Séries e TV

Artigo

Demolidor nas telas

Demolidor nas telas

José Aguiar
12.03.2003
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h13
Atualizada em 21.09.2014 às 13h13

O DD em Homem-Aranha e
seus Incríveis Amigos...


... em Marvel Action Hour...

... e em Spider-Man.

Audacioso, o Ninja Sem Medo

Com direito a logotipo...

... o bom amigo David Banner...

... e o paizão, Stan Lee.

Hulk esmaga advogadozinhos

Fazendo pose
Se você acha que o Demolidor só ganhou as telas em 2003, pode tirar a egüinha pocotó da chuva. O herói número um dos deficientes visuais já teve outras encarnações em celulóide. A bem da verdade, nada muito notável. Afinal, como nosso defensor destemido não era produto de primeira linha da Marvel, jamais teve tratamento muito digno. Até o longa de 2003 era encarado sem muita expectativa (tanto de produtores como do público) até o Homem-Aranha exceder todas as projeções de faturamento. Daí, o filme do Demolidor andou rapidinho.

Mas e antes disso?

Enquanto Hulk e o Aranha colecionam séries, o pobre diabinho teve que se contentar com participações especiais nos programas de seus colegas. Primeiro foi convidado num episódio do desenho Homem-Aranha e seus Incríveis Amigos. Na verdade, sua contraparte, Matt Murdock o advogado de 9 entre 10 super-heróis foi quem participou do programa. O Demolidor mesmo só apareceu numa rápida pirueta, na qual o narrador comenta que apito ele toca. Depois, ajudou o Quarteto Fantástico a enfrentar o Doutor Destino em um dos episódios de Marvel Action Hour - Fantastic Four. Por fim, voltou a colaborar com o teioso na nova série Spider-Man, em dois episódios contra o Rei do Crime.

O Demônio do Velho Mundo

Antes de Ben Affleck provar que o vermelhinho poderia render um troco legal nas telonas, os franceses (isso mesmo!) saíram na frente.

Em 2001, ao custo de 5 mil dólares, o diretor David Sarrio realizou Dare Devil (separado assim mesmo, para burlar os direitos autorais). Um interessante curta-metragem calcado na fase em que as HQs do Demolidor eram obra de Frank Miller.

Nele, nosso herói luta com alguns capangas, faz piruetas e encara o Rei do Crime. São três minutos de pura diversão, nos quais se percebe o carinho que os autores tinham pela personagem; a começar pela bela abertura em computação gráfica, que flerta com o logotipo da revista. O clima das cenas e até os enquadramentos lembram a áurea fase de Miller. Nem tudo são flores, claro. O Demolidor (Frank Schuler), com um tom de vermelho fosforescente demais, às vezes parece uma lanterna acesa em meio aos becos escuros. Além nisso, não se pode ignorar o uniforme com enchimento que o deixou meio inchado. Lembrava o Flash da série de TV dos anos 90. E não houve como passar credibilidade ao Rei. Encontrar um gordo careca não foi difícil, mas a cara de baby face do sujeito e o enchimento exagerado da sua roupa funcionaram como um convite ao riso involuntário. Em todo caso, o filme esbanja clima e bom senso.Trata-se de uma produção de baixo orçamento (embora esmerada) e que fez bom uso de cada centavo. Diversão garantida aos fãs.

Depois disso, o super-herói ainda fez uma participação especial no filme O Império do Besteirol contra-ataca (2001), produção dirigida por Kevin Smith, que já atuou também como roteirista das HQs do mascarado (leia aqui). Porém, pela velocidade da cena, só quem estava muito atento conseguiu localizá-lo.

Audacioso é a mãe!

Alguém aí reclamou que o longa-metragem dos cinemas não foi muito fiel ao original das HQs? Então, talvez não tenha tido a oportunidade de assistir ao piloto da série de TV do diabinho. Pasmo, leitor? Quem aí lembra do Julgamento do incrível Hulk? Filme campeão de reprises nas tardes do SBT que foi dirigido por Bill Bixby, o ator que viveu o Dr. Banner?

Muitos devem se perguntar o que tem a ver o abacatão selvagem com o justiceiro cego, além de serem propriedade da mesma editora. Simples. Até os anos 90, a única personagem da Marvel a ter sucesso nas telas era o Hulk, vivido pelo halterofilista Lou Ferrigno. Protagonista, entre 1977 e 1982, de um seriado famoso no mundo todo, o verdão estava retornando à TV em uma série de longas. Aproveitando a popularidade do gigante gama, a Marvel pretendia usar seus filmes para testar novas telesséries com outras crias de seu universo. Em 1988, o Hulk trocou sopapos com um descaracterizado Thor, num filmeco sofrível. No entanto, como a audiência foi boa, em 1989 foi a vez do Demolidor arriscar a sorte ao lado do mostrengo. E olha que o Golias esmeralda facilitou bastante para o estreante.

Rodando os Estados Unidos em busca de uma cura para sua maldição, David Banner chega a Nova Iorque. Afinal, no filme anterior, sua vida de paz e tranqüilidade tinha ido para o buraco após a visita de Thor. Assumindo a identidade falsa de David Belson e portando uma generosa barba, faz questão de permanecer incógnito. Todavia, como Banner é uma pára-raios de encrencas, a confusão faz questão de vir até o desafortunado herói. Para seu azar, entram no mesmo vagão de metrô que ele, dois criminosos que acabaram de cometer um crime. Exultantes, os malacos decidem dar em cima de uma moça. Aí você sabe, seguindo a cartilha do seriado antigo: primeiro, meio a contragosto, nosso protagonista intervém. Obviamente, ele leva uma sova dos valentões e (após um esverdeamento básico) dá o troco nos infelizes malandros que escolheram logo o alter ego de quem não deviam pra praticar pugilismo.

Vencidos os oponentes, o verdão volta ao normal e acaba preso. Acusado de ser mancomunado dos marginais, Banner vai para trás das grades. Aí é que entra você sabe quem. Encarregado do caso, Matt Murdock acredita na inocência do azarado protagonista do filme. Acontece que a única pessoa capaz de inocentá-lo é a tal moça assediada no metrô. Infelizmente, a dita foi seqüestrada pelo mafioso Wilson Fisk, pois poderia identificar os bandidos que cometeram o crime e comprometer seus negócios. Para encontrá-la, entra em cena a identidade secreta de Murdock: o intrépido Audacioso!!!!??

O diabo veste preto?

O codinome Audacioso foi cortesia da inspirada dublagem brasileira, mas, no fim, veio a calhar. Assim, o nome do Demolidor não acabou sendo manchado de vez por aqui. Trajando um singelo colante preto com uma tela na frente dos olhos, o esquálido herói (aparentado de um ninja) parte em busca de informações. Em meio a chutes fuleiros e uma irritante mania de simular efeitos sonoros com a boca (Tchúú!) ao desferir seus potentes golpes na marginália, ele até interroga um tal de Turco. Possível referência ao Tucão, tradicional informante do herói nas HQs. Pelo menos, o Demolidor continua cego e com seu sentido de radar (uma visão infravermelha muito da sem-vergonha). Entretanto, não espere muito mais fidelidade. Nem chifrinhos para justificar o Devil do nome ele tinha. Ausentes também estavam o amigo Foggy Nelson, a secretária Karen Page e vários outros componentes do mito. Ao menos, porém, havia um vilão de peso. Ou quase O Rei é interpretado de maneira inacreditavelmente cafona por John Rhys-Davies , hoje mais conhecido como o professor Arturo da série Sliders e como o anão Gimli de O Senhor dos Anéis. Calvo, de cavanhaque, usando um elegantérrimo óculos escuro, certamente devia estar numa situação financeira muito ruim para aceitar esse papel.

E o Vermelhão? Digo, Pretão? Ele é vivido por Rex Smith, que sequer finge que é cego. Você deve estar se perguntando quem é esse sujeito. Smith já protagonizou uma série de razoável sucesso no Brasil chamada Moto laser, exibida na rede Globo nos distantes anos 80. Como de praxe, os heróis daquele tempo (Águia de Fogo, Supermáquina ) tinham um arsenal de veículos negros (Helicóptero, carro ). Smith combatia o crime pilotando uma motoca que saltava longe e disparava laser. Não tenho dúvidas de que o uniforme do Demol (oops!) Audacioso foi reaproveitamento do seu antigo macacão de motoqueiro.

Cadê o Hulk que estava aqui?

Banner aparece no tribunal. Pressionado, perde o controle e vira aquilo que todos conhecem. Quebra tudo, inclusive o banco do júri onde Stan Lee, seu co-criador, aproveita para fazer a tradicional ponta. Arremessa um policial do edifício e estrangula o promotor. Aí ele acorda, vira o Hulk de verdade e escapa da prisão.

Eis aí o julgamento presente no título dessa infame película. Era tudo de mentirinha. E a fuga? Nem aparece. Tudo o que vemos são barras retorcida e os urros do abacatão. Sabe como é, a verba do filme era minúscula. Anticlímax, não? Aguarde mais.

Depois o audacioso Demolidor encontra Banner e revela (sem mais nem menos) sua identidade secreta. Juntos os dois vão até um depósito abandonado (onde mais?) no qual Fisk esconde sua refém. Obviamente, era uma armadilha. Armado de algumas caixas de som, o bandidão neutraliza a superaudição do herói cego, tornando-o vítima fácil para meia dúzia de capangas de quinta categoria. Aí Banner vira Hulk de novo, dá o tradicional chega pra lá nos bandidos e salva o inválido justiceiro. Este presencia o verdão voltar ao normal e descobre seu manjado segredo. Mais amigos que nunca, o par até engrena uma conversinha vagabunda sobre seus superpoderes e vão novamente ao resgate.

Fisk reuniu em seu edifício a nata dos criminosos para mostrar o vídeo da demolição do Audacioso. Acontece que o herói surge no meio da tela pondo todo mundo para correr; inclusive o próprio Rei do Crime, que escapa num inacreditável hovercraft voador - cortesia de um defeito especial capaz de corar até o Chapolim Colorado.

E o verdão? Não quebrou mais nada?

Não precisou. Banner só subiu pelas escadas, pegou a refém e saiu numa boa. Isso sim é sistema de segurança eficiente, hein? Finda-se, então, antes do terço final da película, a participação do Hulk. É ou não é anticlimático. Ingrato, o Demolidor usa mal e porcamente o espaço gentilmente cedido pelo anfitrião.

O resultado dessa falta de dinheiro e criatividade toda? Um filme ruim. Abaixo do nível do programa do Hulk e fraco demais para alavancar uma nova série. Graças a Deus! Cá entre nós, o que esperar de um filme no qual Banner usa barba e, ao se transformar no monstrão esmeralda aparece de cara lisa, retornando ao visual peludo logo em seguida? Apesar disso, a audiência ainda garantiu a produção de um último e decepcionante longa do Hulk no ano seguinte... não que alguém se importe.

Felizmente, apesar dos pecadilhos do passado, ambas as personagens asseguraram seu espaço em Hollywood, haja vista as novas e decentes produções. Com isso, nós aqui do Omelete esperamos que deslizes como estes sejam esquecidos ou simplesmente vistos com a curiosa simpatia que só uma trasheira merece.