Emergência 53 tem a energia e a brasilidade para ser mais um grande sucesso do Globoplay
Trama médica envolvente não esquece que é, acima de tudo, uma história peculiarmente brasileira
Histórias médicas costumam gerar um fascínio interessante no público em geral. Seja pelas especificidades da profissão, pela tão falada dificuldade de ingressar na faculdade e de concluir o curso, ou mesmo pelos atos heroicos que muitas dessas tramas estabelecem como padrão para seus arcos. Não é à toa que, nos últimos anos, séries como The Pitt e a já concluída Sob Pressão tenham agradado tanto ao público. Além de trazer esses pontos já conhecidos, elas ainda mergulham no lado social tanto dos pacientes quanto dos médicos e enfermeiros. E é nessa seara (e com um prêmio no Festival de Berlim deste ano) que Emergência 53 chega ao Globoplay como uma grande promessa de sucesso.
A história acompanha uma unidade do SMU, uma espécie de Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), que opera sob a supervisão da médica Irene (Yara de Novaes). Ela decide formar a equipe com um grupo peculiar de médicos e enfermeiros. A trama parte da chegada de Manuela (Valentina Herszage), uma novata que entra na equipe como moeda de troca por novos leitos de atendimento e como um elo para o passado de Irene. Além delas, formam o time: Glória (Heloísa Jorge), uma médica com pendências na Justiça; Vandam (Jaffar Bambirra), motorista de ambulância cujo pai está preso; Duda (Ana Hikari), também motorista e mecânica, que cria conteúdo adulto para ter uma renda extra; Pedro (Emílio Dantas), um médico genial com transtorno de bipolaridade; e Átila (William Nascimento), enfermeiro evangélico que se vê dividido entre a fé e as tentações.
Logo nos primeiros episódios, Emergência 53 mostra as credenciais da equipe por trás das câmeras — a mesma de Sob Pressão —, repetindo a parceria entre Cláudio Torres, Márcio Maranhão e Andrucha Waddington. Além disso, a série volta seu olhar para questões sociais que vão muito além dos atendimentos. Política, corrupção, centros médicos lotados e sem vagas para novos pacientes e saúde mental são alguns dos temas que permeiam as primeiras horas da produção, mesclando a ação e a curiosidade sobre os procedimentos médicos a dilemas do cotidiano não apenas da área da saúde, mas de toda a sociedade brasileira.
Soma-se a isso a excelente escolha do elenco protagonista. Yara de Novaes faz a líder firme que encara desde políticos até traficantes, mas que está sempre pronta para defender seus comandados. Valentina Herszage traz a fragilidade perfeita da novata que logo mostra a que veio, precisando experimentar vitórias e derrotas na mesma proporção. Heloísa Jorge é o grande destaque do terceiro episódio, estrelando a trama mais impactante sobre a corrupção no sistema de saúde. Já Emílio Dantas tem o trabalho mais complicado: construir um personagem antipático, mas que carrega o brilhantismo da profissão e um drama pessoal ainda mais forte. Ana Hikari, William Nascimento, Jaffar Bambirra e Thaíssa Carvalho (como a ótima telefonista Lucinéia) também ganham seus momentos de brilho, orbitando em torno do quarteto que, ao menos neste início, protagoniza os arcos principais.
Com a estrutura de “caso da semana”, Emergência 53 aproveita bem o leque de atores da Globo ao trazer participações especiais excelentes, como Stepan Nercessian, Julia Lemmertz, Telmo Fernandes e, claro, Fernanda Montenegro. A diva do teatro, da TV e do cinema interpreta Dona Laura, mãe de Irene, uma idosa rebelde que vê no fim da vida a oportunidade de não perder tempo em uma cama de hospital. É uma personagem instigante, que vai aparecendo aos poucos na história e deve ganhar ainda mais relevância ao longo da temporada.
A trama criada por Torres e Fábio Mendes não perde tempo e acelera na ação, tal qual as ambulâncias da equipe. Se o primeiro episódio aborda um acidente em uma comunidade dominada pelo tráfico, o segundo nos transporta para um hotel de luxo onde um político enfarta — mas não pode ter sua localização revelada. São histórias ágeis que usam muito bem não só a tensão das situações, como também o humor e o melodrama.
Emergência 53 chega ao Globoplay como mais um acerto do serviço de streaming e reúne todos os elementos para se tornar um grande sucesso popular. Em uma época em que The Pitt é a produção que vem conquistando o público e as premiações lá fora, a série brasileira prova que também sabemos contar esse tipo de história com maestria, sob a ótica das nossas próprias peculiaridades e com o tempero dramático típico das produções nacionais.
Editar comentário
Excluir comentário
Confirmar a exclusão do comentário?
Comentários (0)
Os comentários são moderados e caso viole nossos Termos e Condições de uso, o comentário será excluído. A persistência na violação acarretará em um banimento da sua conta.
Faça login para comentar e avaliar
Compartilhe sua opinião, publique críticas e participe das discussões com a comunidade Omelete.Escrever comentário