a beleza do “eu e você”, sem que isso represente o provincianismo que os adeptos da pluralidade sexual e afetiva usam como acusação (em busca de defesa). Há lugar para todas as manifestações do afeto e do desejo, desde que tudo parta do amor; esse que une todos nós e que deve ser sempre a prioridade das nossas vivências. Mais ainda: que deve ser a prioridade de como olhamos para as vivências do outro.

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