Estilhaços: Ryan Murphy erra a mão numa das apostas mais aguardadas do ano
Nova série já está em exibição no Disney+
Ryan Murphy tem um talento raro para transformar décadas inteiras em personagens à parte de suas produções. Foi assim em Halston, em American Crime Story e mais recentemente em Love Story, sobre o romance entre JFK Jr. e Carolyn Bessette. Estilhaços, sua nova aposta para o FX baseada no romance de Bret Easton Ellis, chegava cercada da expectativa de repetir essa fórmula com os anos 1980 de Los Angeles. O resultado, no entanto, é uma série que erra justamente onde Murphy costuma acertar: em transformar um cenário histórico em algo vivo.
O ponto alto, sem dúvida, é o mistério em torno do "The Trawler", o serial killer que aterroriza a cidade e paira como ameaça constante sobre o grupo de amigos protagonista. Há tensão genuína nas cenas que giram em torno dos assassinatos, e a série consegue, aqui e ali, capturar aquele clima de paranoia que fez do romance de Ellis um sucesso. É a única engrenagem da trama que realmente funciona.
O problema é que esse mistério precisa sustentar personagens em quem é praticamente impossível se apegar. Bret, Susan, Debbie e Thom são escritos como uma galeria de jovens ricos, frios e autocentrados, sem que a série ofereça contrapontos de humanidade o suficiente para compensar. Faltam arcos de verdade: eles começam a temporada de um jeito e, capítulos depois, seguem praticamente no mesmo lugar emocional, só que com mais segredos acumulados e conflitos rasos dominando a narrativa.
A ambientação nos anos 1980 também decepciona. Enquanto Halston usava o cenário para dizer algo sobre a época, e Love Story fazia da estética dos anos 1990 quase um personagem à parte, Estilhaços trata a década como pano de fundo decorativo. As roupas, os carros, os penteados e a trilha sonora estão lá, mas raramente comunicam algo além de "isto se passa no passado". Falta o mergulho sensorial que Murphy já provou dominar em outros projetos.
O maior tropeço, porém, tem nome: Bret, vivido por Igby Rigney. É um protagonista que carrega dois pesos ao mesmo tempo, o medo constante de ser descoberto como gay e uma obsessão crescente por Robert, o novo aluno misterioso. Rigney simplesmente não tem repertório para sustentar essa complexidade. As cenas de maior tensão emocional soam mecânicas, e o medo que deveria mover o personagem nunca se traduz em algo palpável na tela.
Essa fragilidade contamina também a relação entre Bret e Robert Mallory, vivido por Homer Gere. A química que deveria explicar a obsessão do protagonista simplesmente não existe. Robert é escrito como magnético e enigmático, mas a atuação nunca entrega esse magnetismo, e o espectador fica assistindo a uma obsessão da qual não consegue participar. É o tipo de falha que compromete a espinha dorsal dramática da série inteira.
No fim, Estilhaços entrega um mistério competente dentro de uma série que não sabe o que fazer com o resto. Ryan Murphy já provou várias vezes que sabe recriar época, tensão e personagens à beira do colapso. Desta vez, ele acertou só um terço da equação, e é justamente a parte que menos precisa de atores para funcionar.
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