Ana Paula Maia sobre a segunda temporada de Desalma: “É a volta dos mortos”

Créditos da imagem: Fábio Assunção em cena de Desalma (Reprodução)

Séries e TV

Entrevista

Ana Paula Maia sobre a segunda temporada de Desalma: “É a volta dos mortos”

Conversamos com a criadora da série sobre o que esperar do segundo ano

Omelete
4 min de leitura
Henrique Haddefinir
28.04.2022, às 17H13

Era meu sonho de menina escrever sobre terror para a TV”, disse Ana Paula Maia logo no primeiro momento da nossa conversa, dias antes da estreia da nova temporada de Desalma. Afetada pela pandemia, a primeira grande série de terror do território nacional chamou a atenção por conta de seu roteiro cimentado nas bases de Arquivo X (uma referência que a autora assume abertamente) e ilustrado com uma direção de arte de tirar o fôlego. “Muita gente agiu com certa desconfiança antes, mas a recepção foi sempre muito positiva. Há uma grande ansiedade para a segunda temporada e isso é uma alegria muito grande”.

Lançada em 2020, o primeiro ano da pandemia, a série trazia Cássia Kiss, Claudia Abreu e Maria Ribeiro à frente de uma trama sobrenatural, pouco comum dentro da nossa produção dramatúrgica, que usava de uma raiz mitológica ucraniana inserida no sul do país, para desvendar mistérios acerca da transmigração de almas. A partir da morte de um personagem, uma rede de conexões vai se revelando e provocando o espectador, que apesar de saber, em parte, a resposta para um dos mistérios que os personagens não conhecem, ainda é pego de surpresa. Estruturalmente, a primeira temporada é aquela que levanta perguntas. Agora, então, é hora de explorar esse conteúdo.

Ana Paula é sempre muito direta ao falar de sua criação e foi direto ao assunto na hora de anunciar essa nova leva de episódios: “Eu diria que a segunda temporada poderia ser chamada de A Volta dos Mortos. E isso no sentido figurado e no sentido real. Temos o retorno do Aleksey, que era um personagem morto que não estava morto. Temos uma cabeça que foi desenterrada no final da primeira temporada que também precisa ser explicada, o que acabou sendo meu momento Arquivo X favorito... Vamos ver toda a construção desse enredo e como esse personagem era antes de perder a cabeça, literalmente. Também vamos para a linha narrativa de 1995 e vamos entender quem é o Roman, inclusive indo com ele para Kiev, depois da queda do regime soviético, no início do seu envolvimento com o ocultismo. Sete anos depois da morte da Halyna, coisas aconteceram com ele que o obrigaram a lidar com esse oculto”.

O adiamento dos trabalhos para a segunda temporada, segundo ela, mudou pouco do que estava previsto no enredo. Uma sequência de aglomeração, num jantar, precisou ser reescrita: “Eu tive que picotar tudo que acontecia nessa festa... e também não podíamos mais ter animais. Então, eu precisei mexer mais nessa questão protocolar. Mas, eu acho que a segunda temporada estava no papel num nível acima. Tive um feedback muito bom, mas a história já estava andando sozinha. Eu não podia entregar muito, não podia correr muito... Eu precisava primeiro estabelecer o universo pra ficar bem embasada. Agora não... Agora não preciso mais explicar tanto, temos mais ação, mais terror...”.

A ida do personagem Roman para Kiev é apenas mais uma das ressignificações da série desde que a Rússia declarou guerra contra a Ucrânia. Ana Paula tem consciência de que Desalma agora vai ser acessada por conta disso também e que será assistida com uma nova ótica: “Existem frases dessa segunda temporada que as pessoas vão ouvir e vão achar que foram gravadas depois da guerra. Mas, não. Elas todas já estavam escritas”. Com os novos episódios todos escritos e gravados quando a guerra estourou, Ana Paula precisou lidar com os aspectos emocionais disso: “Eu fiquei sem dormir... Eu lembrava de coisas que os personagens disseram no primeiro ano... Pareciam previsões. E eu acabei criando uma relação com aquele lugar, estava até planejando uma ida até lá... é muito estranho. Eu tenho a intuição de que as coisas estão pelo ar e que alguém vai lá e pega”.

Diante de uma expectativa grande para que o gênero seja consolidado, a segunda temporada está cercada também de perigos: “Uma segunda temporada pode derrubar uma série”, disse Ana Paula ao falar de sua preocupação de que a história “subisse” e que nenhuma “barriga” fosse feita. “Eu acho que eu consegui”.

A morte já é um tema presente na obra da autora e agora é como se ela estivesse mergulhada nas questões filosóficas que ela traz à tona. “Desalma fala de transmigração de almas, de sair de um corpo doente e isso não deixa de ser uma metáfora valiosa sobre a migração. A Ucrânia está passando por isso. As pessoas estão migrando para fugir da dor, da luta... eles migram em busca da vida”. Ana Paula lembra que no primeiro episódio da primeira temporada um dos personagens diz que “a Ucrânia resiste a tudo... à fome, à guerra... à Rússia”... E esse trecho quase profético da dramaturgia da série encerra nosso papo com arrepios.

No que diz respeito ao que a autora planejou, Desalma está bem assegurada. “Tenho planos para a terceira temporada, mas isso depende de outras forças. Estou aguardando para saber”

Entre as novidades, teremos ainda a presença de novos nomes como Malu Gali e Fábio Assunção. A nova temporada já pode ser assistida e está disponível no Globoplay.

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