10 provas de que Fernanda Montenegro é a deusa da dramaturgia brasileira

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10 provas de que Fernanda Montenegro é a deusa da dramaturgia brasileira

Nos 90 anos da atriz, relembre momentos marcantes da sua carreira

Henrique Haddefinir
16.10.2019
11h12

É aniversário de Fernanda Montenegro e, aos seus 90 anos, a grande atriz desse país segue nos acarinhando com novos trabalhos e novos personagens. No cinema, na TV, no teatro, para ela não existem fronteiras e como diria Cam (Eric Stonestreet) em Modern Family, ela poderia fazer o Batman e provaria ser a escolha certa. Nossa lista abaixo contém apenas alguns momentos da televisão e do cinema que foram marcantes na trajetória de Fernanda, considerando especialmente seus papéis em novelas, séries e minisséries. Muitas vezes, as produções nem fizeram tanto sucesso, mas a presença da atriz no elenco acabava justificando seu apelo e suas qualidades. Que venham muitos anos de vida ainda. Essa é nossa pequena homenagem.

Vó Manuela – Riacho Doce

Fernanda Montenegro como Vó Manuela em Riacho Doce
Globo/reprodução

A minissérie Riacho Doce estreou no ano de 1990 como uma opção da Globo ao lutar contra o domínio da Manchete, que alcançava sucesso com Pantanal. Na história, Carlos (Herson Capri) e Eduarda (Vera Fischer) chegam até uma vila de pescadores e lá a moça conhece Nô (Carlos Alberto Ricceli), um nativo que é totalmente controlado pela vó Manuela, vivida por Fernanda. A mulher era uma espécie de líder espiritual que para impedir que o neto se envolvesse com qualquer uma, “fechou seu corpo” para o amor. O problema é que Eduarda consegue furar essa barreira e os embates entre as duas são inesquecíveis até hoje. Fernanda fez escolhas rígidas para compor Manuela, sempre com uma expressão dura, uma voz grave, um olhar que só ia da frieza para a ira contida... Seu trabalho era ainda mais marcante porque sua personagem anterior na TV havia sido em Cambalacho, uma comédia escrachada de Sílvio de Abreu.

Jacutinga - Renascer

Fernanda Montenegro como Jacutinga em Renascer
Globo/reprodução

Renascer foi a primeira novela de Benedito Ruy Barbosa na Globo e ele não estava de brincadeira. Além de ter uma história forte, conseguiu que o diretor Luiz Fernando Carvalho transmitisse ao público a atmosfera do interior da Bahia e seus aspectos lúdicos e fantasiosos. A primeira fase da novela talvez tenha sido uma das mais especiais que a televisão já produziu; e Fernanda Montenegro estava justamente nela, vivendo a cafetina Jacutinga. A personagem era um eco de sabedorias simples e eficazes, como é bem típico da carreira de Ruy Barbosa. Fernanda imprimiu nela uma melancolia quase romântica e sua sequência de despedida, numa carroça, seguida por um bando de crianças, foi uma das mais belas da novela.

Zazá – Zazá

Fernanda Montenegro como Zazá em Zazá
Globo/reprodução

Zazá não foi tão bem na audiência do horário das 19h entre 1997 e 1998, mas Fernanda Montenegro marcou presença como uma adorável mãe de sete filhos desajustados que precisavam de anjos da guarda para despontarem na vida. A trama da novela focava então na busca dela por esses “anjos” e suas interações com cada um dos filhos. A novela tinha problemas de ritmo, foi esticada, mas era a personagem de Fernanda que segurava as pontas e garantia o interesse do público. Era uma interpretação alegre, otimista e apaixonada, já que a aviação era o grande amor de Zazá na novela.

Nossa Senhora – O Auto da Compadecida

Fernanda Montenegro como Nossa Senhora em o Auto da Compadecida
Globo/reprodução

Exibida como minissérie e depois como longa-metragem, O Auto da Compadecidade Ariano Suassuna, foi adaptado com um elenco estelar e na hora de representar o purgatório da ação final da história, Fernanda Montenegro foi ncumbida de interpretar Maria, mãe de Jesus. A comédia está presente em absolutamente toda a trama, mas as sequências no purgatório são especialmente belas, já que a direção quase artesanal de Guel Arraes se encontra com o texto sagaz e emocionado de Suassuna. Fernanda não caiu no erro de santificar a personagem, mantendo em vigência sua postura de acolhimento soberano, mas sem perder o humor e até a ironia.

Madrasta – Hoje é dia de Maria

Fernanda Montenegro como Madrasta em Hoje é dia de Maria
Globo/reprodução

Hoje é dia de Maria, do ano de 2005, foi um dos grandes sucessos da Globo e marcou o início de uma era de grande valorização da estética e da forma. A menina Maria fugia da madrasta que a maltratava e Fernanda fazia justamente essa personagem. O trabalho de prosódia pode ter complicado a vida dos espectadores, mas deixou Fernanda quase irreconhecível. Em poucas cenas, com poucos olhares, cumpriu a missão de fazer a fuga da protagonista parecer a única solução possível para sua vida.

Bia Falcão - Belíssima

Fernanda Montenegro como Bia Falcão em Belíssima
Globo/reprodução

Vilãs de novela são sempre uma boa oportunidade de demonstrar nuances diferentes e a Bia Falcão de Belíssima foi outro bom momento de Fernanda em novelas. A trama em si não tem elementos inesquecíveis como um todo, mas as tiradas de Bia ficaram marcadas do mesmo jeito que com a Odete Roitmann de Vale Tudo. Fernanda decidiu dar à empresária um mau humor característico, uma impaciência com tudo e todos, num tom que é mais do que simplesmente ser esnobe. Se a novela tivesse sido exibida nos dias de hoje ela certamente seria uma rainha nas redes sociais.

Dona Picucha – Doce de Mãe

Fernanda Montenegro como Dona Picucha em Doce de Mãe
Globo/reprodução

Dona Picucha foi a personagem que deu a Fernanda o Emmy Internacional de Melhor Atriz. Mais tarde, o especial de fim de ano virou uma série, onde acompanhávamos a vida de uma senhora de 80 anos que vivia sozinha e não parecia nem um pouco disposta a deixar de se arriscar. Toda a estrutura de Doce de Mãe era muito competente, mas além de seu texto sensível e bem-humorado, a história de Dona Picucha era comandada por uma Fernanda absolutamente adorável, que imprimia na personagem uma vontade de viver que nunca se esquecia que o motivo para isso era exatamente a própria finitude. Foi um trabalho muito especial.

Teresa Petrucelli - Babilônia

Fernanda Montenegro como Teresa Petrucelli em Babilônia
Globo/divulgação

Babilônia foi uma novela problemática e Fernanda acabou se envolvendo numa polêmica justamente por ter sido apontada – junto com Nathalia Timberg – como uma das razões pelas quais a novela não deslanchou. Fernanda e Nathalia eram um casal e já no primeiro capítulo trocaram um selinho que movimentou todo o país. Ainda assim, Gilberto Braga, o autor, não recuou e manteve o casal, ainda que sem os beijinhos. A novela, porém, não se recuperou da rejeição provocada não só por elas, mas por sua linguagem dramática excessiva. É uma novela injustiçada e incompreendida.

Dulce Ramirez – A Dona do Pedaço

Fernanda Montenegro como Dulce Ramirez em A Dona do Pedaço
Globo/divulgação

A personagem mais recente de Fernanda na TV ficou no ar por pouco tempo, mas se despediu em grande estilo, numa sequência quase Breaking Bad. A matriarca da família de pistoleiros incentivava a rivalidade em que se escorava a trama e não só atentou contra a vida do membro da família rival que se apaixonou por sua neta, como promoveu um verdadeiro massacre numa cena inacreditável dessa primeira fase. A Dona do Pedaço tem uma qualidade questionável praticamente em todos os capítulos, mas a presença de Fernanda credita à produção várias estrelas a mais.

Dora – Central do Brasil

Fernanda Montenegro como Dora em Central do Brasil
Reprodução

Todos que acompanharam a repercussão de Central do Brasil no mundo ficaram frustrados quando Fernanda Montenegro perdeu o Oscar de melhor atriz para Gwyneth Paltrow. Dora, personagem de Fernanda no filme, talvez seja um dos personagens mais complexos da carreira da atriz e sua interação com o menino Josué uma das mais lindas e comoventes do cinema nacional. A história da professora aposentada que ganhava dinheiro escrevendo cartas que não eram enviadas é cortante, aguda, de tão realista e tão emocionada. Fernanda começa como uma mulher amargurada, seca, que por conta da relação com o menino vai se suavizando, até precisar fazer um grande sacrifício em nome dele. A cena final, quando ele corre pelas ruas do bairro enquanto ela segue num ônibus de volta para o Rio de Janeiro, é daquelas que te fazem querer chorar toda vez que passam pela cabeça.