Jane Levy em Zoey's Extraordinary Playlist/NBC

Créditos da imagem: NBC/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Zoey's Extraordinary Playlist – 1ª temporada

Musical da NBC surpreende com uma ideia original e muito carisma

Henrique Haddefinir
07.05.2020
00h44
Atualizada em
07.05.2020
11h29
Atualizada em 07.05.2020 às 11h29

Em 2009, quando Ryan Murphy trouxe de volta o gênero musical sob uma perspectiva seriada, isso causou um choque inicial. Ninguém estava muito acostumado a ver personagens cantando em episódios de TV. Mas, Glee se tornou um fenômeno e provou que o gênero ainda tinha lenha para queimar. Smash e Empire, por exemplo, foram séries que vieram na esteira do sucesso teen. A primeira era bastante ambiciosa, mas demorou para se encontrar no próprio planejamento. Empire alcançou mais reconhecimento, mas não tem uma estrutura 100% adepta do formato, já que as músicas da série só acontecem quando os personagens se apresentam e não dentro de uma alegoria fantástica da própria cena. Mesmo assim, talvez nenhuma das duas pudesse ter saído do papel sem que as aventuras de Glee tivessem proporcionado o boom do gênero.

Zoey's Extraordinary Playlist chegou quase silenciosa, o que parece uma ironia considerando que ela é um musical no melhor estilo Broadway de ser. A surpresa foi perceber que apesar do teor juvenil, a ideia por trás da série tinha uma originalidade e seu criador, o desconhecido Austin Winsberg, havia pensado detalhadamente sobre como sua série iria trabalhar com esses códigos. A decisão incluiu os números fantasiosos que faziam parte da gênese de Glee, mas com uma justificativa inusitada para tanto. Não que essa justificativa seja necessária – musicais não precisam disso – mas foi refrescante ver que a série foi concebida com um cuidado especial.

Está na premissa de Zoey's Extraordinary Playlist o seu fator primordial mais importante. A protagonista que dá nome à série e é vivida por Jane Levy (protagonista de Suburgatory e irmã de Mickey em Shameless), que começa o piloto precisando fazer uma tomografia. O técnico do exame oferece a ela que escute algo enquanto o exame acontece. No meio do processo, uma falha promove uma estranha simbiose entre os dados coletados no organismo da moça e toda a biblioteca musical do funcionário. Zoey, então, descobre que adquiriu a habilidade de ouvir as emoções das pessoas em forma de música. Assim, mesmo que alguém diga uma coisa, a canção que ecoa de seu interior conta qual é a verdade. Ao ouvir a canção, Zoey entra numa espécie de brecha do espaço-tempo e fica por ali até o número acabar. Quem canta não sabe que canta e muito menos que dança.

Aliás, esse é outro aspecto muito particular da série. A dança, seja ela como for, fazia parte dos princípios ativos de Glee em forma de apresentação pop. Em Smash e Empire ela acontecia apenas entre os personagens que estivessem preparados para ela em alguma instância. Na maioria das vezes, não havia muita atenção a esse setor. Já em Zoey's..., a dança é um fator diferencial ainda mais notável. Todos os personagens dançam, mesmo que minimalistamente, guiados por uma vertente contemporânea que acaba permitindo que movimentos de braços e cabeça ganhem certa teatralidade. No início causa estranheza e alguns atores (como John Clarence Stuart, que interpreta Simon) hiper profissionalizam os movimentos e isso incomoda. Mas, os resultados são sempre interessantes e muitas vezes comoventes.

Play That Song

Em títulos como esse o elenco é um fator de extrema importância e a série nos apresenta uma outra decisão bastante curiosa. Diferente de produções musicais anteriores, em Zoey's... a maioria dos atores não tem os impressionantes alcances vocais de Glee, por exemplo. Não por coincidência, Alex Newell, que interpretava Unique na série de Murphy, foi escalado por uma provável influência de Richard Ulrich, produtor de elenco comum entre as duas produções. Alex é o cantor mais cristalino do grupo e seu personagem – o melhor amigo de Zoey – foi construído em torno do ator, o que destacou todos os seus pontos fortes. Alex, que não venceu o reality show que procurava um membro para o elenco de Glee, provou que os produtores e jurados tomaram a decisão errada.

Além dele, talvez Skylar Astin (que vive Max) e o próprio John Clarence, sejam os mais expansivos na hora de performar. Contudo, embora o alcance vocal de Lauren Grahan, por exemplo, não seja tão marcante, há algo de extremamente carismático em ter a atriz no elenco. Ela ainda não é capaz de livrar-se de Lorelai Gilmore, mas o público continua sendo capaz de perdoá-la. Mary Steenburgen e Peter Gallagher ocupam essa mesma posição. Gallagher, contudo, causou ainda mais surpresa ao encarnar o pai de Zoey, que sofre de Paralisia Supranuclear Progressiva, o que faz com que ele não consiga falar e nem se mover, mas seja capaz de perceber tudo. Isso significa que Zoey é capaz de ouvir as canções do pai. Durante aqueles minutinhos ele volta a ser o que era antes diante dela, apenas para retornar ao estado catatônico quando a música termina. Essas transições podem ser premiáveis para Peter, que carrega boa parte da dramaticidade da temporada.

Zoey's... acerta em quase tudo. O texto é ágil, divertido, os números são coreografados e conduzidos sempre em plano sequência, o que demanda uma segurança na direção que é realmente admirável. Existe na mixagem de áudio uma tentativa de manter os intrumentais numa frequência notoriamente menor que os vocais, para que assim pareça que os atores cantam ao vivo. Isso, contudo, acaba às vezes reforçando aspectos não tão positivos de quem está cantando. As versões também não têm tanto apelo comercial, o que é uma decisão claramente artística que poderia ser revista. Há de se ter um ponto em comum entre o super pop e o erudito. No resultado final, Zoey's... sai sempre ganhando.

Ainda não sabemos se a renovação virá e se vier, a pandemia atrasará consideravelmente o cronograma de filmagens. O season finale foi extremamente belo e também provou que mesmo sem movimentos de dança contemporânea os números coletivos podem ter muita força. A última sequência, cheia de gente, num só cenário e toda ensaiada para ser conduzida sem cortes, deu a esse fim uma elegância que merece crédito e atenção. Mas, por mais bela que a despedida tenha sido, a série precisa de uma tentativa redentora numa vindoura temporada. Zoey tem todos os motivos para não querer mais ver o mundo fantástico que a cerca, mas uma produção tão otimista como essa não pode ter como última frase uma que tristemente (e sensivelmente) declara para o espectador “o dia que a música morreu”. 

Nota do Crítico
Ótimo