Foto de Young Sheldon

Créditos da imagem: Young Sheldon/CBS/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Young Sheldon - 3ª temporada

Com boa trama de amadurecimento, série mostra que pode ser mais interessante do que a original

Camila Sousa
03.05.2020
17h42

Quando The Big Bang Theory foi encerrada em 2019, a única parte da história sobre os personagens que continuou no ar foi Young Sheldon, série derivada que mostra o crescimento do cientista no Texas. Com uma linguagem mais simples e inocente, afinal a trama é sobre uma criança, o seriado pode parecer uma escolha boba à primeira vista, mas a verdade é que a trama foca em assuntos até mais interessantes do que a produção original.

Um dos grandes acertos da nova temporada foi usar os coadjuvantes para expandir os temas. Sheldon (Iain Armitage) continua sendo o protagonista mas, ao dar espaço para sua família, a produção ganhou muita qualidade. Tal mudança é vista já na sequência de abertura do novo que, pela primeira vez, inclui os irmãos e pais do prodígio.

Seguindo o gancho deixado pelo segundo ano, a terceira temporada começa focando no Dr. Sturgis (Wallace Shawn) e seu tratamento após ter uma crise. Young Sheldon usa o momento para falar sobre saúde mental e como todos podem ajudar alguém que tem problemas. Situada no Texas em meados dos anos 80, a série não deixa de mostrar os preconceitos da época, mas faz questão de pontuar o quanto tais visões eram equivocadas. Aliás, este modo de falar sobre assuntos importantes é recorrente e um ótimo instrumento ao longo da temporada.

Mostrando Sheldon e seus irmãos entre as fases da infância e adolescência, o seriado foca bastante em amadurecimento e tem momentos reconhecíveis para os fãs. Georgie (Montana Jordan), irmão mais velho do protagonista, por exemplo, tem todas as questões de gostar de uma garota que parece gostar dele, mas diz que não quer estragar a amizade. Ele também entra em constantes atritos com o pai e a mãe por querer mais independência e sonha em trabalhar para morar sozinho. Georgie, assim como vários adolescentes, sente o desejo por liberdade, enquanto seus pais usam a máxima de “minha casa, minhas regras”.

Os patriarcas também ganham bons momentos na temporada. Mary (Zoe Perry), por exemplo, fala sobre os sonhos que tinha antes de engravidar do filho mais velho e se casar com George (Lance Barber). Agora uma mãe de família religiosa, que coordena a casa e quer os filhos fazendo tudo certinho, ela já foi jovem e rebelde um dia e a lembrança disso cria uma conexão com Georgie, trazendo à tona algo que muitos adolescentes costumam esquecer: que seus pais já tiveram sua idade. O season finale também mostra como é difícil para ela deixar Sheldon seguir seu caminho, que é de sucesso, mas muito longe do Texas.

Outro destaque positivo na temporada é Missy (Raegan Revord), a irmã gêmea de Sheldon, que traz discussões pelo ponto de vista de uma menina. Ao longo da terceira temporada, ela descobre que tem talento para o baseball e deseja jogar na equipe da escola. Mas o esporte não é considerado “lugar de menina” e, mesmo quando é aceita no time por seus próprios méritos, ela precisa lidar com bullying dos colegas. Novamente, o diferencial de Young Sheldon é mostrar que tais questões eram comuns na época, mas em nenhum momento isso é normalizado ou feito de escada para alguma piada. Ao contrário, Missy fica realmente triste com tudo e a produção deixa claro como isso tem efeitos na vida da criança.

Humor e Star Trek

Young Sheldon é, de certa forma, uma aula para aqueles que acham que não dá para fazer humor sem ser ofensivo. Ao invés de "fazer piada" com assuntos importantes, a série usa o dia a dia dos personagens como base para situações divertidas. Connie (Annie Potts), a avó de Sheldon, por exemplo, tem os melhores diálogos do seriado. Rápida e irônica, ela traz um frescor com frases que fazem rir sem ofender a ninguém. A personagem, inclusive, ganhou espaço ao ser o porto seguro de Missy durante dúvidas comuns da adolescência e em sua aparentemente perfeita relação com Dale (Craig T. Nelson). 

E, claro, no meio de todo esse contexto texano está Sheldon, um jovem que não se encaixa e tem defeitos, assim como sua versão adulta, mas a diferença é que a criança sempre está disposta a mudar e aprender mais. Ao longo da temporada, o protagonista mente, prejudica um grande amigo em uma atitude arrogante (lembrando até o adulto Sheldon) e faz várias pequenas loucuras em prol da ciência.

O que muda, como já pontuado em outras temporadas, é que este Sheldon é uma criança que, na maior parte das vezes, não tem ideia da gravidade do que está fazendo. Ele fica surpreso ao ser confrontado com a verdade e, ao contrário do adulto, fica triste quando percebe que errou e pede desculpas inúmeras vezes. A inocência do jovem Sheldon é tão tocante que às vezes até fica difícil acreditar no adulto que ele se tornou.

Apesar disso, a série faz questão de manter um pezinho em sua produção de origem, especialmente para os fãs mais nostálgicos. Nesta 3ª temporada, Sheldon visita a universidade Caltech, andando por cenários conhecidos dos espectadores de The Big Bang Theory. A referência é colocada naturalmente, se encaixa bem na história e ainda deixa uma piscada para aqueles que viram Sheldon adulto naquele mesmo ambiente. Para completar, o episódio ainda mostra como o garoto usa seu amor por Star Trek para criar coragem na hora de voar de avião pela primeira vez e o season finale mostra quase o episódio piloto do que viria a se tornar o Fun With Flags, programa em que o adulto Sheldon demonstra seu amor por bandeiras.

Young Sheldon é uma competente série de comédia, que sabe mostrar assuntos difíceis da forma certa, sem nunca perder o rumo de que o humor pode surgir de momentos simples, como uma viagem em família ou uma desavença corriqueira entre irmãos. E faz tudo isso pelo olhar inocente e totalmente carismático de uma criança prodígio.

Nota do Crítico
Ótimo