Foto de Desalma

Créditos da imagem: Desalma/Estevam Avellar/Globo

Séries e TV

Artigo

Desalma | Globoplay investe no sobrenatural com nova série

Visitamos o set da produção, que usa a mitologia pagã para construir seu universo misterioso

Henrique Haddefinir
27.09.2019
17h11
Atualizada em
28.09.2019
16h23
Atualizada em 28.09.2019 às 16h23

A escritora Ana Paula Maia é conhecida por ir direto ao ponto e também por ser uma criadora sagaz de metáforas cruas e perturbadoras acerca da natureza humana. Vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura, ela foi contratada pela Globo para fazer uma nova produção seriada, original do Globoplay, que pudesse sorver das palavras impressas da autora um sopro de “vida real”. Foi uma iniciativa ousada e acertada dar a uma escritora brasileira já traduzida em outros países, o canal para produzir uma televisão contemporânea bem embasada. “Escrevo sozinha”, disse Maia no encontro com os jornalistas no set da série; e quando vem à tona a quantidade de referências e detalhes que ela domina e garante inserir na sua trama, a expectativa sobre a criação de Desalma cresce ainda mais.

O Omelete foi convidado para acompanhar as gravações de uma das sequências da série, em um sítio em Guaratiba, no Rio de Janeiro. A trama, situada nos anos 80, mostra que a pequena cidade de Brígida sofreu um trauma. Colonizada por ucranianos, a localidade tenta manter suas tradições vivas, o que inclui todo o misticismo e folclore do Leste Europeu. Maia vai fundo nessas referências, falando sobre um estudo bastante amplo que garantiu uma base substancial à história: “A mitologia das bruxas é uma parte importante da trama, mas não é um terror gratuito. Estamos fazendo um drama sobrenatural, cheio de questões metafísicas”. O set desenvolve a festa de Ivana Kupala, onde uma jovem desapareceu nos anos 80 e foi encontrada morta. A festa, então, foi banida e, anos depois, em 2018, a comunidade decide que é hora de superar o passado e ressuscitar a celebração. O problema é que, inesperadamente, alguém desaparece novamente.

Uma estrutura imensa aguardava os jornalistas presentes, que puderam ver as cenas feitas de dentro dela, misturadas à figuração. No dia 12 de setembro, quinta-feira, o local abrigou a versão oitentista da festa. No dia seguinte, sexta-feira, 13 de setembro, foi a vez da celebração de 2018. 150 figurantes eram preparados em visuais que remetessem a raves modernas e descoladas, regadas a muito neon e música eletrônica. Cordões coloridos, leds e maquiagens pesadas contrastavam com alguns nativos de Brígida, circulando pelo local com batas brancas e coroas floridas. Em um grande descampado a festa foi montada de modo realmente grandioso, embora escondesse a iminência de uma tragédia.

Desalmados

Os elementos humanos da série são mostrados com Giovana (Maria Ribeiro), que após a morte do marido decide se mudar para Brígida, a cidade onde ele nasceu e para onde nunca mais voltou. Ela leva suas filhas Melissa (Camila Botelho) e Emily (Juliah Melo) para o lugar, mas assim que chega descobre que o marido voltou à cidade antes de cometer suicídio. Ela é recebida pela prima do marido, Ignes (Claudia Abreu). Esta. por sua vez, tem um filho que há algum tempo começou a apresentar um comportamento estranho. A excentricidade do lugar começa a incomodar Giovana, mas antes que ela possa fazer qualquer coisa sobre isso, sua filha Emily desaparece na edição 2018 da festa de Ivana Kupala e seu drama se estabelece definitivamente.

Os diretores das sequências da sexta feira 13 são Pablo Müller e João Paulo Jabur, que organizam o “balé” dos 150 figurantes que precisam parecer estar numa barulhenta rave, ainda que o silêncio seja essencial e presente. As sequências começam com a chegada de Emily à festa, acompanhada da irmã e de outros personagens. Logo começam a ser filmados os momentos em que ela desaparece e sua mãe – junto com a polícia – começa a procurá-la desesperadamente. Esse medo tem justificativas: a cidade é regida por Haia (Cassia Kiss), uma senhora iniciada nas artes da magia e praticante de um curioso ritual de transmigração de almas, banido da cidade, mas sedutor aos olhos de qualquer um. Aí, inclusive, se esclarece o título da série; Desalma falará sobre a perturbadora ideia de trocar a alma de corpo, numa tentativa mundana de permanecer vivo a todo custo.

Algumas das referências da autora Ana Paula Maia são instigantes para o público. “Eu acompanhei Arquivo X se tornar o primeiro título respeitado a tratar do sobrenatural”, disse ela, que sabia direitinho como era a estrutura episódica da premiada criação de Chris Carter. Sua maior preocupação também parecia ser em estabelecer que, apesar do tema fantástico, os diálogos da série receberam a atenção necessária para dar ao enredo a seriedade necessária. Uma preocupação prudente, visto que praticamente todo o elenco jovem não é conhecido do grande público. De fato, toda a grandiosidade das gravações confirma o empenho da Globo em manter intocado o controle de qualidade visual da empresa. Contudo, já faz algum tempo que o esse apuro técnico não chega junto com boas dramaturgias. Desalma será uma aposta alta e cheia de potencial.

Ao falar sobre o futuro da produção, a escritora deixou alguns sinais pelo caminho: “Planejei a série para ter um arco fechado nessa primeira temporada. Mas, como em toda série, algumas perguntas podem ser levantadas para uma possível continuação”. Desalma tem direção artística de Carlos Manga Jr.Pablo Muller, que, com João Paulo Jabur, também dirige as cenas. A série é uma produção original da Globoplay, produzida pelos Estúdios Globo. A estreia deve acontecer em 2020, sem uma data definida.