Hazbin Hotel | Compositor Sam Haft fala sobre seu trabalho na série e mais; leia
"Seria ótimo se pudéssemos distribuir solos para todo mundo", brinca o músico
Créditos da imagem: Sam Haft via Zoom / Prime Video (Divulgação)
Em 28 de outubro de 2019, a animadora Vivienne Medrano publicou em seu canal no Youtube, Vivziepop, o piloto da animação Hazbin Hotel. Este vídeo, que hoje conta com mais de 120 milhões de visualizações, conquistou corações pelo mundo inteiro, o que culminou na criação da série homônima que estreou no Prime Video em 19 de janeiro de 2024 e conta com duas temporadas disponíveis na plataforma, além de ter sido renovada para mais duas temporadas.
Paralelamente, um segundo projeto que se passa no mesmo universo, mas protagonizado por personagens diferentes, também ganhou vida, desta vez no canal do Youtube de Medrano. Atualmente, a série chamada de Helluva Boss também está disponível no Prime Video.
Um fator extremamente importante nas duas produções é que elas são musicais. Em cada episódio das séries pertencentes ao Hellaverse, ao menos uma música se faz presente, contribuindo para o desenvolvimento de personagens moralmente questionáveis e indubitavelmente apaixonantes.
Os artistas responsáveis pela criação das canções que tornam as dinâmicas destes projetos ainda mais viciantes são os músicos Sam Haft, integrante da banda The Living Tombstone, e Andrew Underberg.
Abaixo, você confere na íntegra a entrevista que o Omelete realizou com Haft sobre seu trabalho com Medrano, os desafios da profissão e o que esperar das próximas temporadas de Hazbin Hotel:
Omelete: Para começar, você pode me explicar qual é o processo básico de escrever uma música para Hazbin Hotel?
Sam Haft: Claro. Então, é um processo super encabeçado pela Vivienne Medrano, que é a showrunner e criadora. E sempre começa com a gente fazendo uma reunião aprofundada com ela, na qual falamos sobre a história do episódio, o que os personagens estão passando, em qual ponto da história a música vai começar e terminar.
Então, por exemplo, se um personagem precisa tomar alguma decisão antes do fim da música, isso é super importante pra conversa. Se um personagem começa num ponto e, mentalmente, chega em outro até o final, a gente precisa conseguir construir isso dentro da música, como se fosse uma cena normal.
E aí, grande parte da conversa gira em torno da música como uma cena mesmo, como um espaço onde os personagens podem explorar um sentimento ou aprender algo novo sobre si mesmos ou sobre outra pessoa.
Além disso, a Viv é uma pessoa muito musical. Então a gente passa bastante tempo conversando também sobre que músicas ela tem na cabeça quando pensa nessa cena. Ela escuta muita música, de muitos estilos diferentes, e às vezes isso surpreende a gente. Ela chega e fala tipo, “Ah, tô pensando nessa música country”, ou algo assim, e a gente fica, “Nossa, ok, que legal. Isso é algo novo.” E aí a gente explora essas ideias musicais enquanto tenta, ao mesmo tempo, atender a todas as necessidades da história que ela quer contar.
Omelete: Você mencionou que ela surge com ideias como música country, por exemplo. Muitos personagens parecem ter décadas, gêneros musicais ou temas específicos associados a eles. Como você decidiu quem combinava com o quê? E pode me dar um exemplo?
Sam Haft: Claro. Então, isso é bem interessante, porque a nacionalidade e a época desses personagens, obviamente, é tudo decidido pela Viv. Mas é interessante como isso afeta a música, porque não é só a nacionalidade e a década. Também tem a personalidade.
Um ótimo exemplo disso é o Sir Pentious, porque a música dele e os instrumentos que a gente usa nas músicas dele, tem muito uso de cravo, quase sempre. A gente usa cravo, violões de corda de nylon, violões de cordas mais suaves, os violões clássicos. E, em parte, isso é porque ele é do começo do século. Ele estava em Londres. Então os instrumentos que a gente usa levam isso em conta.
Mas o estilo da música que a gente usa não é música do começo do século. O estilo musical do Sir Pentious é quase como música de boyband, tipo Backstreet Boys. É meio boyband, meio balada, porque, mesmo que os instrumentos sejam influenciados pela época e pelo lugar de onde ele vem, o estilo é influenciado pela personalidade dele, que é super sensível e dramática.
Omelete: Isso se aplica a grupos de personagens também? Porque quando olhamos para o povo celestial, por exemplo, Lute, Adam, Abel… Todos eles meio que existem naquele espaço do rock. Como isso funciona?
Sam Haft: Totalmente. Então, essa foi uma ideia interessante: pensar em como a música seria no céu. E, na real, existem duas, bom, depois da segunda temporada, três, vertentes da música do céu.
Tem a versão do céu que os vencedores, as pessoas que vão pro céu, estão vivendo. Para isso, com a Emily e com Saint Peter, a gente usou house music, porque são pessoas cuja vida é uma festa todo dia. Então a gente queria algo que tivesse muita energia, bem animado, com essa sensação de que todo dia no céu é incrível e que eles estão sempre se divertindo.
Esse foi um dos lados da música do céu. O outro lado é a música dos exorcistas. E, essa, a gente sempre quis que fosse rock, porque eles são guerreiros, são combativos, foram criados para lutar.
Então, para o Adam na primeira temporada, a gente deu rock, porque ele ainda é um cara bem dramático e meio cafona. O rock dele era meio rock cafona mesmo, e uma comparação seria a música do Meat Loaf. Era bem anos 80, tipo Bonnie Tyler, “Total Eclipse of the Heart”, aquele rock de power ballad.
Já com a Lute, ela precisava parecer diferente como personagem. Então o rock que a gente criou pra ela era um pouco mais assustador. Ele puxa mais pro rock alternativo do que o do Adam, que é bem mais antiquado.
Ele é o primeiro homem, então o rock dele é uma versão mais antiga do gênero. Enquanto isso, o rock da Lute é bem mais contemporâneo. Aí chega o Abel, e o rock dele é ainda mais moderno, porque ele é um cara jovem colocado no comando dos anjos, no comando dos exorcistas.
E claro, é o Patrick Stump. Então a gente tinha que fazer uma referência à música incrível do Fall Out Boy quando ele tem uma música pra ele. E o terceiro tipo de música do céu é esse lado mais dramático e sério, que a gente vê com a Sera e com a Porta-Voz de Deus.
Nesse caso, a gente queria fazer algo que soasse atemporal, bem dramático, sério e espiritual. É por isso que músicas como “Sera’s Confession” têm esse som muito mais espiritual. A música principal ali é conduzida por uma harpa, que você associa direto a anjos e querubins.
E até a parte da Sera no final de “When I Think About the Future” é bem coral. Tem um som bem religioso. E era importante representar esse lado do céu, essa música com um tom mais religioso, ligado a um grupo específico dos personagens celestiais.
Omelete: Sim. Então, todos os atores do elenco gravam separadamente, né?
Sam Haft: Sim.
Omelete: Qual é a parte mais difícil de escrever tantos números para vários intérpretes, quando os cantores não estão juntos?
Sam Haft: A parte mais difícil é quando a gente tem intérpretes que fazem escolhas muito interessantes e bem diferentes entre si. E, assim, mesmo sendo a parte mais difícil, eu também acho que é meio que a melhor parte, porque muitas dessas escolhas grandes que eles fazem na cabine acabam sendo os melhores momentos da performance.
Mas quando é um número com um grupo grande, isso pode ser bem complicado pra gente na hora de editar no final, porque você tem, tipo, três ou quatro personagens, e todos estão fazendo essas escolhas grandes, e você fica tentando entender como fazer essas escolhas funcionarem junto com as dos outros. E essa é uma parte enorme do nosso trabalho depois que tudo já foi gravado.
Ainda tem muita coisa do processo depois que a música já foi gravada, porque a gente tenta juntar os takes de um jeito que preserve o máximo possível das escolhas divertidas que os atores fizeram, sem atropelar a performance de mais ninguém que esteja na música.
Omelete: E quais são os atores que mais fazem isso? Eu sei que você já mencionou o Christian Borle e o Jeremy Jordan em outros momentos.
Sam Haft: Christian e Jeremy.
Omelete: Okay. E além deles, mais alguém?
Sam Haft: Além deles, o Joel Pérez faz muitas escolhas realmente, realmente engraçadas, assim, totalmente… Ele faz umas escolhas bem inesperadas durante as gravações, e o Alex Brightman também.
E eu acho que não é coincidência que tanto o Alex Brightman quanto o Joel Pérez tenham um longo histórico como artistas de comédia de improviso. Eles fazem muito trabalho de comédia, e eu acho que a arte de improvisar, especialmente numa série como essa, está muito ligada à conexão com a comédia e ao timing cômico.
Omelete: Aliás, eu não quis passar por cima do Christian e do Jeremy. O Christian é o meu ator preferido da série, na verdade. É só que já ouvi você falar sobre eles antes e queria dar atenção a outros.
Sam Haft: Ah, sim. Christian e Jeremy, eu disse isso recentemente, acho que parte do motivo pelo qual eles se sentem tão confortáveis fazendo tantas escolhas diferentes quando os gravamos é que eles também passam grande parte de suas carreiras no palco da Broadway. Quer dizer, eles trabalham a maior parte do tempo lá e, sabe, a agenda na Broadway é de oito shows por semana.
E então, se você está fazendo um espetáculo por meses seguidos, oito apresentações por semana, você vai ficar tão familiarizado com o material que vai começar a fazer escolhas estranhas cada vez que estiver no palco. E acho que uma das coisas que os torna artistas tão interessantes de assistir e reassistir no palco é que a versão daquela performance que você vê o Jeremy fazer na quarta-feira pode não ser a mesma que ele faz na quinta, nem a mesma que ele faz na sexta-feira.
Então, acho que os dois são pessoas que se sentem muito confortáveis fazendo escolhas diferentes e tomando liberdades com o material.
Omelete: Posso te perguntar quanto tempo você passa com eles na cabine para cada sessão de gravação? Quanto tempo isso leva?
Sam Haft: É uma ótima pergunta. E, na verdade, ninguém nunca me perguntou isso. Então, vou dizer que, geralmente, para um solo ou uma música que só precisa de um ator do começo ao fim basicamente, sabe, mesmo se for um dueto, normalmente leva de 90 minutos a duas horas para gravar.
Sabe, depende da música. Têm músicas que são muito, muito difíceis, que podem levar mais de uma sessão. E têm músicas que são tão intuitivas que até se for um grande número solo, levará apenas uma hora.
De verdade, é também sobre quanto tempo a gente agenda com o estúdio. E normalmente é 90 minutos a duas horas para um solo grande. Para números coletivos, dá para fazer em 20 minutos, com cada ator.
Às vezes, varia de 45 minutos a uma hora. Realmente depende do quão complicada é a canção.
Omelete: E quanto tempo eles têm antes da gravação para se familiarizar com o material, aprender a letra e entender o conceito da música?
Sam Haft: Vou te falar que não existe uma resposta única para isso. Depende. Acho que têm atores que, por exemplo, o Keith David, que gostam de muito tempo de ensaio.
Então, alguns atores vão esperar até terem o material por tempo o suficiente e ensaiarem com o material por bastante tempo antes de agendarem suas sessões. Mas eu diria que, normalmente, se fosse para dar uma média, talvez de uma semana a 10 dias. Às vezes as músicas são finalizadas bem cedo e eles podem ficar com o material até por alguns meses.
Mas, honestamente, seria de uma semana a 10 dias. Ao menos para um solo.
Omelete: Isso sendo o material para apenas uma música?
Sam Haft: Isso.
Omelete: Porque, só vou jogar isso na roda, têm atores como o Joel, por exemplo, que não tiveram nenhum solo ainda. Apenas fizeram parte de números maiores. Enquanto isso, o Christian teve basicamente metade da temporada só para ele.
Sam Haft: Então, na segunda temporada, estávamos fazendo piadas sobre como (e isso não é verdade, Christian) estávamos cansados dele. Porque a temporada tem vinte músicas e acho que o Christian está em dez delas. Quer dizer, fizemos ele trabalhar bastante na segunda temporada.
Mas sabe, você falou sobre o Joel não ter tido um solo ainda. Essas são coisas que levamos em consideração ao escrever as próximas temporadas de uma série. Então, para a terceira temporada, estávamos pensando, “Ah, quem ainda não teve o momento de expressar seus sentimentos em um solo? Quem não esteve tão presente quanto gostaríamos? Com quem não passamos tanto tempo, musicalmente falando?”
Isso tudo é parte do que pensamos ao decidir para quem as músicas irão. Mas tanto disso depende já que, sabe, temos um número limitado de episódios, um número limitado de minutos por episódio. Então seria ótimo se pudéssemos distribuir solos para todo mundo a cada temporada, mas sempre acabamos desejando que pudesse haver mais músicas ao final da temporada.
Omelete: Sim, já que você mencionou “oportunidades”; entre os Vees, tivemos a oportunidade de ouvir a Velvette, personagem da Lilli Cooper com “Respectless”, por exemplo. Também tivemos muitas oportunidades de ouvir o Christian, como você mesmo disse. Imagino que teremos mais Valentino no futuro com o Joel, certo?
Sam Haft: Potencialmente, não posso dizer.
Omelete: Ok. Eu ia mesmo perguntar, você pode me dar um spoilerzinho sobre o que vem por aí?
Sam Haft: Não posso falar. Mas eu realmente acho que a segunda temporada foi sobre o Vox, mas também sobre os Vees enquanto uma energia opositora ao Hotel. A segunda temporada foi sobre o Hotel e os Vees como dois lados do inferno, vivenciando uma luta de poder por influência.
Eu diria que, apesar da terceira temporada, como a Viv disse em entrevistas, não ser sobre os Vees da mesma forma que a segunda temporada foi, não significa que eles estão indo embora, não significa que a história deles terminou.
Digo, no final da segunda temporada, o Angel voltou para a Torre dos Vees; Têm muita coisa que faremos com eles ainda. E muito disso vai acontecer em forma da música.
Omelete: Ótimo! Bom, muitos integrantes do elenco são nomes renomados da Broadway e da atuação. Quem você ficou mais fascinado ao conhecer?
Sam Haft: Provavelmente o Keith. E é curioso porque eu sou apaixonado por teatro e ele, dentre todos, com exceção do Blake [Roman], é o que fez menos Broadway, eu acho. Ele fez teatro e bastante até. Mas ao pensar na carreira dele, você pensa no trabalho dele no cinema, colaborações com John Carpenter, mais recentemente com Jordan Peele… Ele estrelou recentemente uma série chamada Duster, ele está em Community… Ele aparece tanto na frente da câmera.
E existe algo incrível em ver alguém na TV e no cinema que te faz pensar, “Meu Deus, é o Keith David!”. Apesar de que ele é, provavelmente, o dublador mais experiente do elenco também. Ele foi a voz do Spawn, foi a voz de Golias em Os Gárgulas, foi o Presidente em Rick and Morty, está em Coraline também. O currículo dele é tão extenso e ele é uma dessas pessoas que se tornou um pilar da cultura, então conhecer e trabalhar com ele me deixou tão animado e nervoso. Ele vai ganhar uma estrela na Calçada da Fama esse ano, sabe? É incrível e ele merece muito.
Omelete: Você estava mencionando os trabalhos mais conhecidos dele e, na minha cabeça, eu fiquei pensando em Réquiem Para um Sonho. Odeio que foi isso o que surgiu na minha mente.
Sam Haft: É isso o que eu quero dizer. Ele é parte dos pilares da cultura moderna.
Omelete: Com certeza. Bom, como foi a experiência do Hazbin Hotel: Live on Broadway e o quão envolvidos você e o Andrew estiveram com isso?
Sam Haft: Foi muito divertido! Eu estava extremamente envolvido, enquanto o Andrew nem chegou perto, por escolha.
Ele pediu para não participar porque o que fazemos é muito trabalhoso e difícil. E o Hazbin Hotel: Live on Broadway estava sendo desenvolvido enquanto ainda estávamos trabalhando nas músicas da série. Eu lembro de receber uma ligação de um dos produtores da A24 dizendo, basicamente, “Ei, a gente vai fazer isso no palco. O quanto vocês querem fazer parte disso?” e eu disse, “Eu adoraria estar envolvido de todas as formas que eu puder” e o Andrew disse, “Eu adoraria aparecer no dia, sem saber o que está acontecendo.”
E foi isso o que aconteceu. E sempre que eu estava trabalhando em algo para o espetáculo, eu fingia que era algo super secreto, eu dizia para o Andrew, “Ah, eu tenho uma chamada no Zoom para algo que você não pode saber! Você não vai saber de nada! Você vai aparecer no dia, ocupar o seu lugar na plateia e aproveitar!” Porque ele tinha dito para mim que não queria saber nada sobre o que estava acontecendo e eu levei a sério.
O processo foi muito divertido. Como a maioria das coisas na vida de alguém com TDAH, foi um processo longo, mas a maior parte do trabalho foi resolvida duas semanas e meia antes do evento. Porque foi tipo, “Sim, vamos fazer! Estamos trabalhando nisso!” e de repente, “Ah, já vai rolar, né? Espera aí, vamos largar tudo e resolver isso.”
Parte do motivo pelo qual muita coisa foi resolvida mais perto do evento foi porque passamos muito tempo decidindo as músicas que seriam apresentadas e entendendo como poderíamos apresentá-las. Tipo, originalmente, “Piss” seria apresentada pela Krystina [Alabado] e pelo Alex. Aí o Alex ficou muito doente nos dias anteriores à performance. Aí pensamos, “Vamos ter que cortar essa? Como vamos fazer?”
Teve um momento em que eu enviei um vídeo em que eu cantava a música para decidir se colocaríamos outra pessoa no lugar só para que fosse tudo ao vivo. Aí decidimos que poderíamos rodar a animação com a Krystina cantando ao lado do Sir Pentious.
Teve tantas coisas para serem resolvidas ao construir um espetáculo assim. Nunca me senti tão como o meu herói pessoal, Caco, o Sapo. No sentido de que, sabe, parecia que estávamos montando o Show dos Muppets, porque temos esse monte de personalidades divertidas. E tivemos que equilibrar agendas e entender quem poderia apresentar cada música, se poderíamos adicionar alguém que não faz parte da canção original para cantar ao fundo, conseguir sincronizar a agenda de ensaios de todo mundo para “Hear My Hope” foi muito difícil. Todo mundo é super ocupado e trabalha demais. Foi muito trabalhoso.
Eu me orgulho demais dessa equipe. Mas, de verdade, parecia um ataque de pânico em grupo construir esse espetáculo, porque no dia eu estava na coxia com o fone de ouvido e um microfone, aí a produção veio até mim e disse, “Ok, precisamos preparar a próxima música, vai lá e fala com o público enquanto isso.”
Esse tipo de coisa, sabe? Tipo, “Ah não, o que está acontecendo?”. Isso não está na versão final, mas depois que todo mundo se sentou e passamos os dois primeiros episódios da temporada para eles, alguém simplesmente me agarrou, me deu um fone de retorno e falou, “Vai lá e apresenta agora!”
Ninguém me disse que eu faria isso até aquele momento. Eu descobri que iria apresentar e cumprimentar o público uns trinta segundos antes de entrar no palco. Foi neste nível de, “Ah, tudo está em chamas!” e o resultado foi maravilhoso.
O que eu aprendi é que essa é a energia em apresentações ao vivo deste tipo. Sabe, é algo que, quando eu estou em turnê com a minha banda, eu não percebi porque eu só preciso vestir o meu figurino e me apresentar no palco, conforme o ensaio.
Não preciso ficar falando com o diretor de cena e o chefe de produção para entender como as coisas vão funcionar. Eu só apareço, canto e vou embora. Aliás, nós nos apresentamos no Brasil no ano passado e foi incrível. Nos apresentamos em São Paulo, no Cine Joia.
Omelete: Que máximo, espero que tenham gostado do nosso país! Sobre Hazbin Hotel, como foi presenciar a estreia do Amir Talai, intérprete do Alastor, na Broadway?
Sam Haft: Isso me fez tão feliz, ele merece demais. E algumas pessoas fizeram a sua estreia na Broadway naquela noite. O Richard Horvitz também. Ninguém ama a Broadway como o Richard, talvez a Viv, que também estreou. E me fez muito feliz ver o Amir atingir isso, assim como a Viv e o Richard. Foi maravilhoso.
Apesar de todo o caos, existe muito caos envolvido ao produzir uma apresentação assim, o evento em si foi como um abraço coletivo. Foi muito, muito bom. Estávamos perfeitamente felizes e nos sentimos apaixonados pelo que fizemos naquela noite.
Omelete: É insano pensar que foi a estreia do Richard considerando o quão longa a carreira dele é.
Sam Haft: Nossa, sim. Ele está nisso há muito tempo.
Omelete: Ok, eu preciso perguntar. A maior parte de vocês possui uma presença online muito ativa. Vocês permitem que isso afete a forma como vocês escrevem para a série?
Sam Haft: Então, isso é interessante. Eu falei sobre isso recentemente online porque eu falei algo que as pessoas interpretaram dessa forma em uma entrevista com o Danny Motta. Eu falei sobre como, quando estávamos escrevendo a parte do Valentino em “When I Think About the Future” foi a primeira vez durante o processo que tivemos que ter consciência do quanto o fandom fala sobre o Valentino, que existem pessoas que odeiam muito ele, existem pessoas que amam muito ele. E isso não afetou a composição, mas foi algo que nos fez pensar um pouco. Nada mudou por conta disso.
Mas foi a primeira e, talvez, única vez em qualquer momento do processo de composição que tivemos que nos lembrar que, seja lá o que colocarmos aqui, as pessoas vão levar a sério. Se errarmos, vão gritar com a gente. Então, não foi tipo, “Ah, vão pensar isso ou aquilo, então precisamos mudar isso ou aquilo.”
Foi só que precisamos fazer um bom trabalho, porque qualquer falha que seja visível no nosso trabalho vai ser levada muito a sério pelos fãs.
Omelete: E eles provaram o seu argumento, aliás, pela forma como reagiram a isso.
Sam Haft: Sim, é bem isso. Sabe, de vez em quando, eu acabo baixando a guarda o suficiente para que esse tipo de coisa me incomode. Mas, na maior parte do tempo, eu entendo que quando você está criando algo que tem um público tão apaixonado, o preço é que as pessoas estarão realmente investidas no processo.
Omelete: Você escreve música tanto para Hazbin Hotel quanto para Helluva Boss. Quais são as maiores diferenças em escrever para as duas séries?
Sam Haft: Agenda. Agenda é a maior diferença. E o orçamento. Porque a agenda para Helluva Boss é muito mais flexível, por ter apenas uma produtora envolvida. Se precisamos de mais tempo ou dinheiro, se precisamos de uma sessão a mais que vai custar mais dinheiro, ou seja lá o que for, as pessoas que vão agendar isso, as pessoas que cuidam da agenda do programa e as pessoas que cuidam do dinheiro são as mesmas. É tudo a SpindleHorse.
Então é muito fácil e flexível em termos de, “Precisamos de mais tempo para escrever isso aqui”, “Precisamos de mais uma sessão de áudio”, ou qualquer outra coisa. A SpindleHorse é mais flexível porque é só uma pessoa que precisa concordar com tudo.
Enquanto com Hazbin, tem muita gente… SpindleHorse não faz parte do processo, é a Viv que faz parte do processo. Não é a empresa dela, é ela enquanto pessoa física. Então precisamos que ela concorde, mas também precisamos da Amazon se houver qualquer gasto, precisamos da Bento Box se houver qualquer problema de agenda, porque elas são as produtoras. E também tem a A24, que tende a ser mais tranquila. Não é que eles larguem a gente, mas se falarmos que precisamos de algo, eles falam, “Ótimo, faz isso.” Mas nos quesitos agenda e orçamento, precisamos que muita gente concorde com o que estamos fazendo.
Então a agenda é mais apertada com Hazbin. E, às vezes, tem a questão de o quão longa uma música pode ser. Ao escrever para Helluva Boss, nunca ouvimos que precisávamos deixar uma música mais curta porque custaria mais dinheiro deixar esse episódio oito segundos mais longo. Com a SpindleHorse é tipo, “Beleza, oito segundos, claro. Se a música é ótima, vamos pagar por esses oito segundos.”
Enquanto que, lidando com todas essas produtoras em Hazbin, é mais restritivo, mas acredito que limites podem ajudar a arte. Pessoalmente, sou da opinião que se você me coloca numa caixa, sou obrigado a usar esses limites como parte da arte, como parte do meu processo. E, na verdade, acho que uma das coisas mais difíceis para fazer é quando o cliente não sabe o que quer. Não é o caso de Helluva Boss, mas já tive clientes que falaram, “Não sabemos o que queremos aqui, nem o quão longo precisa ser, nem como deve soar.”
Poxa, eu quero limites, eu quero ser colocado em uma caixinha de areia em que eu possa brincar e saber com o que eu posso brincar.
Omelete: Eu também trabalho melhor quando recebo instruções.
Sam Haft: Exatamente. Me fale qual é a visão. Isso faz parte do motivo de ser tão artisticamente prazeroso trabalhar com a Vivienne, porque ela sempre sabe o que ela quer. É incrível ter um colaborador com quem eu posso falar, “Beleza, você quer isso? Ótimo, vamos fazer isso.”
Omelete: Hazbin Hotel influenciou o seu trabalho com a sua banda The Living Tombstone ou vice-versa?
Sam Haft: Sim, com certeza. Primeiramente, em termos do meu trabalho com a The Living Tombstone, após a primeira temporada de Hazbin Hotel, o meu colega da banda, Yoav, me falou, “Ei, essas músicas são muito boas. Tem como você introduzir esses elementos nas nossas?”. Porque, tipicamente, na banda, ele que começa todas as nossas músicas, porque ele tem a visão artística e identidade. Como a Viv tem para o Hellaverse. A identidade sonora dele é a essência do que é uma música da The Living Tombstone.
Aí em uma situação ele falou que queria que eu começasse uma música chamada “Step On Up”, que é uma canção de Five Nights at Freddy’s sobre um personagem chamado Montgomery Gator. Depois que “Loser Baby” foi lançada, o Yoav falou que queria aquele som de piano para o personagem. Foi um momento em que Hazbin afetou o meu trabalho na The Living Tombstone. Em termos da banda afetar o meu trabalho em Hazbin, isso acontece o tempo inteiro.
Porque, sabe, The Living Tombstone é a minha carreira, o meu trabalho principal, é o que paga pelo teto sobre a minha cabeça. Apesar da atenção que Hazbin recebe, é o trabalho que eu faço por fora. The Living Tombstone é o que eu faço 24 horas por dia quando eu não estou compondo para animações. Tantos elementos da forma como eu escrevo música e da minha habilidade para ser um compositor veloz, comprometido, tudo o que eu sei de composição vem do meu trabalho com a The Living Tombstone.
Omelete: Você acabou de mencionar que é um compositor rápido. Qual foi a música que demorou menos tempo para você terminar em Hazbin Hotel?
Sam Haft: Acho que “Poison” foi feita em uma tarde. Têm várias músicas que são feitas em um dia. “You Didn’t Know” da primeira temporada foi finalizada em um dia. Acho que muito disso é porque existe uma ideia de que quanto mais tempo algo leva para ser feito, mais bem desenvolvido é. Eu acho que, ao falarmos de arte, frequentemente a gente entra em um estado de fluxo, em que você deixa a inspiração tomar conta. Isso acontece com frequência com músicas que são um hit, e aí você vê o compositor falando que escreveu em uma hora e meia. Acho que a Dolly Parton fez isso com “I Will Always Love You”.
Omelete: E “Jolene”. Ela escreveu as duas na mesma tarde, se não me engano, né?
Sam Haft: Isso, exatamente. E é uma dessas coisas que, quando você tem uma ideia para uma música, você consegue ouvir ela do início ao fim na sua cabeça e ela é finalizada rapidamente. É complicado, porque também pode levar a expectativas, especialmente quando você está lidando com a indústria do entretenimento, produtoras e coisas do tipo. Demoramos talvez 10 semanas para escrever a primeira temporada de Hazbin Hotel, sabe. Entre 10 e 11 semanas.
E isso cria uma expectativa do tipo, “Se eles conseguem em 11 semanas, vamos manter esse prazo”. Na realidade, você pode se tornar uma vítima do seu próprio sucesso, se você fizer um ótimo trabalho em um curto espaço de tempo, as pessoas podem esperar que você sempre mantenha esse ritmo. Isso é duro. Quero deixar bem claro que, fazer tanta música, e música boa, em tão pouco tempo é muito difícil.
É muito difícil quando pedem por isso. É parte do motivo pelo qual me orgulho tanto por termos conseguido fazer isso e ter sido tão bem recebido. Isso aconteceu justamente por ser tão difícil de fazer.
Omelete: Existe alguma música que foi cortada que você gostaria que não tivesse sido?
Sam Haft: Não, acho que não. Porque eu acho que o que faz essa série ser boa é o fato de ser a pura visão da Vivienne. E acho que se algo não pertence ao programa, ele acaba não fazendo parte mesmo. Por isso confio tanto nela e eu preciso confiar nela para me sentir confortável como parceiro criativo, da forma que somos. Mas eu falei algumas vezes que “Easy” chegou a ter algumas versões diferentes.
Sou muito apegado a todas as versões que fizemos, mas “Easy” foi a música certa do jeito que foi para a série. É o que deveria fazer parte mesmo e é a melhor versão da cena que poderia ser.
Omelete: Já que falamos antes sobre instruções, se você pudesse escrever uma música para Hazbin Hotel, de qualquer forma, para qualquer personagem e ator, o que você faria?
Sam Haft: A pergunta não inclui Helluva Boss?
Omelete: Pode ser Helluva, qualquer produto do Hellaverse.
Sam Haft: Eu acho que tenho uma resposta para os dois. Para Helluva Boss, de verdade, eu venho pensando nisso, o personagem para o qual eu mais gostaria de compor uma música, e sabe-se lá o que vai acontecer porque só temos uma quantidade limitada de episódios sobrando e uma história específica em mente. E não é a minha história, né? Não posso simplesmente dizer que quero fazer isso porque pode não se encaixar na história que está sendo contada. Mas eu adoraria escrever uma música de vilã super teatral para a Stella em Helluva Boss. Quem sabe se isso vai rolar, eu adoraria fazer isso.
Em Hazbin Hotel, se eu pudesse fazer qualquer coisa… Bom, uma das minhas personagens favoritas é a Velvette. Adoraria fazer mais coisas com ela. Eu adoraria fazer mais solos em Hazbin Hotel também. Por termos um número limitado de episódios, muitas cenas viram números com vários personagens passando por momentos de evolução ou aprendendo algo sobre os outros. Eu adoraria poder escrever mais solos.
E, para isso, seriam necessários mais episódios. Esse é o meu maior sonho. Acho que é o sonho de todo mundo para Hazbin Hotel. Ter o máximo de episódios possíveis.
Hazbin Hotel e Helluva Boss estão disponíveis no Prime Video.
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