Will & Grace - 11ª temporada

Créditos da imagem: NBC/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Will & Grace - 11ª temporada

Comédia arranha sua trajetória com supostas brigas internas, mas termina melhor dessa segunda vez

Henrique Haddefinir
29.04.2020
23h27
Atualizada em
30.04.2020
10h26
Atualizada em 30.04.2020 às 10h26

Tudo começou com uma campanha política e provavelmente terminou por causa do mesmo assunto. É um pouco dramático admitir que a razão pela qual Will & Grace chegou ao fim pela segunda vez mesmo tendo uma audiência tão estável, tenha sido uma divergência política. Mas o fato é que a notícia do cancelamento veio na esteira dos rumores sobre desentendimentos no set da série, especificamente entre Megan Mullaly (Karen) e Debra Messing (Grace), ambas mulheres muito fortes e de posicionamentos muito diretos. Acabando ou não por causa disso, a produção ao menos teve a oportunidade de reescrever a história do próprio fim.

Três anos atrás, o elenco – que sempre foi muito próximo – se reuniu para reviver os personagens na tentativa de ajudar na campanha de Hillary Clinton. O especial com apenas 10 minutos de duração foi um sucesso absoluto e convenceu a NBC a apostar numa pequena temporada de 10 episódios. A pequena temporada de 10 episódios virou um revival consistente, que conseguiu existir por mais dois anos e venceu essa espécie de “maldição” dos retornos, que, em sua maioria, acabaram fazendo mal para os legados das séries que defendiam. Will & Grace, pelo contrário, envelheceu bem, conseguiu ser contemporânea e corrigiu alguns enganos que cometeu em seu primeiro fim.

Ao mesmo tempo, estamos vivendo um outro momento das comédias de situação. Quando esteve no ar da primeira vez, Will & Grace vivia uma realidade onde Friends, por exemplo, ainda estava no ar. O público ainda não conhecia o estilo Veep ou Modern Family, quando as risadas ao fundo sumiram e os roteiros se tornaram mais sofisticados. Quando o revival de Will & Grace foi apresentado, o mercado das comédias já estava se despedindo de The Big Bang Theory, o último grande hit desse antigo formato. De certa forma, essa reeducação do público de comédia se refletiu na relevância que Will & Grace poderia alcançar. A falta de indicações e premiações pode ser um resultado disso, inclusive. E considerando que na primeira vez ela era quase imbatível, isso pode ter feito a diferença para todos os envolvidos.

Series Finale 2

A nona temporada, primeira do revival, foi uma das melhores da série, sem dúvida nenhuma. Max Mutchnick e David Kohan, os criadores, escreveram os episódios iniciais com tudo que vinham querendo dizer durante os anos desse longo hiato. Conforme a ansiedade de discutir vários assuntos vigentes foi diminuindo, a série encontrou sua rotina normal, com menos provocações e mais situações cômicas, típicas do formato e que não foram abandonas pelos roteiros. Com isso, a percepção da série pela crítica e pela mídia também foi se aquietando. Ficaram os fãs que tinham uma relação mais emocional, acostumados com as risadas da plateia, com os absurdos da vida dos personagens e com aquele humor físico e – muitas vezes – pastelão.

Foi um pouco desse descompromisso com a realidade que resultou num primeiro Series Finale que frustrou totalmente o público da época. Mutchnick e Kohan escreveram um final onde Will (Eric McCormack) e Grace brigavam e ficavam anos sem se falar, até que seus filhos se encontravam na faculdade. Karen e Jack (Sean Hayes) saíram ilesos do delírio, mas imaginar que os dois amigos protagonistas ficariam brigados por tanto tempo não tinha nenhuma coerência. Corrigir finais estapafúrdios sempre foi uma boa desculpa para revivals, mas Gilmore Girls, por exemplo, teve a mesma chance justamente por não ter terminado pelas mãos de sua criadora original, o que só tornavam as decisões de Max e David ainda mais estranhas.

A insistência em terminar tirando Will e Grace do lugar de conforto deles continuou. Para o novo final, os prortagonistas também tiveram filhos e resolveram se mudar. Mas, dessa vez, nada de briga, nada de devaneio. Karen voltou para Stan e Jack voltou a perseguir o sonho de ser ator. Ou seja, tudo no lugar certo, sem exageros, privilegiando a emoção. Ao contrário do que muitos pensavam, se houve um desentendimento no set ele não apareceu nas cenas. Karen e Grace continuaram interagindo, tiveram seus momentos e o elenco permaneceu unido em vídeos de bastidores. Contudo, Megan realmente se ausentou de dois episódios na temporada, o que reforçou a teoria da confusão.

Foi uma pena que a série tenha acabado sob a sombra de um escândalo tão clichê. Sex and the City 3 nunca vai acontecer por causa da briga entre Sarah Jessica Parker e Kim Catral; Lea Michele e Naya Rivera prejudicaram o andamento dos episódios de Glee... A lista de exemplos é grande e perpetua uma ideia nociva de que as mulheres estão sempre no modo de competição. Certamente, essa nunca foi a intenção das atrizes, que devem lamentar tanto quanto nós que agora serão lembradas por esse triste episódio. Entre 1998 e 2006, Will & Grace transgrediu a televisão ao mostrar o cotidiano de dois gays – um heteronormativo e outro não – com todas as suas nuances, demônios, alegrias e superações. O primeiro selinho gay na TV aberta americana, inclusive, aconteceu em um dos episódios. As provocações com cultura pop, os clássicos trejeitos dos personagens, com seus beijos de barriga e entradas triunfais. James Burrows (que dirigiu absolutamente todos os episódios) criou uma identidade física e imprevisível para as sequências da produção. Nunca personagens de uma comédia foram tão surpreendentes em cena quanto eles.

O mundo utópico de Jack, a busca pelo amor de Will (que ouviu na finale que caras gays também merecem príncipes encantados), a fascinante amoralidade de Karen e a forma sempre deliciosamente honesta com a qual Grace exibia suas qualidades e defeitos. Tudo isso é o que vai ficar na memória dos fãs. A série renasceu para mais três temporadas e teve a chance de se encerrar em termos melhores. Não é todo fã que tem esse privilégio e os de Will & Grace, definitivamente, tiveram.

Nota do Crítico
Ótimo